Regresso à normalidade


escafandro,

Lentamente, os contornos do caso Banif vão ficando mais claros. O processo foi fechado antes de 1 de Janeiro de 2016, evitando as novas regras europeias para a resolução bancária, que forçam uma contribuição dos maiores depositantes e dos detentores de dívida sénior. Ao contrário do que sucedeu no Novo Banco, a venda do «banco bom» foi restringida a entidades com licença bancária, o que permitiu um excelente negócio ao Santander – e um péssimo negócio para os contribuintes. Para grande satisfação dos principais bancos, o Fundo de Resolução foi não apenas poupado a contributos desagradáveis (o que forçou o ministro das Finanças a declarações de veracidade questionável) mas capitalizado – ambas as coisas, mais uma vez, à custa dos contribuintes. Com a ajuda de uma comunicação social acéfala ou alinhada (não sei o que será pior), o ónus de toda a situação foi empurrado para o governo PSD-CDS.

Resta admitir mérito a quem o merece. A operação foi excelentemente montada e perfeitamente executada. Até já se percebe o apoio de Fernando Ulrich (quase sempre alinhado com o PSD) à formação de um governo liderado por António Costa: enquanto o PS é de confiança, a versão do PSD liderada por Passos Coelho e Maria Luís Albuquerque demonstrara não saber respeitar os costumes e as hierarquias da República.

24 comentários em “Regresso à normalidade”

  1. Sempre que um banco estoira, e têm sido quase continuamente, ouvimos as mesmas coisas. Os partidários de uma e outra fação a tentarem desresponsabilizarem-se.
    Foi com o BPN com o PSD a atribuir as culpas ao governo Sócrates, esquecendo-se de que o banco era formado sobretudo por figuras gradas do PSD.
    Foi com o BES com o PS a falar dos custos esquecendo-se de quanto se tinha apoiado no banco.
    É agora com o BANIF com o PSD a dizer que o estoiro foi provocado pelo atual governo, esquecendo-se que o banco estava intervencionado pelo anterior governo há muito tempo.

    Já não é esta argumentação estafada que aborrece, é a ideia que estas pessoas têm da inteligência de quem os lê.

    1. “Ainda assim, é hoje claro que adiar foi um erro e que este não pode ser assacado apenas ao Banco de Portugal. O mínimo que Passos Coelho, Paulo Portas e Maria Luís Albuquerque devem fazer é admiti-lo.”

      Deste meu texto:
      http://delitodeopiniao.blogs.sapo.pt/sobre-os-bancos-8048517

      No entanto, deixe-me dizer-lhe que prefiro quem erra por, entre outras razões menos nobres (incluindo, como também digo no texto, o inevitável eleitoralismo), não gostar da ideia de meter dinheiro público nos bancos do que quem trata de resolver os assuntos num ápice (de modo a ter ainda quem culpar), poupando todas as partes envolvidas menos os contribuintes.

      1. Não sei se há aqui ingenuidade ou estupidez.

        É bastante claro que em todas as soluções. incluindo o BES quem vai pagar é o CONTRUBUINTE. O dinheiro não cresce nas árvores, ninguém foi responsabilizado pelos créditos não pagos (conseguiram emprestar dinheiro sem saber a quem, estes artistas da banca), e o dinheiro há muito que está fora do país em offshors ou foi mal gasto. Só resta o Zé pagante.

        No entanto há alguns líricos que tentam vender outras petas, que se descobrem mais tarde. Caso da venda o Novo Banco que ia dar lucro, do BANIF que ia pagar juros, etc.

  2. Sempre que um banco estoira, e têm sido quase continuamente, ouvimos as mesmas coisas. Os partidários de uma e outra fação a tentarem desresponsabilizarem-se.
    Foi com o BPN com o PSD a atribuir as culpas ao governo Sócrates, esquecendo-se de que o banco era formado sobretudo por figuras gradas do PSD.
    Foi com o BES com o PS a falar dos custos esquecendo-se de quanto se tinha apoiado no banco.
    É agora com o BANIF com o PSD a dizer que o estoiro foi provocado pelo atual governo, esquecendo-se que o banco estava intervencionado pelo anterior governo há muito tempo.

    Já não é esta argumentação estafada que aborrece, é a ideia que estas pessoas têm da inteligência de quem os lê.

  3. Tive oportunidade de partilhar consigo que as situações devem ser tomadas com inteligência e não com obediência.

    Acontece que no que respeita às questões que envolvem os interesses de uma nação (hoje diz-se contribuintes. Termo que explica a renúncia à condição de cidadão e cidadania que muito se tem vincado na sociedade portuguesa) invocam-se interesses de contribuintes e muito pouco os interesses dos cidadãos, invocando-se o de contribuintes única e exclusivamente para encantar o seu grupo de apoiantes.

    Diz o ditado português que ladrão é tanto o que rouba quanto o que fica à porta. Num mundo onde se propaga a pilhagem e a ladroagem, ser contribuinte é pactuar com o status quo e assumir essa mesma condição. Por isto mesmo faço votos para que no ano de 2016 não haja muitos a contribuir, quanto menos melhor, para o bem da cidadania. Mesmo que haja polícias no encalço dos cidadãos e leis feitas para favorecer o crime e não o cidadão.
    É tal a situação de acefalia que há sempre alguém que se preocupe com a merda de um piropo, que por ser crime eu não obedecerei, que com os crimes que se praticam piropando o termo contribuinte. Não me insultem!!!!
    Como eu gostaria que a autoria deste post fosse de uma gaja, para que mandasse um valente piropo online.

    Vamos à inteligência e não à obediência, meu caro JAA. As pessoas inteligentes resolveriam em tempo útil o problema que vai postado agregando à CGD tudo quanto é bom e deixando o mau onde lhe pertence.
    Porquê?
    Convém uma brevíssima reflexão: Qualquer empresa, quer as financeiras quer as comerciais quer as industriais, só pode crescer de duas formas: conquistando o mercado por via do reconhecimento do produto e do serviço que oferece e por via da agregação, tomando outras empresas e/ou marcas.
    Numa situação de escassez é sempre notória a presença de abutres cheirando o odor de uma carcaça, mas de uma carcaça que ainda tenha carne.
    Neste sentido a agregação à CGD permitiria que esta última se constituísse uma fortaleza, para que se pudesse futuramente alienar pelo preço devido e justo o valor então agregado, ou não.

    Tudo isto para lhe dizer que devia ser instituído o crime da obediência. Viva o piropo!!! Não o deixemos morrer à letra da lei.

    JAA, Bom Ano de 2016. Faço votos para que o amigo aceite minha proposta de evitar ser um contribuinte. Faça-o como deve ser feito, com a inteligência que lhe reconheço e não com o partidarismo que também lhe reconheço.

    1. “Neste sentido a agregação à CGD permitiria que esta última se constituísse uma fortaleza, para que se pudesse futuramente alienar pelo preço devido e justo o valor então agregado, ou não.”

      Uma fortaleza? Depois da injecção de quantos milhares de milhões, para além daqueles que já lá foram metidos? 10? 15? 20? Não vejo diferença fundamental. A haver nacionalização, parecer-me-ia apesar de tudo mais correcto manter os bancos separados, de modo a vendê-los no momento mais adequado (a Finlândia, de que falámos mais abaixo, fez algo do género na década de 1990).

      Quanto a ser contribuinte: está o PS de sempre (da bancarrota, também) no poder; contribui mais quem o apoia ou quem o critica?

      1. O que você diz é que prefere ser contribuinte obediente. É crime, segundo os meu padrões.
        A agregação à CGD era uma medida cautelar, que visava proteger o preço da alienação. Não compreendeu o que escrevi?

        Não me venha com os exemplos de outros países. Centremo-nos na realidade portuguesa. Aqui tudo foi feito sem inteligência, mas com obediência.

        Por falar na Finlândia: Já foi ler as estatísticas sobre o aumento contínuo dos salários para contrariar a crise? São dados de Outubro. Vê como a racionalidade e inteligência, e não a obediência, oferece coisas boas.
        Só é obediente quem não é capaz de pensar ou revela não saber apresentar soluções.

        1. “Por falar na Finlândia: Já foi ler as estatísticas sobre o aumento contínuo dos salários para contrariar a crise? São dados de Outubro.”

          E vai funcionar? A Finlândia ainda tem margem na dívida pública e na taxa de desemprego. Mas Sócrates fê-lo em 2009 e não funcionou.

          “Vê como a racionalidade e inteligência, e não a obediência, oferece coisas boas.”

          Não consigo ver tão à frente. Mais do que para racionais e inteligentes, isso é para iluminados.

          1. Antes de tudo gostaria de dizer-lhe que as limitações que encontra em si não transformam os demais em super-homens.
            Também pretendo que saiba que o facto de se reconhecer subordinado a minhas capacidades não me transformam num petulante por causa disso. É o JAA que se reconhece como o típico humilde que tanto se propaga pela nação. Felizmente eu não tenho essa visão da humildade. Existe acima de qualquer lei e da tão propagada tradição uma lei natural, que eu procuro observar, que me faz igual a todos os demais apesar das diferenças. Não espere ver em mim tal tipo de humildade.

            Se bem entendo de seu comentário, o JAA está com dificuldades em ler números e em aceitar a realidade. Não sou eu que afirmo algo agora, afirmei somente por antecipação. Só demonstro com a realidade o que antes defendia.

            Eu sei que existe uma tradição portuguesa, quer nos crentes quer nos não crentes, que os leva a pensar que suas virtude transformam os demais em miseráveis pecadores. Eu também não sigo tal tradição.
            Vem a propósito este comentário o uso de Sócrates para justificar o injustificável. Gostaria de dizer-lhe que depois de ter ajudado a derrotar Portas e Passos Coelho assumo que o tempo os regenera. Posto isto, oferecer-lhes-ei o espaço necessário para que amadureçam e corrijam suas atitudes. Depois de ter combatido Sócrates, adoptei o mesmo princípio.
            Faço referência a este pormenor para concordar consigo: na realidade as nossas diferenças não fazem de mim um justo, mas simplesmente alguém diferente de si. Não obstante, continuo a dar-lhe espaço ao diálogo.

          2. JAA, a condescendência é a arma dos fracos. Eu nunca reduzo ninguém a tal insignificância e desprezo. Dar espaço é uma coisa completamente diferente da condescendência. É abrir uma oportunidade a mim mesmo para que o outro me mostre que não é aquilo que revela num momento.

  4. o ónus de toda a situação foi empurrado para o governo PSD-CDS

    O governo PSD-CDS não merece todo o ónus, mas merece boa parte dele. Porque é que esse governo capitalizou o BANIF em 2012, em vez de o deixar ir-se abaixo, como a Comissão Europeia nessa altura recomendou?

    O José António Abreu louvou, e muito bem, o govermo PSD-CDS por ele ter recusado, em 2014, pôr a mão por baixo do BES. Pergunto: porque pôs o governo PSD-CDS a mão por baixo ao BANIF?

    O governo PSD-CDS tinha fundos da troica para ajudar a capitalizar bancos viáveis. Recusou (muito corretamente) esses fundos ao BES, por esse banco ser inviável, mas deu-os ao BANIF, que também era inviável. Por quê?

    1. Exacto. Fez mal – em 2012 (se, de facto, era já claro que o banco era inviável) e desde então (ao adiar uma solução). Mas, na parte que tem a ver com o comportamento desde então e aproveitando um trecho da resposta a outro comentador, “prefiro quem erra por, entre outras razões menos nobres (incluindo (…) o inevitável eleitoralismo), não gostar da ideia de meter dinheiro público nos bancos do que quem trata de resolver os assuntos num ápice (de modo a ter ainda quem culpar), poupando todas as partes envolvidas menos os contribuintes.”

      1. prefiro quem erra por não gostar da ideia de meter dinheiro público nos bancos

        Mas o José António não tem qualquer indicação de que Maria Luís não goste de meter dinheiro público nos bancos! O José António apenas sabe que Maria Luís, num determinado momento, decidiu pôr dinheiro público no BANIF e, noutro momento, decidiu não pôr dinheiro público no BES. O José António não sabe se Maria Luís gosta ou não gosta; apenas sabe o que ela fez. E o que ela fez, em dois momentos diferentes, foi contraditório: num caso pôs dinheiro público, no outro recusou pôr.

          1. Bah!… A 19 de novembro de 2015 Carlos Costa escreve uma carta a Maria Luís dizendo-lhe que é preciso urgentemente resolver o problema do BANIF. Mas nesse momento Maria Luís tem mais que fazer do que ir queimar o seu já evanescente capital político em coisas dessas. Portanto, deixa o problema para o seu sucessor – ele que se trame, pensa ela. Maria Luís não age por convicção, age por cálculo político elementar – o meu adversário que tome a decisão impopular.
            O José António não deve tomar essa decisão de Maria Luís como resultando de quaisquer opiniões políticas dela. A decisão resulta apenas de um cálculo político – vou saltar desta sertã em breve, quem me suceder que se queime!

  5. Não faz sentido vender a uma entidade sem licença bancária um banco que se pretende que continue a operar. Portanto, a venda do BANIF foi bem feita; a do NB é que foi mal feita.
    (Aliás, há todos os motivos para crer que a falhada venda do NB foi apenas uma encenação feita por motivos políticos para atirar areia para os olhos dos eleitores – já se sabia que o NB era invendável naquele ponto. O compincha Carlos Costa fez o favor à Maria Luís de encenar uma venda que já sabia que ia falhar, só para fingir perante os eleitores que estava a envidar os melhores esforços para resolver algo que já sabia ser, naquele momento, insolúvel.)
    O Fundo de Resolução foi poupado porque esse fundo já se encontra sobrecarregado com o NB e já não tem capacidade para mais. O governo anterior atirou com o NB para cima de um Fundo de Resolução que, não só não tem dinheiro, como está periclitante devido à situação frágil de outros bancos. Se agora o atual governo também atirasse o BANOF para cima do Fundo de Resolução, os outros bancos seriam incapazes de alguma vez arcar com o fardo.

    1. “há todos os motivos para crer que a falhada venda do NB foi apenas uma encenação”

      Ah.

      “Se agora o atual governo também atirasse o BANOF para cima do Fundo de Resolução, os outros bancos seriam incapazes de alguma vez arcar com o fardo.”

      Não é essa a explicação do ministro das Finanças. Mais valia que fosse mas não é.

      1. Sinceramente, não sei qual é a explicação do ministro das Finanças. Como o José António já aqui fez notar uma vez (a propósito do salário mínimo), o ministro das Finanças exprime-se de forma algo canhestra. Admito que neste caso ele tenha dado uma explicação errada ou mentirosa.

        Quanto à tese de que a venda do NB foi encenada, ela foi-me apresentada por uma gestora bancária (de outro banco) minha conhecida. Ela explicou-me, tintim por tintim, isso mesmo: que a pretensa venda do NB, no tempo exato em que foi feita, foi apenas uma encenação levada a cabo por motivos políticos, pois já se sabia que ninguém iria dar pelo NB qualquer dinheiro que valesse a pena, dado o estado não saneado do NB (que ainda tem todos os balcões e todos os trabalhadores que o BES tinha!) e dados os potenciais processos judiciais que sob ele impendem. Foi uma encenação levada a cabo apenas para fingir que o PSD-CDS e o seu compincha Carlos Costa estavam a envidar todos os esforços para resolver com toda a rapidez o problema que tinham criado, quando na evrdade sabiam que esse problema era (nesse momento) insolúvel.

        1. “Sinceramente, não sei qual é a explicação do ministro das Finanças.”

          É seguir o link no post.

          “Quanto à tese de que a venda do NB foi encenada, ela foi-me apresentada por uma gestora bancária (de outro banco)”

          Ah.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *