Retrato


José Meireles Graça,

Ando a coligir elementos para pintar um retrato do português médio. Exclui comunistas porque não quero uma coisa demasiado soturna; e bloquistas típicos porque não pretendo perder tempo com jovens parvalhões, mesmo que sejam velhos.

Das pesquisas que tenho feito já conclui que o tal português acha que: Marcelo leu livros em barda, é muito inteligente, muito dado com a gente do povo, pessoa muito simples e grande amigo de banhos de mar, tanto que até muda de calções, por causa das assaduras, sem se esconder, o que irrita muito os fachos; Costa é muito bem disposto, governa com grande habilidade e nunca se esquece dos pobres; Rio é menos hábil do que Costa, mas muito sério, embora dos pobres se lembre raramente; os outros andam lá e está muito bem porque Portugal é uma democracia. Mas não precisavam de ser pr’aí trezentos, 20 ou 30 chegavam perfeitamente, se a Europa achasse bem; nesses outros há um tal André que lhes diz as verdades nas ventas, mas é do Benfica; os portugueses são muito bons, basta ver o que fez Amália cá dentro, e Mourinho e Jesus lá fora, os patrões é que não prestam; Cristina Ferreira, se fosse americana, metia aquela preta Oprah ou lá o que é num chinelo.

Com este material e dadas as minhas qualidades, que peço licença para referir, de analista social, já estava habilitado para fazer um post jeitoso, logo que aprofundasse um ou outro ponto junto de dois filósofos populares que conheço, de Freamunde.

Porém, hoje, de regresso do Porto, dei-me conta de que há cada vez mais carros de todas as idades, incluindo chaços com mais de uma dúzia de anos, com as novas matrículas.

Sucede que entre cada letra ou número deve haver um espaço de um centímetro, mas entre cada grupo de duas letras ou números a distância deve ser de dois centímetros. Ora, com as pressas de fingir que tem um carro recente, muita gente colocou matrículas que não respeitam estas regras, e os centros de inspecção periódica obrigatória, e a GNR, estão atentos e vão ser implacáveis.

A diferença para as matrículas anteriores é que desapareceu a data do registo do carro, que figurava do lado direito, com fundo amarelo porque o burocrata que a pariu gostava de cores berrantes, e desapareceram os pontos que separavam os grupos de duas letras ou números. Mantém-se a bandeira de uma potência estrangeira, com a indicação da região onde o automóvel foi registado.

Isto a mim parece-me um fenómeno prenhe de implicações sobre a prepotência das autoridades, a ingenuidade dos eleitores, perdão, dos condutores, o desamor ao que serve em benefício do que é moderno, a vaidade azeiteira do cidadão motorizado, e a triste sociedade em que as pessoas não são o que são, mas o que parecem ter.

Coisas de grande profundidade, que carecem de reflexão. De modo que o retrato fica para outra maré.

12 comentários em “Retrato”

  1. E ficou mais fácil o reconhecimento “facial” da matrícula para colocar automaticamente na base de dados.

    lucklucky

  2. A cor berrante foi decerto ideia do lobby da venda da chapa.
    Quando aquilo desbotava, era chumbo certo na inspecção.

  3. Por falar em profundidade

    Título
    ‘Final a oito’ da Champions com impacto económico de 50,4 mil milhões

    Notícia
    Um estudo do Instituto Português de Administração e Marketing (IPAM) estima o impacto económico da ‘final a oito’ da Liga dos Campeões de futebol, que decorrerá em agosto em Lisboa, em 50,4 milhões de euros.

    Como não concordar com quem diz que os media não estão em decadência…

  4. Bom dia,
    Já repararam que morreram mais bombeiros no combate aos incêndios que médicos e enfermeiros no combate à maior e mais perigosa epidemia que o mundo viu ?

    Luis Almeida

  5. Tá tudo abaixo do médio. A UE é um grupo de bimbos a que qualquer bimbo gosta de se juntar, para poder dizer que tem um tio rico. Tio este que só deve ser combatido quando não abre os cordões à bolsa e não faz aquelas ofertas também do arco-da-velha que de tão inovadores só chegam ao mercado quando já estão ultrapassadas.

    Dito isto, e porque sou um ser divino, acrescento que as matrículas não deviam existir. Portugal, que é um país bastante inovador e com empreendedores do arco-da-velha, que até possui uma web summit, devia fazer com os carros aquilo que os cães devem ter, isto é: um chip.
    Este chip podia ser rastreado de forma elevada, com a autoridade de supervisão da protecção de dados a funcionar, através de uma app do tipo stay away covid. Caso a app não estivesse homologada, o cachorro, perdão, o carro devia latir.
    Assim levar-se-ia o liberalismo a uma forma tal de igualitarismo que acabar-se-iam definitivamente todas as formas de discriminação.

    A discriminação é um ponto deveras importante na matéria, pois esta faz com que o ópio do povo, a Revolução, esteja constantemente na ordem do dia. E todos sabemos que quando um povo é constantemente levado aos opiáceos o seu padrão está sempre abaixo da média.

    Não é possível que uma associação de bimbos ainda não se tenha dado conta da implicação ambiental causada pelo uso de chapas de matrícula.

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