Quem tem fé acredita que não somos fruto de um acaso cósmico, de um acidente de percurso na eterna voragem dos dias e das noites desde que surgiram os primeiros clarões da alvorada à superfície da terra. Acredita que fazemos parte de um desígnio que nos transcende. Somos, não estamos. Vamos, sem nunca parar — numa espécie de viagem iniciática que nos devolve a insondáveis recomeços. Em busca permanente de nós próprios, reflectidos na face dos outros. Daí o significado mais profundo da palavra irmão, tantas vezes mencionada no Novo Testamento. Cristo nasceu pobre, despojado, sem bens materiais, na humilde gruta que lhe serviu de berço. Quem acredita, encontra aqui o mais exemplar dos símbolos: todos os filhos de Deus nascem iguais. É impossível uma fé autêntica sem esta nítida consciência ontológica da igualdade perante o olhar divino.
Regresso, por estes dias, às palavras de um pensador desaparecido demasiado cedo e que nos faz falta pelas suas lúcidas e por vezes desconcertantes cogitações. Victor Cunha Rego — é dele que falo — escreveu assim n’ Os Dias de Amanhã: “O Natal é o sorriso de Deus num mundo que teima em egoísmos aterradores. Sem esse sorriso, a vida humana seria apocalíptica. O tempo seria apenas uma espera sem sentido, a miséria seria aceitada e aceitável, a opressão seria tolerável e tolerada.”
Reflexão para o Natal de hoje. Reflexão para o Natal de sempre.


“O Natal é o sorriso de Deus” – frase linda. Vou guardar.
Victor Cunha Rego condensava o essencial das suas reflexões, nem sempre de apreensão fácil, em fórmulas sugestivas e estimulantes para o leitor. Punha uma escrita aparentemente muito simples ao serviço de um pensamento elaborado. Recomendo a leitura d’ «Os Dias de Amanhã», colectânea de algumas das centenas de crónicas que publicou durante anos no ‘Diário de Notícias’. Várias delas espantosamente premonitórias.
Que belo texto, revejo-me nisso tudo que disseste. O sentido principal é o da paridade entre os homens. E a ideia de começo que envolve uma criança.
Exactamente, Laura. Deus tornado criança para redimir os homens, irmanando-os em dignidade: há aqui algo de extraordinário desde logo no plano simbólico, julgo eu, independentemente da questão da fé.
isso, o sorriso de Deus! Muito bom, Pedro. Obrigada. Um beijo P
Ainda bem que gostaste, Patrícia. Beijinho.
Muito bem, Pedro! Gostei e partilhei no meu FB.
Abraço e Boas Festas!
Meu caro, é sempre um prazer receber a sua visita. Votos de boas festas e de altos voos em 2012.
Grande abraço.
“Somos, não estamos”. Belo pensamento nestes tempos de deriva ontológica.
Ir à essência, Ivone. Que precede a existência, ao contrário do que juravam os existencialistas.
Lindo, lindo.
Feliz Natal Pedro e a todos os diletantes.
E 2012 lhe traga serenidade e tudo de bom.
Festas felizes, Helena. E bom ano novo. Seguirá entretanto mail com uma proposta, como verá.