Retrato do País em sete dias de telejornal


Pedro Correia,

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Que retrato “do país e do mundo” – como diz um conhecido apresentador de notícias na televisão, colocando Portugal fora do globo – nos fica ao ouvirmos as frases de abertura dos principais blocos informativos de três canais durante uma semana?

Fica-nos um retrato em que a pandemia impera, um ano e meio depois. Na política, só o primeiro-ministro existe, apesar de chefiar um Governo minoritário. As notícias internacionais são escassas, como se do estrangeiro só nos interessassem os milhões que vão chegar da tal bazuca europeia que tanto ajudam António Costa na sua propaganda interna.

Fica-nos a imagem de um país resignado, abúlico, sem iniciativa, sempre à espera daquilo que os “lá de cima” e os lá de fora decidirem. Como quase sempre.

 

Domingo

RTP: “Milhares de passageiros em terra: a greve dos trabalhadores da Groundforce cancelou mais de 370 voos.”

SIC: “Está dominado o incêndio de grandes dimensões que deflagrou ontem em Monchique.”

TVI: “Só no aeroporto de Lisboa foram cancelados hoje mais de 300 voos.”

 

Segunda

RTP: “72% dos portugueses querem que a vacina Covid-19 seja obrigatória.”

SIC: “Inglaterra avançou para a última fase do desconfinamento.”

TVI: “Imagens das últimas horas na Áustria e de novo na Alemanha revelam a ferocidade das inundações.”

 

Terça

RTP: “O Parlamento rejeitou por maioria a audição ao ministro da Administração Interna, Eduardo Cabrita, que devia ser questionado sobre os festejos do Sporting.”

SIC: “O primeiro-ministro prevê o que chama “libertação total da sociedade” no final do Verão.”

 TVI: “O homem mais rico do mundo, Jeff Bezos, concretizou o lançamento da sua cápsula espacial.”

 

Quarta

RTP: “A DGS ainda não decidiu, mas o primeiro-ministro já avançou com as datas de vacinação para os jovens entre os 12 e os 17 anos.”

SIC: “Com um ano e meio de pandemia, o primeiro-ministro quer virar a página e perspectivar o futuro.”

TVI: “Começamos com o plano do Governo para vacinar crianças e jovens a partir dos 12 anos.”

 

Quinta

RTP: “A pandemia parou de crescer na região de Lisboa e Vale do Tejo, garantia deixada pelo Governo.”

SIC: “A situação de calamidade em Portugal continental vai prolongar-se até 8 de Agosto, a resolução foi aprovada hoje em resolução do Conselho de Ministros.”

TVI: “O Vaticano está a investigar uma organização católica em Portugal: são os Arautos do Evangelho, um grupo considerado conservador.”

 

Sexta

RTP: “Arrancaram os Jogos Olímpicos em tempo de pandemia.”

SIC: “Portugal vai receber apenas um terço das vacinas da Johnson que estavam previstas para Agosto.”

TVI: “Começamos pelas palavras do homem que quer comprar o Benfica: o norte-americano John Textor não desistiu do negócio.”

              

Sábado

RTP: “Os cuidados intensivos Covid atingiram 60% da capacidade.”

SIC: “Portugal foi um dos vários países europeus que sofreu (sic) hoje um corte de energia.”

TVI: “Inédita perturbação na rede eléctrica de vários países, incluindo Portugal, registada nas últimas horas.”

 

Texto publicado no semanário Novo

28 comentários em “Retrato do País em sete dias de telejornal”

  1. Temos um Órgão de Comunicação Social Único . Tem vários nomes: RTP, TVI, SIC, Expresso, Publico. Lusa…mas têm todos a mesma opinião sobre tudo. Funciona tal como nas ditaduras.
    Não deixam de ter a palavra “diversidade” na ponta da língua mas não têm interesse algum em saber o que se passa em Engenharia e Materiais, Energia, Defesa, ,Comércio e Logística, Agricultura e em muitas outras áreas.
    Talvez porque os jornalistas têm um tremendo medo de fazerem uma pergunta a que não saibam já a resposta.

    1. As agências de informação são quem fornecem as notícias diárias para os vários canais de tv e rádio.
      As agências de informação são empresas privadas e distribuem as notícias que muito bem entendem, ou melhor possam dar benefícios aos seus accionistas.

  2. Muito bem visto.
    Mas, lá está, as estações televisivas têm de garantir, mesmo nos meses de férias, que alguns ingénuos como nós fiquem horas esquecidas a olhar para o aparelho na crença também ingénua de que algo de ‘interessante’ ou de ‘novo’ irão encontrar.
    Como o conceito de ‘interessante’ varia muito com o tipo de audiência, e a audiência mais populosa é, de longe, a das telenovelas e dos programas ‘pimba’, a vacuidade de conteúdo acaba por surgir como muito natural, dado que ele se destina a pessoas que não querem ver a sua paz podre do dia-a-dia perturbada com debates sobre questões que as façam pensar, e, no Verão, não há futebol que chegue para alimentar muitos debates sobre coisas que as não fazem pensar. Isto, quanto ao ‘interessante’.
    Quanto ao ‘novo’, ou põem o engenheiro cá fora para os fogos se propagarem outra vez mais rapidamente, ou arranjam uma catástrofe qualquer para as hostes animar. De outra forma, os contratos de publicidade televisiva não irão abundar…
    Muitos canais, poucas notícias… o melhor será, mesmo, andar por aí a passear.

  3. Louva-se o Pedro Correia pela coragem de tocar num boi sagrado – os noticiários das TV’s.
    Informação chapa 5 da Lusa e da net. Todos iguais e muito juntinhos.. Os pivots de referência nos telejornais da hora nobre transformaram-se nuns canastrões do pior. Pedantes, soberbos, insinuantes, parciais e pior de tudo IGNORANTES. Pasmo como quanto mais velhos são mais burros se tornaram.
    Vejo regularmente a TVE, CNN e SKY. Será que eles se sentem tão superiores, que nem vêm o que os outros fazem melhor, ou acham que eles próprios é que devem dar lições?
    E já não falo das fatiotas e nos ridículos andar em pé de um lado para o outro..

    1. E por falar em “chapa 4”: mais alguém reparou como quase todos os media aceitaram sem mugir nem tugir a eufemização da demolição do prédio Coutinho como “desconstrução”?

      1. Foi também assim no Bairro do Aleixo, uma “desconstrução”.
        Só que o Coutinho vai à desconstrução e prontus, no Aleixo foi a desconstrução e vem a construção chique.

  4. Os jornalistas andam sempre a procura da melhor desgraça!
    E o pior são os negacionistas que andam por aí a lombrigar que está tudo bem que vamos ficar todos bem.

    Cristina Silva

    1. Noticiários são réplica da Agência Lusa.
      Tretas internas (primeira neve na Serra da Estrela, abertura da época balnear), directos com “populares”, malhar horas num assunto que esteja na ordem do dia.
      Actualidade internacional, residual.
      Um pequeno exemplo, Google e Oracle defrontaram-se no Supremo Tribunal dos EUA, acerca do uso de Java por programadores. Algo que acaba por influenciar o Mundo, dada a disseminação do Java em plataformas Android. Foi notícia por cá?

  5. Trata-se de noticiar. Não se trata de uma feira de vaidades.
    Trajo discreto e por favor: Interrompam (só) quem falseia propaganda caricata. Recusem-se a ler óbvia propaganda, mas deixem falar quem, mal ou bem, tenta vender o seu, mau ou bom, (genuíno) peixe.
    Assumem o V/ programa. Assumam-se como pivots, autores, donos responsáveis do V/espaço televisivo, divulgadores de notícias, como Alguém que vale a pena escutar. Afinal são V/ quem dá a cara.

  6. Não esquecer os “pacotes” embrulhados pelas agências ao serviço do governo e transmitidos quase em simultâneo pelas 3 TV generalistas, com os pivôs a fazerem beicinho.

  7. Aqui neste blog estão sempre a ver defeitos em tudo. Que mal tem eles repetirem as notícias e dizerem todos as mesmas coisas e com os fatinhos melhores que têm? É um respeito que nós lhes merecemos! Não se apresentam vestidos de qualquer maneira…
    E, se se repetem é para que nós fixemos as coisas. Anda por aí muita demência e até depressões e as pessoas têm dificuldades de assimilação. Deviam era agradecer…
    Adoro fixar tudo muito ao pormenor, daquele programa Terra Nossa que eles dão muitas vezes o mesmo, para aprendermos os palavrões lá do pessoal castiço. Se só passassem o programa e não repetissem eu nunca aprenderia a dizer asneirolas maliciosas…
    Sempre a pôr defeitos.

  8. A bastonária disse que emigraram em 2020 mais de 1000 enfermeiros. Não me lembro de qualquer reportagem este ano num aeroporto, com pais chorosos ao verem os filhos partirem. Podem ter seguido de comboio, admito.

  9. Há uns anos atrás, era o Fernando “petroil” Gomes Ministro, Portugal foi assolado por uma onda de criminalidade que provavelmente só terá sido superada por Juarez. Todos os dias se roubava, agredia, raptava ou matava. O dito ministro saiu*, a criminalidade desapareceu. Óbvio.

    *não sem antes ter feito um número na Linha de Cascais onde, rodeado por uns rapazes grandes, garantia que não sentia qualquer receio em ali circular enquanto passageiro. Isto perante o aval de câmeras e microfones.

  10. Sumário:
    Indecorosa propaganda governamental, aplaudida, acarinhada e deixada à solta sem rédeas.

  11. “A rasoira da mediocridade nivelou a seara numa pequenez outoniça. Não se ouve uma voz singular no murmúrio colectivo, nenhum grito se sobrepõe ao coaxar monótono do charco. As conversas são ladainhas que um ora pro nobis resignado remata ritualmente.
    Pede-se a salvação a Deus e a alimentação ao Estado, de rastos, a lamber os degraus do altar e as escadas dos ministérios. “
    Coimbra, 4 de Setembro de 1956
    Miguel Torga
    Não me parece que o problema esteja nos telejornais, nem no governo, nem na oposição.
    O problema é genético, está no ADN do português.
    Porque é que me vou chatear, assim como assim não muda nada. Eles é que mandam, eles que resolvam.

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