Este Natal, por entre o coro dos decretos de contenção que nos rodeou, dei por mim muitas vezes a pensar que há efeitos benéficos na crise.
Senti a sério, pela primeira vez, que quando os recursos faltam e deixamos de poder correr a maratona das aquisições, na busca das coisas com que mobilamos os dias, ficamos com mais tempo para ser inteiros, realmente devolvidos à nossa condição de seres humanos e pensantes.
E não importa se já antes cuidávamos de sentir o Natal dos outros que tinham menos. Nada é igual, agora, quando a atenção ao próximo já não é um exercício abstracto, porque a desolação nos interpela por todo o lado. Que peso tem a minha privação ao pé da tua? Como posso eu chorar-me por ganhar menos e trabalhar cada vez mais, se a cada dia que passa há quem perca o seu modo de vida?
Subitamente, o tempo chegou para tudo.
Voltei a poder escrever dedicatórias. Pude gozar o luxo de um café pausado em plena tarde, ao pé dos meus. Ninguém chegou atrasado à consoada. Não arrepelei os cabelos contra o meu eterno destino de embrulhadora-mor (vá, faz-me lá estes laços, muda-me este papel tão feio, põe-me as etiquetas, esqueci-me de comprar…). Conseguimos, sem dramas, encobrir as prendas do olhar das crianças porque pela primeira vez, há muitos Natais, couberam todas no esconderijo dos meus anos de infância. O Menino Jesus chegou sem tropelias, despachando a sua missão secreta em três tempos. As sinetas tocaram antes do choro das reclamações e do sono. Ninguém perdeu presentes, como antigamente, no meio de festival de sacos e papéis. Todos apreciámos, pausadamente, as ofertas de cada um e de todos. Conseguimos pôr música. E os miúdos estavam estranhamente tão calmos, a contas com um património de novidades gerível e assimilável…
Há muito tempo que não tinha um Natal tão agradável. Olá crise, olá tempo reencontrado, olá família, olá poesia.
Retomar a medida
lauraramos,

Laura, bom um resto de bom Natal, ainda bem que correu assim como o descreves, dá vontade de ter partilhado convosco o momento. O nosso, com a mesma medida de crise, foi um pouco mais atribulado, mas o meu avô anunciou, do alto dos seus 88 anos, que vai fazer dez viagens para o ano: com crise ou sem crise. E depois deu uma gargalhada. E foi um grande momento:) beijos P
Para ti também, Patrícia 🙂 Adorava conhecer o teu Avô! Tem poucos mais anos do que a minha… mãe, eheh 😉 Só que esta tenta esgueirar-se pelo meio das recordações dolorosas (raio de quadra) e os projectos que faz são todos… retroactivos. O futuro? Vai ser um caos e os seus meninos todos a ser engolidos na voragem… 😉 Feliz Natal.
Bravo!
Santo Natal!
Para si também, SC.
Est modus in rebus, e talvez esta, a deste Natal, seja a certa. Insondáveis são os caminhos e tortas as linhas …
Não tenho a menor dúvida de que esta é a medida certa, Ivone. bj.
Estive hoje de serviço entre as sete e as quinze,que as avionetas não param…e volto a entrar daqui a pouco,às 24h. E não foi lá aquele Natal, não senhor…ontem a minha mulher e a minha filha mais nova embarcaram para Londres(as tarifas mais baixas são de aproveitar…),a miúda a preparar o seu Erasmus no King’s College e a minha mulher a ajudar na logística da instalação, que será em apartamento de família,(uma super querida Tia-avó,já algo idosa…). E cá fiquei e cara alegre…e um pouco de poesia:
“…El lobo blanco del invierno,
el lobo blanco viene,
con los feroces ojos inyectados
en sangre helada, fijos y crueles.
¡Maldito lobo invierno, que te llevas
los viejos y los débiles!
¡Reunámonos, que todos
tengan una familia,
un libro y fuego alegre!
Y mientras, fuera, el hacha
el tronco seco hiende,
que será rojo en el hogar, cerremos
la puerta y el balcón… ¡Dios no nos quiere!
¡Tregua! Seamos amigos…
La tibia paz entre nosotros reine
en torno de la lámpara, que esparce
la tranquila poesía del presente. …”
Ah e hoje faria o meu Pai 88 anos. De alguma maneira ” fizemos companhia um ao outro !
Eu já sabia que a minha última frase do post não ia ficar sem resposta sua, Fernando 🙂 Natal em Londres? Que bom número, mesmo que a preparar o Erasmus. Já viu a sorte desta geração? Se há coisa para que valeu a entrada na UE foi essa. E funciona mesmo, sem falhas.
Digo o mesmo, Laura. Finalmente um Natal em paz, sem correrias e sem o caos do costume. Na minha família só as crianças tiveram direito a presentes, foi assim o combinado. Em contrapartida, todos tivemos mais tempo uns para os outros.
É claro que não podemos apregoar a felicidade da medida recuperada a quem nada tem, nem esta nem sequer uma medida ínfima e minimamente digna. Mas para nós, que temos pelo menos o essencial, foi um exame de consciência e a descoberta (ou a confirmação) de que nada muda por haver menos pacotes embrulhados.
Muda muito pouco, Ana, claro… No fundo, já sabíamos disso, não é? Mas foi preciso um abanão.
É, às vezes é preciso um abanão. Só para relembrar.
Laura: entendo-te bem, subscrevo a mensagem que nos deixas e achei muito tocante a forma como vieste aqui partilhar um bocadinho do teu Natal connosco.
É que não é um exercício estóico de optimismo, Pedro. É mesmo verdade. Há coisas deliciosas que queríamos gozar plenamente e não tínhamos como, por excesso de agenda.
Também percebo este ponto de vista, Laura. Mas a verdade é que ao ler este texto não pude deixar de pensar em todos os que já tinham um Natal assim, mais calmo, com menos atropelos; e que este ano começaram talvez a sofrer por não poder corresponder aos anseios dos filhos. Já para não falar nos que estavam nesta situação em anteriores natais e que não encontram efeitos benéficos na crise. É que para estes não se trata de retomar a medida, mas de utilizar outras medidas com menos capacidade.
Ana, mas então não leste bem, porque claro que tudo isso que dizes está subentendido. E eu não penso nesses casos só agora, porque fui habituada desde que me lembro a pensar neles. E a fazer alguma coisa contra isso, com actos. Mas esta á a minha crónica natalícia, não posso fazer de conta que sou outra pessoa.
Eu percebi, Laura. Só quis reforçar este lado menos luminoso da tua crónica. 🙂
Certo, Ana.