Resistência em alemão (7)


Cristina Torrão,

OS QUATRO MÁRTIRES DE LÜBECK

Lübeck era uma das mais importantes cidades da Liga Hanseática. Na primeira metade do século XX, tornou a ganhar destaque por ter sido a cidade-natal de Thomas Mann, sendo igualmente lá que o escritor nobelizado situou a família Buddenbrook, protagonista do seu romance mais famoso.

Foi igualmente em Lübeck que três padres católicos e um pastor luterano, opositores do nazismo, exerceram funções. Viriam a ser executados, a 10 de Novembro de 1943, pela guilhotina, em Hamburgo, no espaço de apenas três minutos uns dos outros. Estes e mais exemplos, dos quais falarei nesta série, mostram que, se a Igreja Católica se manteve, oficialmente, distante dos crimes nazis, muitos dos seus membros opuseram-se abertamente, pagando com a própria vida.

1 – Hermann Lange

Hermann Lange 2.JPG

Imagem daqui

Hermann Lange nasceu a 16 de Abril de 1912, em Leer, uma pequena cidade no Norte da Alemanha. Nos tempos de liceu, pertenceu à organização católica Bund Neudeutschland e cedo decidiu tornar-se padre. Estudou no Seminário de Münster e, a 17 de Dezembro de 1938, foi ordenado na Catedral de Osnabrück. Meio ano mais tarde, foi colocado em Lübeck, na Igreja do Sagrado Coração de Jesus, a mais importante da cidade, onde foi nomeado vigário.

Sempre expressou antipatia pelo nazismo denunciando, em encontros clandestinos, os crimes de guerra dos alemães. Distribuía folhetos com textos críticos ao regime, como as homilias do bispo de Münster, Clemens August Graf von Galen. E sabe-se que, junto de jovens soldados, dizia ser a participação na guerra incompatível com a fé cristã.

As suas actividades não ficaram despercebidas. Foi denunciado e a Gestapo revistou a sua casa, sendo preso a 15 de Junho de 1942, assim como mais dois padres católicos pertencentes à mesma igreja (Eduard Müller e Johannes Prassek), o pastor luterano Karl-Friedrich Stellbrink e vários leigos, acusados de colaborarem com eles.

De uma carta sua, escrita na prisão, é conhecido o seguinte extracto:

«Aguardo, com muita calma, os acontecimentos futuros. Quando nos entregamos totalmente à vontade de Deus, gere-se um maravilhoso sossego e a certeza da Sua proteção (…) Somos apenas ferramentas nas mãos de Deus. Se Deus quer a minha morte – que se realize o seu desejo» (tradução minha, do alemão).

Depois de um ano de prisão preventiva, foi decidida a sua execução, num processo de três dias, presidido pelo Segundo Senado do Tribunal do Povo de Berlim, que se deslocara a Lübeck para o efeito. Ele e os outros três prelados foram então transferidos para a prisão Holstenglacis, em Hamburgo, onde foram executados, a 10 de Novembro de 1943. As últimas palavras de Hermann Lange, dirigidas ao confessor prisional, foram: «Até ao feliz reencontro no céu. Transmita as minhas saudações à minha querida gente de Lübeck e aos meus conterrâneos de Leer».

O corpo de Hermann Lange foi cremado e a urna esteve, durante muito tempo, por baixo de uma placa de vidro, no chão da Igreja do Sagrado Coração de Lübeck. Em Outubro de 2013, foi inaugurada uma ala de homenagem aos mártires de Lübeck, anexa à igreja, que esclarece sobre a situação política e eclesiástica da altura, os quatro prelados e os leigos que com eles foram acusados.

Ala de homenagem aos Mártires de Lübeck 1.jpg

Espaço de homenagem aos quatro mártires, anexo à Igreja do Sagrado Coração de Jesus, em Lübeck

Hermann Lange e os seus dois colegas foram beatificados por Bento XVI, a 25 de Junho de 2011. Na cerimónia, em Lübeck, foi incluído o pastor protestante Karl-Friedrich Stellbrink, referindo-se ser merecedor de igual veneração, apesar de não poder ser beatificado pela Igreja Católica (está naturalmente incluído no espaço de homenagem).

Também na Igreja de São Miguel, em Leer, cidade-natal de Hermann Lange, foi criado um local de homenagem aos quatro mártires, em 2015. Em Lübeck, Leer, Papenburg e Hamburgo existem ruas com o nome de Hermann Lange. No adro da Igreja de Santo António, em Lohne, onde este padre exerceu funções em 1939, foi erguida uma estátua sua em 2010.

10 comentários em “Resistência em alemão (7)”

  1. A cumplicidade da igreja católica e, mais particularmente do papa Pio XII, com o nazismo, tem sido explorada por certa esquerda, na senda da política de propaganda comunista para descredibilizar a igreja e prosseguida hoje pelos diversos neo-marxismos de raiz gramsciana e da Escola de Frankfurt..
    É certo que o partido nazi não foi hostilizado e chegou ao poder com o apoio do partido católico de von Pappe mas as pessoas tendem a esquecer dois factos. Primeiro, a natureza bestial do regime nazi só foi publicamente revelado muito mais tarde e já em plena guerra, quando oposição ao governo podia ser sentida como traição à pátria. Segundo, nos anos vinte e seguintes, o maior medo das elites, das classes médias e dos crentes em qualquer religião, era o comunismo, pois o que ocorrera na Rússia, era conhecido na Europa e, particularmente na Alemanha, que chegou a ter milhão e meio de refugiados russos, a maior parte em Berlim. Aliás não se consegue perceber o fascismo italiano em 1922 nem a Hungria do almirante Horthy nem o estado novo de 1926 em Portugal, sem essa componente do medo do comunismo.
    Independentemente da fé ou do que cada um acredita ou não, o facto de Nª Sª. em Fátima, ter pedido orações para a conversão da Rússia, prova que o medo da Rússia comunista se instalou muito cedo, no mínimo dos mínimos, no seio da igreja católica, que era certamente o maior meio de difusão de ideias. Sem televisão nem rádio, com uma população analfabeta, nada podia competir com as homilias dominicais, em igrejas então cheias.

    1. Em que ficamos?
      “OS QUATRO MÁRTIRES DE LÜBECK” aconteceu por causa do comunismo, qual nazis qual carapuça, e isso de mártires é coisa e certa esquerda. E prontus ainda não saímos do início dos anos 30.

    2. > o facto de Nª Sª. em Fátima, ter pedido orações para a conversão da Rússia

      Essa faz-me coçar um pouco a cabeça, porque a última aparição foi em 13 de Outubro de 1917, e a “revolução de Outubro” foi a 7 de Novembro (ainda não usavam calendário gregoriano).

      Resta-me supor que a conversão seria da ortodoxia para o catolicismo.

      1. Tem toda a razão. A minha memória pregou-me uma partida. A referência à conversão da Rússia foi em Julho de 1917 e em relação à guerra e não ao comunismo. Ou seja, o último parágrafo do meu comentário inicial é descabido.

  2. É mais que sabido, o que sabemos sobre o que a Senhora disse é obra do Padre Formigão.
    Ele é que escreveu o que a Lúcia disse e não disse por que não sabia.
    A questão da “conversão da Rússia” nunca teria sido dita em 1917, o “comunismo” só apareceu em 1918 e a grande preocupação era acabar com a guerra por ser apoiada pelos republicanos.
    Também não havia preocupação, mas a Senhora lá saberia, por haver a guerra civil na Rússia e não havia, ainda, nada a para “converter”. A guerra civil acabou em 1922.
    A questão da “conversão da Rússia” é anunciada pela Lúcia em 1929.
    Mas, a Senhora mandar rezar para acabar com a guerra era o lógico numa aparição. Pena foi nunca mais aparecer para pedir para acabar a II Guerra Mundial e, muito particularmente para nós, acabar ou nem começar a guerra em África de 1961 a 1974.

    1. Faz sentido, mas subestima a ignorância geral – acredito no “mais que sabido”, mas por mim, e aposto 99+% da população, não sabia.
      Bom, e “acabar a guerra” foi onde o gang bolchevista ganhou – meteram “Paz, pão, terra” na mesa, e sublevaram a tropa. Não foi por nada que os alemães lhes mandaram o Ulianov de comboio, e o Bronstein tinha recolhido fundos em NY.
      Os outros totós ficaram agarrados aos tratados com ingleses e franceses, e serviu-lhes de muito. Setenta anos de fome e serviço de espantalho.

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