Resumindo e concluindo


Sérgio de Almeida Correia,

1 – Em Abril de 2008, o Presidente da República (PR) foi à Madeira e levou na sua comitiva um assessor do primeiro-ministro que tem por missão acompanhar as relações com a Região Autónoma;

 

2 – O referido assessor fez todo o programa da visita, participou nas reuniões, nos almoços e jantares para que foi convidado, e deslocou-se nos veículos que para tal lhe foram destinados;

 

3 – No regresso da Madeira, o assessor de imprensa do PR referiu a um jornalista do Público que a presença desse assessor do primeiro-ministro fora incómoda e inconveniente, desconfiando que aquele estivesse ao serviço de terceiros para espiar as actividades da Presidência da República, pelo que entregou ao jornalista do Público um dossier, pedindo-lhe que o jornal investigasse esse assessor;

 

4 – O Público conduziu uma investigação, contando para tal com o seu correspondente na Madeira, e no final esclareceu que não encontrou nada de substancial, nada havendo a noticiar;

 

5 – No Verão de 2009, membros da Casa Civil do PR participaram na elaboração do programa eleitoral do PSD, facto referido em jornais e de que foi dado público conhecimento no site oficial desse partido;

 

6 – O assessor de imprensa do PR voltou a contactar o jornalista do Público e, retomando a história da Madeira e a divulgação pública da participação dos membros da Casa Civil do PR na redacção do programa eleitoral do PSD, disse que o PR desconfia da existência de escutas no Palácio de Belém, por parte do Governo, pretendendo que o jornal volte a investigar a visita à Madeira e publique uma notícia destinada a prejudicar um dos partidos concorrentes às eleições legislativas de 27 de Setembro, em pleno período pré-eleitoral;

 

7 – Durante todo este período, a Presidência da República ignorou tudo o que foi publicado nos jornais e referido nos demais órgãos de comunicação social, permitindo que um clima artifical de crispação invadisse a vida política e subsistissem múltiplas interpretações em função da publicação de notícias oriundas de fontes anónimas da sua Casa Civil;

 

8 – O líder de uma força política veio dizer que a fonte anónima do Público na Presidência da República era Fernando Lima.

 

9 – O Diário de Notícias, colocando em causa o Código Deontológico dos Jornalistas para poder tornar conhecida a verdade, publicou um e-mail denunciando a moscambilha promovida por Fernando Lima e patrocinada pelo Público;

 

10 – O Presidente da República veio a terreiro dizer que só falava depois das eleições legislativas de 27 de Setembro;

 

11 – Três dias depois da publicação da notícia e do e-mail pelo Diário de Notícias, a Presidência da República divulgou o afastamento, sem explicações, por vontade do PR, do assessor de imprensa Fernando Lima;

 

12 – Passado o acto eleitoral de 27 de Setembro, o PR veio dizer que:

           

            a) Ninguém fala em nome do PR, com excepção dos chefes da  Casa Civil e da Casa Militar;

            b) É normal que membros da sua equipa participem na elaboração dos programas eleitorais dos partidos concorrentes às eleições;

             c) Duvida que o seu assessor de imprensa tenha falado com o jornal Público;

             d) Se o assessor falou, o PR não teve conhecimento prévio; 

             e) Tem dúvidas que, tendo o assessor falado com o Público, os termos constantes do e-mail do Diário de Notícias sejam os correctos; 

              f) Achou estranha a publicação do e-mail pelo Diário de Notícias, 17 meses depois da visita à Madeira (mas não achou estranho que o seu assessor de imprensa tenha voltado a falar com o Público – invocando o seu nome, não sendo chefe da Casa Civil e não estando para tal autorizado – referindo uma viagem ocorrida 17 meses antes e encomendando uma notícia);

              g) O assessor não fez nada de errado;

              h) Embora não tenha feito nada de errado, pelo sim, pelo não, retirou-o da assessoria de imprensa (visto que notícias "falsas" tinham inviabilizado a sua continuação nesse lugar, sendo melhor dar-lhe um lugar mais discreto, mais de acordo com a sua forma de actuação e a ligação entre ambos);

              i) Desconhece que não há sistemas informáticos invulneráveis, a começar pelos do Pentágono, e estava convencido de que o da Presidência da República era o melhor do mundo;

              j) Não percebeu nada do que se passou, não tem provas de ter havido qualquer intrusão nos sistemas informáticos da Presidência, mas ficou convencido que a culpa de tudo, incluindo dos seus fantasmas e do que aconteceu a Fernando Lima, é do Partido Socialista e de uns dirigentes mentirosos que eles para lá têm.

 

13 – O Presidente da República esteve mal antes, durante e depois dos factos;

 

14 – O Presidente da República não tem a mínima noção do papel que exerce, confunde o interesse nacional com os interesses do PSD e da sua entourage presidencial, e à força de querer ser isento acabou por se comportar como um elefante numa loja de porcelanas;

 

15 – O Presidente da República deixou-se enredar pelos seus fantasmas, perdeu a compostura ética, tomou abertamente partido, entrou na luta política, inviabilizou toda a cooperação estratégica institucional entre o Governo e a Presidência da República,  vive atormentado com medo de escutas, desconfia da sua própria sombra e, ingenuamente, deixou-se convencer de que tudo o que não é crime é permitido aos seus assessores;  

 

16 – Por inépcia política, mau aconselhamento e falta de visão de Estado, o Presidente da República colocou-se numa posição vulnerável, expôs-se, deixou que a disputa institucional assumisse contornos sul-americanos e hipotecou todas as condições de governabilidade numa altura de grave crise ecónomica e social, mostrando não estar à altura do cargo para  que foi eleito.

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