A Tragédia Optimista, em cena no Teatro Municipal Joaquim Benite (Almada).
[O título da peça foi alvo da tesoura censória do canal público de televisão, que decidiu amputar parte do título em nome da fidelidade cega ao acordês.]
A Tragédia Optimista, em cena no Teatro Municipal Joaquim Benite (Almada).
[O título da peça foi alvo da tesoura censória do canal público de televisão, que decidiu amputar parte do título em nome da fidelidade cega ao acordês.]
Como professor de português que fui toda a vida, desde sempre reparei que o que desperta o amor ou o ódio ao AO nada ou muito pouco tem a ver com a Língua.
De facto, sob esse ponto de vista, o que se pretende mudar não tem importância nenhuma.
Muito pior, mas mesmo muito pior, são as aberrações sintáticas recentemente introduzidas nos programas escolares pelo DT e ninguém se revolta.
Como é possível?!…
Até sei como é possível.
É que nos é muito próprio esquecer o essencial das coisas e distrairmo-nos com marginalidades.
Meu caro, salvo melhor opinião as regras ortográficas não são “marginalidades”. São património cultural e vínculo entre sucessivas gerações. Não por acaso, as principais ortografias do Ocidente – inglesa, francesa, castelhana – têm permanecido quase imutáveis ao longo de séculos. Enquanto a nossa mudou quatro(!) vezes em cem anos (1911, 1945, 1973, 1990) devido à permanente intromissão do poder político numa área que devia ser do domínio exclusivo da comunidade científica.
Mas toca num ponto muito interessante. Quando puder, e se lhe apetecer, indique-nos casos concretos aqui. Terei todo o gosto em pegar também nesse tema.
Quanto à intromissão do poder político, estamos de acordo: a controvérsia à volta do AO é muito mais política do que linguística: foi isso mesmo que eu quis dizer no meu comentário.
Quanto à importância linguística da coisa, continuamos em desacordo (o que não tem mal nenhum): de facto, para mim, o que está em jogo no AO ortográfico, em termos linguísticos, não justifica, nem de perto nem de longe, tamanho e tão prolongado escarcéu, nem para um lado nem para o outro.
Quanto ao DT, e às suas aberrações sintáticas, dou-lhe o seguinte exemplo e posso dar-lhe muitos outros, se estiver interessado:
Em rigor, todo o predicado é um predicativo do sujeito, uma vez que se define como aquilo que se atribui ao sujeito. Mas a sinédoque tem uma razão de ser, que, lamentavelmente, se perdeu pelo caminho das gramáticas: é que o predicativo do sujeito é mais intimamente predicativo do que os outros, porque é intrínseco ao sujeito. E é esta qualidade que realmente o distingue e faz toda a diferença.
Como este detalhe desapareceu da análise sintática, os gramáticos resolveram o assunto, elencando uma pequena lista de verbos que, supostamente, pediriam (agora diz-se selecionariam, e muito bem!) nome predicativo do sujeito. Com o tempo e perante os factos, essa lista foi crescendo.
Acontece, porém, que nem estes verbos listados, mesmo na versão alargada, são os únicos que podem integrar um predicado com nome predicativo do sujeito, nem os mesmos exigem sempre o referido predicativo. E o assunto desembocou, em forma de lei (como se o raciocínio se decretasse!), nesta obra-prima do já famoso Dicionário Terminológico, onde é definido assim o nome predicativo do sujeito: «Função sintática desempenhada pelo constituinte que ocorre em frases com verbo(s) copulativo(s)…» Definição de verbo copulativo: «Verbo que ocorre numa frase em que existe um constituinte com a função sintática (…) de predicativo do sujeito.» A isto chama-se círculo vicioso!
Depois, em nota: «É possível constatar que expressões com valor locativo selecionadas por verbos copulativos desempenham a função de predicativo do sujeito, porque podem ser coordenadas com outros constituintes com a mesma função, independentemente do seu valor: (i) O João está [em Paris e muito doente]».
E se for, pergunto eu: (ii) O João trabalha [em Paris e muito feliz] – onde está a diferença?!
A lógica destas definições conduz a esta brilhante conclusão: tudo o que aparece, no predicado, à direita (se considerarmos a ordem mais natural das coisas) daquela lista de verbos é nome predicativo do sujeito. Exemplificando: na oração «O João está em casa doente», «… em casa…» e «… doente» são, igualmente, nome predicativo do sujeito!
Mas, na lógica de uma análise inteligente, não são, porque «… em casa…» modifica o predicador (verbo), e «… doente» modifica, intrinsecamente, o sujeito, sendo este, portanto, o verdadeiro e único nome predicativo do sujeito do predicado em causa.
Princípio: realidades diferentes devem ser consideradas de forma diferente.
Obrigado pela paciência que teve em detalhar o seu ponto de vista, João de Brito. Vou indagar mais sobre o assunto.
Continuamos no entanto em franco desacordo quanto à ortografia, que precede a gramática
A separação de famílias lexicais (‘se[c]tor’/’sectorial’; ‘cará[c]ter’/’característica’; ‘Egi[p]to’/’egípcio’) é fatal para a apreensão do significado das palavras e da sua origem etimológica, e do seu parentesco face a outras línguas europeias. Fazer depender esta ortografia do conceito de “pronúncia culta” (que ninguém sabe definir) é um grosseiro atentado à seriedade intelectual. Fazer aprovar um “acordo ortográfico” à revelia da comunidade científica, e com a oposição expressa da esmagadora maioria dos seus agentes, é uma aberração.
Um aborto, em suma.
Diz muito bem «salvo melhor opinião», porque a sua não é nada boa. Nem é «científico» chamar aborto áquilo que o não é.
J Neto
Boa tarde para si também. Registo que chega aqui de rolha em riste para censurar palavras de quem escreve há anos sobre o tema (neste blogue e não só). Devolvo-lhe a rolha, com os devidos agradecimentos, para os fins que entender.