Regresso a Marx


Pedro Correia,

 

Com a crise europeia, volta-se a Karl Marx. Já não com a obsessão de encontrar terapias salvíficas na obra do grande teórico do século XIX, mas pelo menos para se estabelecer uma comparação com o diagnóstico que então traçou e os tempos actuais. Ando a ler um livrinho dele, o clássico O 18 de Brumário de Luís Bonaparte, e confirmo o seguinte: Marx escrevia muito bem.

Repare-se nos dois parágrafos de arranque da obra (traduzo directamente do castelhano, pois estou a ler uma versão impressa nos anos 70 em Barcelona): «Hegel diz em algum lado que todos os grandes factos e personagens da história universal se produzem, digamos, duas vezes. Mas esqueceu-se de acrescentar: a primeira vez como tragédia, a outra como farsa. (…) Os homens fazem a sua própria história, mas não a fazem de modo arbitrário, sob circunstâncias eleitas por si próprios, mas sob circunstâncias directamente proporcionadas e herdadas do passado. A tradição de todas as gerações mortas oprime como um pesadelo o cérebro dos vivos. Lutero disfarçou-se de apóstolo Paulo, a revolução de 1789-1814 envergou alternadamente as vestes da República Romana e do Império Romano, e a revolução de 1848 não conseguiu fazer melhor do que parodiar a de 1789 e a tradição revolucionária de 1793 a 1795.»

Fica agarrado o leitor, logo de início, a esta prosa. Mesmo o leitor que está muito longe de ser marxista.

13 comentários em “Regresso a Marx”

  1. Como, sem me dar conta, lancei uns quantos impropérios mentais assim que me apercebi que não poderia continuar a seguir o raciocínio em que já estava embalado, sou forçado a concordar. Pareceu-me fluído e galopante sem ser torrencial. A mim arrastou-me antes que me apercebesse…

    1. Recomendo o livro, Hugo. É o livro de um historiador, de um pensador político, de um grande polemista. Um livro profundamente enraziado na sua época, mas com pistas interessantíssimas para outras épocas. Desde logo, esta que surge nas primeiras linhas: «A tradição de todas as gerações mortas oprime como um pesadelo o cérebro dos vivos.»

      1. Quando conseguir acabar de reler esse colosso que é a Guerra e Paz vou ponderar este. Fiquei mesmo curioso com a obra. E eu que nunca me interessei por nada escrito pelo reaccionário velhote de barbas! Obrigado 😉

  2. Interessantíssimo raciocínio. Pensando bem, podemos fazer o exercício em relação a quase tudo, até aos acontecimentos mais privados: primeiro a grande tragédia grega, que julgamos irrepetível, mais tarde uma versão buffa, a desmentir-nos e a rir-se de nós. A velha teoria de que fazemos sempre na vida os mesmos erros não é nada disparatada.

    1. A História repete-se – primeiro como tragédia, depois como farsa. Marx justifica muito bem esta sua tese, que aliás originou a perdurável e merecida fama do livro. Uma tese que aliás, no século XX, se viraria contra certos regimes marxistas. Mas isso é já outra história…

  3. “Livrinho” de leitura obrigatória no meu 1.º ano da faculdade. Depois disso sempre esteve à mão de semear na estante. Importantes lições de História. A reler, por exemplo, sempre que nos quisermos lembrar de como surgiu a social-democracia.

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