Há dias em que tudo nos nos puxa inexoravelmente para o passado. Dias que nos obrigam a olhar para trás e a reviver momentos longínquos, antes que a voragem do tempo os leve para sempre da nossa memória. Que nos devolvem imagens de muros caiados, cheiros e sabores há muito perdidos, sons de passos em soalhos encerados ou lajes de pedra, alamedas de cedros e palmeiras onde o sol se entretém a desenhar sombras chinesas, povoando de fantasia os misteriosos caminhos da infância.
Ontem foi um desses dias. Sem saber como nem porquê, no regresso de Lisboa para Sintra fiz um desvio e fui procurar uma velha quinta, vendida há anos, onde passei os mais saudosos Setembros da minha vida. Foi um erro. Para começar, custou-me encontrar o lugar, porque já nada existe que seja reconhecível: os arredores passaram de muros de pedra cheios de musgo e estradas de terra batida a um emaranhado de ruas asfaltadas entre prédios altos, todos iguais; a antiga casa da quinta, desenhada por Raul Lino, foi substituída por inúmeras moradias geminadas pintadas de um amarelo pífio; todas as árvores e plantas morreram ou foram arrancadas; o portão verde de ferro rendilhado deu lugar a uma enorme placa metálica que obedece ao abre-te sésamo de um qualquer comando electrónico; o velho tanque, a que gostávamos de chamar piscina e fazia as nossa delícias, desapareceu sem deixar rasto. Há uma grade alta que rodeia tudo, sem ter sequer uma sebe a suavizar-lhe a rigidez ameaçadora.
É um condomínio de luxo, minha senhora, disse-me uma mulher a quem fiz perguntas cujas respostas não queria ouvir. Luxo? A mim pareceu-me uma triste gaiola partilhada.


“E é bem feito, para não seres uma nostálgica” – é o que digo a mim própria, quando coisas dessas me acontecem 🙂
Tens razão, claro. A ver se não me dão nostalgias destas muitas vezes. 🙂
Ana, aqui há uns anos, largos, entrava em Torres Vedras pela rua Santos Bernardes, a entrada tradicional para quem vinha de Lisboa.E de repente, à esquerda, não estava a casa dos meus avós maternos…apenas dois prédios modernos e horrorosos.
Pois é, certas evocações pesam…
Pesam mesmo. Mas tudo tem o seu tempo, o melhor é pensarmos assim.
Nós e as casas – parcela indissociável do nosso espaço vital. Há até um célebre poema do Ruy Belo sobre este tema. 09906.html
Revisitá-las, por vezes, adoça-nos o coração. Noutras vezes transporta-nos a uma irremediável tristeza.
Gostei muito do teu texto, Ana. Tanto que me apeteceu revisitar este, que aqui deixei há três anos:
http://delitodeopiniao.blogs.sapo.pt/52
Lembro-me bem desse teu texto, tão bom. Afeiçoamo-nos a casas como a pessoas, e é natural. São elas que guardam as nossas memórias, e quantas vezes as melhores que temos. Estou agora a despedir-me de outra, a que mais me vai custar porque foi lá que cresci. Mas é assim mesmo, tudo passa. Ficam as memórias.
Olha afinal quer voltar aos tempos da outra senhora… :)))!
No tempo em que as pessoas nas vilas ao redor de Lisboa tinham muros com 50 cm de altura e se podia passar bastando levantar a perna. Porque a mobilidade era baixa e todos se conheciam, porque estava sempre alguém em casa, porque a Esquerda e Jornalismo – perdoe-se o pleonasmo – ainda não tinha começado a favorecer o crime e a inveja como mais um método de deconstrução da sociedade para facilitar a Revolução.
Que tal compararmos o nível crime hoje com o crime nos anos 70?
É algo de que censura jornalista do pós 25 de Abril não fala e não escreve…
Afinal o aumento de criminalidade contribui para o emprego -na polícia, fabricar cercas /chapas e sistemas de segurança, logo o famoso “crescimento económico” e as empresas de segurança até contribuem para pagar o “Estado Social” com impostos.
Mas a culpa é quem se mete na gaiola.
Não sou eu que quero voltar ao tempo da outra senhora, é você que quer voltar à sua fixação habitual. Fale-se de nabos, de raquetes de ténis ou de meteoritos, é impressionante como arranja sempre maneira de levar a conversa para o seu tema único.