OS QUATRO MÁRTIRES DE LÜBECK
4 – Karl-Friedrich Stellbrink

Imagem daqui
O pastor luterano Karl-Friedrich Stellbrink é o mais polémico dos Mártires de Lübeck, pois começou por apoiar a política de Hitler e filiar-se no NSDAP (Partido Nazi).
Nasceu a 28 de Outubro de 1894 em Münster. Já depois de ter iniciado estudos de Teologia, com formação orientada para missões no estrangeiro, foi alistado, em Fevereiro de 1915, na 1ª Guerra Mundial. Devido a um ferimento grave, cerca de um ano mais tarde, que lhe paralisou a mão esquerda, foi dispensado do serviço militar e colocado em Berlim, a exercer serviço social ligado à Igreja Evangélica Luterana, enquanto concluía os seus estudos.
Casou a 5 de Março de 1921 com a professora Hildegard Dieckmeyer e, mês e meio mais tarde, foi enviado em missão para o Brasil. Exerceu funções pastorais junto das comunidades alemãs, em vários locais do Rio Grande Sul. O casal esteve oito anos no Brasil, país onde nasceram quatro dos seus cinco filhos. Depois de umas férias na Alemanha, no Verão de 1929, Karl-Friedrich Stellbrink resolveu ficar e foi colocado numa pequena comunidade do estado de Thüringen.

Karl-Friedrich Stellbrink e família
Stellbrink apoiou efusivamente a subida de Hitler ao poder, acreditando numa simbiose vantajosa entre o cristianismo e o nazismo. Para isso, terá contribuído o facto de Hitler, numa primeira fase, sublinhar ser cristão e usar citações bíblicas na sua propaganda. Na Primavera de 1934, Stellbrink mudou-se para Lübeck, onde exerceu as funções de chefe da Igreja Evangélica Luterana daquela cidade. E aqui se deu a reviravolta na sua vida. As razões terão sido de várias ordens, como, por exemplo, as ondas anticlericais que se faziam sentir, tanto a nível do partido, como a nível estatal. Também se geravam conflitos entre a Juventude Evangélica Luterana e a Juventude Hitleriana, à qual os seus filhos pertenciam, mas que acabaram por deixar. E quando, no funeral de uma personalidade nazi de Lübeck, o crucifixo na parede da capela do cemitério foi coberto por uma manta, Stellbrink desligou-se definitivamente do NSDAP. Em 1937, começou a ser vigiado pela Gestapo.
A partir de 1941, tomando conhecimento da eutanásia praticada em relação a cidadãos considerados inúteis, Karl-Friedrich Stellbrink entrou em contacto com o capelão católico Johannes Prassek, envolvendo-se no movimento antinazi da Igreja do Sagrado Coração de Jesus.
Na noite de 28 para 29 de Março (Domingo de Ramos) de 1942, houve um ataque aéreo dos Aliados à cidade de Lübeck, no qual morreram 320 pessoas, ficando 700 feridas e 16.000 desalojadas. Nesse Domingo de Ramos, na missa da “Confirmação” dos jovens luteranos (o equivalente à segunda comunhão dos católicos), o pastor Stellbrink criticou duramente a política do regime. Segundo um relatório da Gestapo, ele terá considerado serem os ataques dos Aliados o castigo de Deus sobre a política nazi.
Passados dez dias, foi preso pela Gestapo. A sua remuneração foi cortada e a sua família isolada, sem qualquer ajuda da Igreja Evangélica Luterana. Junto com os três sacerdotes católicos da Igreja do Sagrado Coração de Jesus (Eduard Müller, Johannes Prassek e Hermann Lange), Stellbrink foi condenado à morte, num processo de três dias, presidido pelo Segundo Senado do Tribunal do Povo de Berlim, que se deslocara a Lübeck para o efeito. Os quatro prelados foram então transferidos para a prisão Holstenglacis, em Hamburgo, onde foram executados pela guilhotina, no espaço de três minutos uns dos outros, a 10 de Novembro de 1943. Só depois da guerra, a 18 de Junho de 1945, a Igreja Luterana decidiu conceder uma reforma por viuvez a Hildegard Dieckmeyer.

Placa de homenagem aos quatro mártires de Lübeck, na prisão Holstenglacis de Hamburgo
O destino conjunto dos três prelados católicos e do pastor protestante representa, hoje em dia, um papel importante no ecumenismo alemão. Na cerimónia de beatificação dos padres Eduard Müller, Johannes Prassek e Hermann Lange, em 2011, o pastor Karl-Friedrich Stellbrink foi igualmente dignificado pelo cardeal Walter Kasper, que presidiu ao evento.
Porém, Karl-Friedrich Stellbrink permanece polémico. O historiador Hansjörg Buss reclama uma discussão sobre o seu carácter e o seu verdadeiro significado na História alemã, pois classifica-o de nacionalista exacerbado, racista e opositor da democracia. Estando, porém, fora de dúvida ele ter sido uma vítima do terror nazi, há ruas com o seu nome em Hamburgo, Lübeck e outros locais. Além disso, está incluído na ala de homenagem aos Mártires de Lübeck, anexa à igreja do Sagrado Coração de Jesus.


A filiação no NSDAP nessa época, não tem qualquer significado e muitos que o fizeram, tornaram-se depois opositores. Deixo a curta nota biográfica que redigi de um afastadíssimo parente – temos antepassados comuns – que, tal como Claus von Stauffenberg, me fez interessar e até redigir um comentário, sobre a “Operação Valquíria” o atentado contra Hitler.
“Em 1906 entrou para o Liceu Eberhard Ludwig em Stuttgart. No início da 1ª Guerra fez o exame final e alistou-se voluntariamente como oficial-cadete no Regimento de Infantaria nº 119.
Combateu na Flandres, em França e na frente do Isar e foi ferido 6 vezes. Recebeu 16 menções incluindo a Medalha de ferimentos em combate de ouro, duas Cruzes de Ferro de 1ª e 2ª classe e a Medalha de Bravura do Württemberg.
Casou em Fevereiro de 1818 e no final da guerra era 1º tenente comandante de uma companhia independente.
1919 foi um ano significativo na sua vida: nasceu o seu único filho, com a mulher, estudou agricultura na Escola Superior de Tettnang, no lago Constança; como muitos jovens – tinha 24 anos – por reacção às condições impostas à Alemanha na rendição, filiou-se no Partido do Trabalho, depois Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães-NSDAP (Nazi). Em 1920 foi feitor de uma propriedade do industrial Robert Bosch enquanto era dirigente dos “Freikorps” de Munique mas pouco depois recusou participar no golpe de Walther von Lüttwitz e Wolfgang Kapp e saíu do NSDAP tornando-se desde então um opositor do partido.
Em 1921 fundou uma Firma de Crédito que viria a falir na crise mundial de 1929.
Entre 1930-33 foi 2º ajudante do major na reserva Franz von Stephani, comandante regional em Berlin dos “Stahlhelm” – Elmos de Aço – uma organização de combatentes.
Em 1934 foi reintegrado no exército como capitão do Regimento de Infantaria Nº 29. No ano seguinte foi transferido para Infantaria 8 como oficial do estado-maior do regimento e promovido a major em 1936.
Em 1938 comandou um batalhão na invasão dos Sudetas alemães, integrados então na Checo-Eslováquia.
No iníco da 2ª guerra participou na invasão da Polónia recebendo as palmas da Cruz de Ferro de 2ª classe.
Ainda em 1939, por intermédio de Carl-Hans Graf von Hardenberg, estabelece contactos com vários membros da oposição ao regime, incluindo Friedrich Olbricht que viria a ser fuzilado com Claus von Stauffenberg.
Em 1940, participa na “Blitzkrieg” – invasão da França e ultrapassagem da Linha Maginot, sendo condecorado com a Cruz dos Cavaleiros da Cruz de Ferro no mesmo dia que o marechal Rommel.
(a continuar)
(continuação)
Em 1941, já tenente-coronel, comandou um batalhão na campanha da Rússia.
Em 1942 morreu-lhe a mulher. Aproveitando a oportunidade do funeral, inicia o seu filho na oposição. Estava então em preparação uma tentativa de golpe em que Jäger deveria assumir o comando do regimento da “Grande Alemanha” sediado em Berlim e onde seu filho era 2º tenente mas viu-se transferido para Stalinegrado como coronel comandante de regimento. Foi ferido, contraiu tifo e foi dos últimos militares evacuados, ficando no Hospital de Lublin.
É por esta altura que Jäger concorda com o atentado contra Hitler que até aí preferia ver julgado. Entretanto, na sequência de uma manifestação o seu filho foi preso e entregue a investigação militar. Acusado de tentativa de traição e incitamento à desobediência seria ilibado da acusação mais grave por falta de provas e condenado a prisão já cumprida preventivamente mas para “limpar a sua honra” foi enviado para a frente. Na eventualidade de um golpe, Jäger viu-se assim privado do apoio do filho.
Em 20 de Julho de 1944, Jäger era comandante do Exército de Substituição nos Distritos II (Stettin) und XXI (Kalisch) e recebeu instruções de Claus von Stauffenberg para proceder à detenção de um alto comando das S.S.. Seguidamente deveria prender o ministro da Propaganda, Goebbels e ocupar uma estação de rádio mas, convencido por um telefonema pessoal de Hitler o major Otto Remer do referido regimento de Berlim, recusou-se a prender Goebbels e, após a intervenção por rádio de Hitler os seus próprios soldados recusaram-se a obedecer-lhe. Jäger ainda tentou cumprir a sua última missão: impedir o general comandante da região militar de Berlim de sair de sua casa mas foi preso no Quartel-General e entregue à Gestapo.
Entretanto o seu filho que fôra ferido e se encontrava num hospital militar em Itália foi trazido para Berlim e colocado na mesma prisão de Gestapo mas sem se poderem contactar.
Jäger seria expulso do exército, e enforcado. Todos os bens da família foram confiscados.
O filho foi internado no campo de concentração de Sachsenhausen, perto de Orianenburg. Sobreviveu.”
Obrigada pelo testemunho. De facto, a vida de muitos alemães deste tempo oscila entre o fascínio inicial pelo nazismo e a tomada de consciência uns anos depois. Quem os pode censurar? Tudo depende do contexto e da propaganda. No início, Salazar era igualmente idolatrado, toda a gente aliviada por ter surgido alguém disposto a tomar conta de uma situação caótica. Quem conseguiu abrir os olhos, mais tarde, revelou inteligência e humanidade.
Bela assinatura. Nota-se a influência do Sütterlinschrift.
O meu marido ainda se entende com essa escrita, apesar de já não a ter aprendido na escola.