
«Por que não aceitar que o Acordo Ortográfico foi um passo em falso? Estas coisas acontecem! Vamos com calma e com tempo. Preciso é resolver. Não é necessário crucificar ninguém, nem gritar, nem apostrofar. Correu mal, há que enfrentar a situação, as responsabilidades ficam para depois. Não há vencedores nem vencidos. Apenas coisas mal pensadas. Acontece aos melhores. Para mais, temos estes confusos anos de experiência. Não resultou, nem cá, nem lá, nem em nenhuma parte do mundo. As aberrações e o ridículo saltam à vista. O A.O. não aproximou Portugal e Brasil, não facilitou o intercâmbio cultural, o interesse literário, nada! Há que repensar, com tranquilidade.»
Mário de Carvalho
É difícil um acordo ortográfico, seja ele qual fôr, aproximar Portugal e o Brasil, enquanto continuar a ser proibido às editoras brasileiras vender em Portugal os livros que editam, e vice-versa.
A primeira medida a tomar deveria ser mesmo essa: que fosse livre a venda em Portugal e no Brasil de livros editados por editoras do outro país.
Sinceramente, gostava de dar réplica ao seu comentário. Mas creio não ter entendido bem o seu ponto de vista.
É simples. O texto citado queixa-se de que “o acordo ortográfico não aproximou Portugal do Brasil, não facilitou o intercâmbio cultural”. Ora, é evidente que ele não fez isso, porque os livros que se lêem em Portugal são e continuarão a ser diferentes daqueles que se lêem no Brasil. E isso acontece porque, se não me engano muito, há leis que proíbem (ou restringem) a venda em Portugal de livros editados por editoras brasileiras, e vice-versa. (Se eu estiver enganado, corrija-me faz favor.) Em minha opinião, para “facilitar o intercâmbio cutural”, “aproximar Portugal do Brasil”, e (acrescento eu) embaratecer os livros, o que seria útil seria acabar com essas leis protecionistas e permitr a venda irrestrita em Portugal e no Brasil de livros editados em qualquer dos países (mesmo que com grafias distintas).
Está enganado, Luís Lavoura. Essa restrição nunca existiu sequer. Recordo-me, na minha infância, de comprar revistas brasileiras, da editora Abril, que se vendiam por toda a parte em Portugal – ‘Pato Donald’, ‘Tio Patinhas’, ‘Mickey’, ‘Zé Carioca’, ‘Bolinha’, ‘Riquinho’, ‘Mônica’, etc, etc. Com grafia brasileira, naturalmente.
Li toda a obra do Nelson Rodrigues, que julgo não estar editado por nenhuma editora portuguesa, através das obras dele que nos chegavam (e chegam) do Brasil, da editora Companhia das Letras. E o Vinicius, e o Nelson Motta, e o Drummond, e o Ruy Castro, e tantos outros.
Essa restrição nunca existiu para revistas, mas existiu de certeza para livros. Recordo-me de na minha infância ler livros que tinham lá bem escrito que a sua venda estava proibida na República Federativa do Brasil.
Os escritores que referiu são, parece-me, todos eles brasileiros. Acredito que para eles essa restrição não se aplique. Mas creio que se aplica, ou aplicou, a escritores não-portugueses e não-brasileiros (isto é, para traduções).
Se essa restrição não se aplica em termos legais, como explica o Pedro que haja milhares de obras que já estão editadas no Brasil e que não são vendidas cá? Só se fôr por um acordo corporativo entre as editoras.
Essa restrição vinha impressa, salvo erro, nas obras que tinham a chancela Livros do Brasil – suponho que devido à denominação dessa casa editorial. Eu julgo que a esmagadora maioria das obras brasileiras não chega cá apenas devido à disparidade dos mercados. A oferta brasileira é gigantesca em comparação com a procura do lado português.
Mas existe um mercado residual, ainda assim. Vão chegando obras do Paulo Coelho e do Augusto Cury, por exemplo – dois autores com público fiel por cá.
Noutro âmbito, chegam também livros do Luis Fernando Veríssimo, do Arnaldo Jabor, do João Ubaldo Ribeiro, do Zuelir Ventura, do Jô Soares e mais alguns outros. Chegam, no entanto, a preços elevados, muito longe de serem competitivos. E a verdade é que as editoras portuguesas, com raríssimas excepções, desinteressam-se da edição de autores brasileiros.
Mas há situações curiosas: ‘1808’, de Laurentino Gomes, sobre os 200 anos da chegada da corte portuguesa ao Brasil, teve boa recepção por cá. Foi um caso em que terá compensado o investimento feito pela editora Planeta, do Brasil.
No circuito oposto, recordo que Saramago liderou várias vezes os ‘tops’ de vendas no Brasil – sem sequer fazer concessões à ortografia brasileira, o que não prejudicou a receptividade dos seus romances por lá. Fernando Pessoa tem uma audiência constante e fiel. Um autor contemporâneo como Miguel Sousa Tavares possui igualmente uma legião de fãs no Brasil.
Já vai na 14.ª edição, “Um Deus Passeando na Brisa da Tarde”. Nunca o teria comprado para ler em “acordês” e isso seria uma perda.
Nem eu. Mas a questão nem se põe pois Mário de Carvalho é um firme opositor do aborto ortográfico. Um dos melhores escritores contemporâneos da língua portuguesa, sem sombra de dúvida, por mais que algumas plumas académicas torçam o nariz, perpetuamente enfastiadas.
Sensata, a opinião de Mário de Carvalho, um dos nossos maiores prosadores.
Sem dúvida, caro José Catarino.