Palavras de Yoani Sánchez no seu blogue, Generación Y. Reina é a mãe de Orlando Zapata Tamayo, o operário negro de 42 anos que sucumbiu num dos presídios de Cuba após 86 dias de greve de fome. Havia sido condenado em 2003 por delito de opinião. O seu "crime"? Defender uma transição pacífica da ditadura para a democracia, com liberdade de expressão, reunião e manifestação. A "justiça" cubana, braço automático do poder político, condenou-o a 36 anos de cárcere. Mesmo na cadeia, Orlando não vergou: exigiu ser tratado como preso político e o respeito pelas garantias constitucionais – que são letra morta em Cuba. A greve de fome que levou até ao fim, com uma coragem indescritível, foi o maior libelo até hoje dirigido ao regime implantado em 1959 pelos irmãos Castro.
Reina, tal como o filho, também não verga. Denunciou a falta de liberdade em Cuba no próprio dia do velório, quando viu a casa cercada por dezenas de agentes da "segurança". Afirmou-se orgulhosa do exemplo de Orlando, difamado já depois de morto nas páginas do jornal Granma, porta-voz da ditadura castrista, que na linguagem bélica habitual o denunciou como "traidor" à pátria e "agente" do imperalismo. E deixou claro: tratou-se de "um assassínio premeditado", como podemos escutar neste seu impressionante depoimento.
Reina, mãe-coragem, é mais uma Dama de Blanco. Mulheres, mães e filhas de presos políticos cubanos que fazem da resistência aos verdugos uma palavra de ordem. Mesmo na noite mais triste, há sempre alguém que diz não.

"La vida nunca vuelve a la normalidad. No retorna a ese momento antes de la tragedia que ahora – ilusoriamente – evocamos como un período de calma. Abro la agenda, intento reanudar mi vida, el blog, los mensajes en Twitter… pero nada me sale. Estos últimos días han sido demasiado intensos. Sólo tengo cabeza para repasar el rostro en penumbras de Reina Tamayo frente al necrocomio, donde preparó y vistió a su hijo para el viaje más largo."
«Há sempre alguém que diz ‘não’.» É o que prevalece, para reflectirmos.
Felizmente, compadre, há sempre alguém que diz não. Com a coragem necessária, no momento certo. Agora.
Muito bem, Pedro, merecido destaque.
“Generación y” é um blogue onde gosto de ler a “palavra” de quem, à semelhança de Reyna , não “cala” o “descontentamento”…Um bem haja a essas duas mulheres e a todos aqueles que têm sabido “dizer não”…
Seja bem (re)aparecida, Maria. Já tinha saudades suas. De facto, ‘Generación Y’ é um blogue que merece uma leitura assídua e atenta. Diz-nos mais sobre Cuba do que toda a propaganda do regime castrista.
Tenho uma admiração sem limites por qualquer mãe que perde um filho nestas circunstâncias e ainda tem ânimo para continuar a luta, sabendo que é a melhor maneira de honrar a sua memória.
Também eu, Ana. Todas as ditaduras devem merecer a nossa firme condenação, tenham a cor política que tiverem. Infelizmente a ditadura cubana já existe há 51 anos – mais do que a grande maioria das que conhecemos.
É verdade. E não parece perder a força, pelo menos enquanto o Fidel for vivo.
Serei talvez um pouco ingénuo, mas ao fim de todos estes anos continuo sem perceber como se pode ser vesgo ao ponto de só ver repressão, brutalidade e crimes num espectro político sem ver no(s) outro(s). E desilude-me profundamente haver gente como Lula, que, tendo sido preso político durante a ditadura brasileira, em vez de ser hoje solidário com os prisioneiros de consciência em Cuba, compara-os aos presos de delito comum em São Paulo.
Uma vergonha.
O poder corrompe e o fanatismo cega, Pedro. Lugares-comuns, eu sei, mas continuam a ser verdades inabaláveis. A isenção é uma proeza rara. É pena, porque tudo mudaria para muito melhor se ela fosse a regra.
Por aqui, antes de Lula ser eleito presidente havia uma febre chamada Fidel Castro. Em todas as universidades os alunos usavam camisetas de Fidel e Che como significado de apoio às propostas do Partido dos Trabalhadores. Lula assumiu e muitos, inclusive eu, achei que finalmente a justiça social seria feita e em moldes democráticos. Hoje, o que vemos é muito marketing e pouca ação. E durante todo esse tempo Lula colocou-se sempre à margem de questões mais polêmicas, de forma um tanto incompreensível:
** “Lamento profundamente que uma pessoa tenha morrido por greve de fome”, disse Lula quando seguia do hotel para o Palácio da Revolução, para se reunir com o presidente cubano, Raúl Castro.
Lula garantiu não ter recebido “qualquer carta” pedindo sua intervenção na libertação de presos políticos cubanos, e lamentou a versão de que obteve uma “carta impressa” neste sentido.
“Se as pessoas se dirigissem à embaixada brasileira (…), se tentassem entrar em contato comigo, jamais deixaria de atendê-las. O que não posso é chegar a um país e me reunir com um grupo de pessoas que disseram que falaram comigo quando não falaram”, disse. “A solidariedade faz parte da minha vida e nunca deixo de tratar destes assuntos”, afirmou Lula.
Ao menos 50 presos políticos pediram ao presidente brasileiro, em carta aberta, que intercedesse pela libertação dos dissidentes cubanos e se envolvesse no caso de Zapata.**( Agência AFP)
Minha posição, independentendemente da opção política, é sempre contra qualquer tipo de ditadura e seus abusos.
Não esperava outra coisa de si, Turmalina. Agradeço o seu testemunho. Daqui a pouco também escreverei sobre Lula aqui.
Belíssima homenagem, Pedro.
Cada dia me é mais difícil exteriorizar emoções, ou saiem em forma de cloreto de sódio ou ficam retidas num nó que me magoa a garganta e me torna difícil respirar no nosso mundo.
Quanto a mim, não há maior dor o que uma mãe perder um filho, nem sequer me imagino a superar tal dor, não tenho coragem, no entanto ainda há duas horas ouvi e comentei no meu LiveJournal a dor de uma perda.
O poder é porco?
Não pode haver maior dor do que essa, Lili. Mas sinto que, ao mesmo tempo, esta mãe só pode ter orgulho da tenacidade inquebrantável do filho.