Rescaldo das autárquicas: os cinco desafios de Jerónimo


Pedro Correia,

 

1. O PCP é tradicionalmente forte ao nível autárquico. Em vários deles, nunca conheceu uma derrota desde que existem eleições autárquicas em Portugal (Almada e  Seixal, por exemplo). Isso voltou a ser comprovado no último domingo, ao ser a única força política que progrediu eleitoralmente face ao escrutínio de 2009: conquista mais seis câmaras (incluindo Évora, Beja, Loures e Grândola) no balanço de ganhos e perdas, e obtém mais 13.600 votos, subindo 2,5%. Falta saber se esta dinâmica vitoriosa que permitiu aos comunistas recuperar algumas das suas praças-fortes terá prolongamento nas próximas legislativas de modo a permitir-lhes voltar a ser a terceira maior força política no Parlamento — necessitando, para o efeito, de ultrapassar o CDS.

Primeiro desafio: como transportar a dinâmica das autárquicas para as legislativas?

 

2. Só em duas eleições com carácter nacional, em 1975 e 1976, o PCP se apresentou isoladamente nos boletins de voto com o seu símbolo da foice do martelo. De então para cá, optou por concorrer sob uma suposta sigla “unitária”, que já foi FEPU, depois APU e há cerca de 30 anos se chama CDU. No fundo, é uma coligação do PCP consigo próprio: os Verdes não têm existência política autónoma e a chamada Intervenção Democrática é tão fantasmagórica que nem sequer possui página na Internet (está há anos “em obras”). Em eleições futuras, o PCP terá de confrontar-se com este repto: ou aproxima-se de forças políticas com existência real ou nega coligar-se com elas, como agora aconteceu no Funchal, quando recusou alinhar com o PS e o BE na formação de uma frente anti-Jardim.

Segundo desafio: prosseguir com a CDU ou abrir-se a verdadeiras coligações à esquerda?

 

3. O aparecimento do Bloco de Esquerda, em 1999, veio acentuar o dilema dos comunistas no relacionamento com as restantes forças anticapitalistas: o PCP deve ou não alcançar plataformas com os bloquistas? É um dilema muito semelhante ao que enfrenta o duro Partido Comunista da Grécia ou a Esquerda Unida espanhola. A convergência com o Bloco é incipiente, não ultrapassando algumas iniciativas no âmbito parlamentar. Ainda agora, nas autárquicas, comunistas e bloquistas não convergiram numa só lista eleitoral em qualquer dos 308 municípios do País, o que demonstra bem os limites do “frentismo” do PCP. No plano nacional, esta intransigência por vezes paga-se cara.

Terceiro desafio: haverá abertura do PCP a plataformas políticas que incluam o Bloco?

 

4. Há forças de esquerda na Europa, como  Die Linke, que agrega os ex-comunistas da RDA, que se contentam em ser mera voz de protesto. No entanto existem outras, como a Syriza grega, que ambicionam chegar ao poder. E já estiveram perto de o conseguir, como noutras décadas ia sucedendo com os partidos comunistas italiano e francês. O PCP nunca exerceu responsabilidades governativas a nível nacional no actual quadro constitucional, preferindo ver o PS coligar-se com a direita ou governar em minoria. Foi isso que sucedeu, uma vez mais, em 2009: recusou somar-se à formação de um executivo liderado pelo PS mas mais tarde juntou-se à direita para o derrubar. Os portugueses contam com ele como força de protesto, mas não como partido de governo.

Quarto desafio: quererá o PCP continuar a ser apenas uma força de protesto?

 

5. Jerónimo de Sousa é um dirigente dotado com um carisma muito próprio, genuinamente popular, e que soube imprimir um toque pessoal ao forte colectivo comunista após a longa liderança de Álvaro Cunhal e a atribulada transição protagonizada por Carlos Carvalhas. No grupo parlamentar, o PCP tem-se renovado mais do que qualquer outra força política, mas o seu núcleo dirigente ainda é o que trabalhou de perto com Cunhal e as mulheres continuam subrepresentadas tanto nos órgãos autárquicos como no Comité Central. Aliás, ainda não é desta que vemos uma mulher à frente da bancada parlamentar vermelha. Falta, portanto, levar mais longe a renovação. Que não pode ser só geracional. Talvez já com vista à sucessão do próprio Jerónimo, deputado desde a Assembleia Constituinte.

Quinto desafio: como preparar o ciclo posterior ao do actual secretário-geral do PCP?

19 comentários em “Rescaldo das autárquicas: os cinco desafios de Jerónimo”

  1. Talvez falte um sexto desafio (faltaria sempre, se a honestidade intelectual fosse requisito e objectivo): reconhecer que em nome do comunismo foram cometidas atrocidades sem fim, se matou mais gente do que sob o nazismo ou o fascismo, duraram longamente ditaduras de ferocidade terrível, se fez – faz – tábua rasa de direitos que os comunistas sempre invocam como desrespeitados pelos outros. Reconhecer até que sob um regime comunista seria tão impensável que V. escrevesse o que escreveu, como eu o comentasse como o comento.

    Mas cá temos a presidente do município de Loures (o que não é feito menor) alguém que, não sendo boçal, tem dúvidas quanto ao facto do regime norte-coreano não ser democrático.

    Temos o que merecemos, enfim.

    Costa

    1. Oh Costa, quase uma semana depois e ainda não conseguiu digerir os resultados das autárquicas? Kompensan, meu caro, Kompensan. Daqui a dez, vinte, trinta anos ainda está a escrever o mesmo comentário, vamos lá, não seja preguiçoso.

      1. O que escrevi nada tem a ver com as eleições. Estas ou outras. São factos que a história demonstra. “Apenas” isso. Vá lá, faça você o esforço de aceitar que as esquerdas, o comunismo em particular, não só não têm qualquer ascendente moral, como estão cheias de factos vergonhosos. Ou pior…

        Seja um espírito livre. Não se deixe apoderar, à esquerda ou à direita. Pense por si. Bem sei: um anátema, isso, para um bom comunista.

    2. Não sou comunista que fique claro. Os comunistas cometeram atrocidades, os fascistas foram abomináveis. ” Reconhecer até que sob um regime comunista seria tão impensável que V. escrevesse o que escreveu, como eu o comentasse como o comento”, passa-se exactamente a mesma coisa no fascismo, sem tirar nem pôr. Perante tal é triste que neste país democrático, mas que de democrático pouco tem, ninguém sabe o que anda a fazer. O que querem estes senhores? Matar os idosos, expulsar os jovens e os medianos e depois……….Depois vende-se o país. Temos o que merecemos!……

      1. E perdi eu…os melhores anos da minha vida a gamar em Angola… pra vocês esbanjarem tudo.!!!! Felizmente que, ainda, restam (?) algumas toneladas d’Ouro… naquela igrejinha do Banco de Portugal –

        Povo triste e “inaufabeto” que nem soube aproveitar o fruto fácil das
        arvores das patacas…

        Agora, que as tetas secaram, oxalá se possa colonizar Marte!

        Pra terminar: D. Ana Isabel preferia mil vezes o fascismo Luso ao comunismo )por ex” da RDA ou da Russia…

        Nós nem habilidade temos para sermos “bons” fascistas!

      2. E, diga-me, em que invalida isso o que eu escrevi? Será proibido criticar o dogma comunista por equivaler a uma adesão ao fascismo? Criticar a esquerda é tomado de forma automática como aderir à direita. Pecado, aliás, parece, mortal. A ideia da independência de espírito é inaceitável ao politicamente correcto desres tempos. Quanto ao resto, é isso: tantos anos depois continua a ser interdito levantar o dedo aos herdeiros espirituais da União Soviética.

        Costa

  2. Pois!
    Por um lado intriga-me e, confesso, entristece-me o facto de o meu país contar com uma tão expressiva percentagem do seu povo como adeptos de um partido comunista ortodoxo.
    Por outro lado dou-me por contente por uma grande percentagem dos votos de protesto no país irem descambar nos comunistas do PCP, é um mal menor com toda a certeza e enquanto assim fôr estamos menos mal, mas não creio que vá durar para sempre.
    Lamento mas continuo a achar estas análises desinteressantes, quando chegar ao Bloco serão 50 desafios (que enfado, será que vale a pena?), veremos se chegam aos Independentes para a coisa ter um mínimo de hipóteses de animar.

      1. Aqui o Passante, que muito aprecia o Delito como já deve ter constatado, pede escusa aos desafios do Bloco. Mas agradece o privilégio de informação antecipada sobre a data de publicação dos desafios dos Independentes. Eles estão aí, ou é impressão minha?

  3. São engraçadas estas análises ao PCP, com uma espécie de conselhos à mistura, de quem demonstra não entender claramente o que é o PCP. Felizmente que na prática não tem acontecido o que os “analistas” sempre acham que acontecerá.

  4. Só um pequeno reparo que, em nada, belisca a mensagem postada e a sua relevância. Jerónimo de Sousa não é do Sobral de Monte Agraço, mas sim de Pirescouxe, localidade pertencente à freguesia de Santa Iria da Azóia, concelho de Loures.

  5. Um dos maiores problemas do povo é a sua esquerda política… tomou-se como representante de um povo que não ouve.
    Os seus pontos estão bem colocados na perspectiva de sobrevivência política, e nas ligações às outras forças, mas creio que o grande problema do PCP é a sua ligação, ou melhor não-ligação, à população.
    Dá um grande jeito à direita ter uma esquerda assim…

    Quer o PCP, quer o BE, estando demasiado colados a ideologias centenárias, sem qualquer manifesto digno desse nome adaptado a tempos modernos, vivem desfasados entre 50 e 100 anos da economia actual. O PCP é mais caricato porque continuam com um discurso para “operários e camponeses”, praticamente ignorando que já não há agricultura dessa, e o operariado desse é cada vez mais escasso, devido à automação.
    Se colhessem os votos de todos os “operários e camponeses” não sei se chegariam aos 500 mil votos, mesmo assim têm mais e podem dar-se por satisfeitos!

    Captam votos de descontentes, mas mantendo-se hibernados num comité central do Séc. XIX repelem outros tantos, que nem tão pouco votam. Tal como o BE com os seus delírios progressistas, secam a paisagem à esquerda, para vantagem clara do “status quo” que vai do PS ao PSD. Na realidade, BE e PCP acabam por ser a razão pela qual não apareceram projectos à esquerda mais adaptados a uma defesa do consumidor, a uma maior transparência do funcionamento do estado, etc…
    São capelinhas de militância, onde a ideologia se mistura com os ídolos.
    Se o PS e PSD-CDS perderam praticamente toda a ideologia, limitando-se a ser diferentes tipos de populismo governativo, com mais ou menos “estado”, onde impera o clubismo e o “governo da malta”, o PCP guardou a ideologia em forma de ídolos, e é incapaz de traduzi-la para conceitos actuais, enquanto o BE anda à procura de novos ídolos porque nem sequer tem ideologia definida.

    1. Alguma vez o PCP esteve no governo? Não que eu saiba. O PCP é péssimo e nós a torto e a direito é só parcerias e negociatas com os chineses. Conclusão: o partido comunista chinês esse sim é muito bom. Se discordam porque passamos impávidos a tudo que é chinês em Portugal? Porque aceitamos tudo o que vem da China? Não acredito que o PCP seja pior, antes pelo contrário.

      1. Xiaopinguismo…
        Falta o pragmatismo de Deng Xiaoping para engolir ídolos, sair da secretária, e colocar mais em prática a ideologia.

        Quando o PCP começar a investir em organizações de benefício social que não seja apenas a Festa do Avante, a gente depois fala.
        Até lá, a própria Festa do Avante serve para servir o partido.
        Onde estão as iniciativas para servir a população? Na direita?
        As instituições de serviço social têm que ser todas da Igreja?
        Tem o PCP ou o BE organizações de apoio à população, nomeadamente ao consumidor, contra a prepotência de empresas e estado?
        Pois… nada, zero, nicles!

        O lema do PCP e BE é o do Tiririca – “connosco pior não fica”!

      2. Esteve , Rute, esteve. Nos tempos do PREC (saberá talvez o que isso foi). E ainda hoje arrastamos as consequências dos desvarios desses tempos. Somadas, bem sei, às dos desvarios que vieram depois.

        Desvarios (os seus autores), uns e outros, tranquilamente impunes.

        Costa

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