De regresso de uma breve saída, passei no meu velho Liceu (agora Escola Secundária porque pouco tempo depois do Vinte e Cinco do Quatro um secundário qualquer assim crismou aqueles estabelecimentos) e, num impulso, fui visitá-lo. Não pela entrada principal, que está fechada, mas pela nova, que se distingue por ser um pórtico enorme cheio de grades e com uma casota para o porteiro. O qual ainda esboçou o gesto de me interpelar mas desistiu dado o meu distraído aceno de pessoa superior – o homem achou decerto que seria alguma autoridade académica, nem todos os agentes desta vestindo mal e tendo aspecto de amanuenses.
Os revestimentos do chão e das paredes não são os mesmos, há portas onde dantes a passagem era livre, e passagens livres onde dantes havia portas, onde era a Secretaria, que passou para as salas de desenho, agora está uma Portaria, e quase tudo o mais mudou de sítio, salvo as minhas salas de aula, por onde passeei, há 50 anos, preguiça e insolência. O mobiliário é porém muito diferente – com aquelas mesas os moços e as moças confirmarão as suas corcundas, que já vinham cultivando de pequeninos porque os pais modernos não acham pedagógico ligar às posturas, o que já sucedia com as antigas carteiras, que porém tinham outras vantagens. É óbvio que ali se torraram milhões do saudoso Parque Escolar, vê-se a mão de arquitectos e designers, duas classes profissionais que se ocupam uma a produzir ofensas à paisagem e outra a rechear os interiores de lixo pouco funcional, se não for nórdico, e de limitada duração, se for, mas o resultado final não está mal: o edifício é em granito, alterar-lhe a traça não é viável, havia boas madeiras que seria pena escavacar, salvo as portas, que não sobreviveram possivelmente porque, se forem em vidro, é mais fácil fiscalizar os tumultos e as faltas de respeito que me dizem fazerem hoje parte das mais actualizadas práticas pedagógicas.
Entrei e virei à esquerda, o percurso que penosamente fiz, de manhã, centenas de vezes. E, já a meio, fui interpelado por uma funcionária, inquirindo se “desejava alguma coisa”. Desejava: Queria saber onde paravam as escadas em que terminava aquele corredor, que não as estava a ver. E como ela me olhasse avaliatoriamente, fui dizendo que tinha sido ali aluno há 50 anos e estava a fazer uma romagem de saudade.
A moça (tudo o que tenha menos de 50 hoje, para mim, são “moças”) esclareceu que as escadas estavam lá, mas não se viam porque o corredor fora prolongado e havia, à direita, uma porta que a elas dava acesso. E vi, claramente visto, que nas engrenagens daquela cabeça o objecto a precisar de classificação, que era eu, já havia recebido luz verde como não constituindo qualquer perigo. Está já a decorrer a campanha para as eleições locais e numa primeira apreciação poderia ser o caso de ser eu um candidato enxerido a meter o nariz nos estabelecimentos de ensino. Mas não parecia comunista porque esses costumam andar de camisa aos quadrados e pochette; bloquista também não porque nem tenho acne nem uso tshirts com aspecto de pijama gasto; psd ainda vá, mas a variedade local não é desempoeirada como são os de Oeiras, e dá-se o caso de que eu estava de camisa por fora das calças; do Chega! nada, que não tenho peito cabeludo; e betinho do CDS ou da IL isso sim, mas é gente inofensiva.
De modo que passeei por onde quis, sozinho, saí tranquilamente por onde entrei, agradeci à funcionária que estava imersa numa conversa telefónica por causa, ao que pude perceber, de um incidente doméstico, e relato todos estes factos porque me parece não serem destituídos daquele interesse que, se soubesse qual é, não esconderia.

Ainda não passaram muitos anos, o João filho da Maria, também conhecida por senhora Maria, e o Joaquim filho da Carolina, também conhecida por dona Carolina, eram colegas no mesmo estabelecimento de ensino, também conhecido por Escola, mas havia uma diferença na explicação que davam, o João andava na Escola Secundária e o Joaquim andava no Liceu.
Este é aquilo a que se chama um comentário “fino”, mas profundo.
Fino e revelador. Se o filho andava no Liceu a mãe seria a sra. D. Carolina, ecepto se vendesse na praça ou noutro local público.
Nesse caso seria a Sra. Carolina.
Há umas décadas o meu (salvo seja) departamento foi presenteado com um novo edifício no Pólo Universitário. Edifício top, arquitectos de excelência, uma coisa agradável à vista, ao contrário dos caixotes que o Salazar deixara como legado.
Largos corredores, espaços amplos, jardins (claro que nao havia quem os tratasse), imensa exposição solar nas salas, o que no Verão tinha o seu quê de desconforto.
Cedo saltou à vista que a área útil não era proporcional à total, o que logo provocou comichão em quem tinha ideias de ir aumentando o número de entradas anuais. O desenho era composto por três torres, sendo que qualquer movimento entre elas obrigava a descer uns lanços de escadas e subir outros tantos.
O melhor, só foi criado um anfiteatro grande, que ainda assim ao fim de 2 anos não albergava certas disciplinas.
Mas o edifício era bonito.
“sendo que qualquer movimento entre elas obrigava a descer uns lanços de escadas e subir outros tantos.”
Só faz bem!
Exercício já se fazia no caminho para as aulas. Criaram um pólo universitário, não se lembraram de fazer passar por lá um autocarro. O mais divertido foi no ano em que ainda havia aulas em ambos os pólos fazer o percurso entre ambos no espaço de tempo do intervalo. Tudo pensado ao pormenor.
O Salazar era/foi arquitecto?
O edifício era bonito; já não é?
Sempre gostei de aprender, muito obrigado.
Além de arquitecto também era engenheiro, pois deixou uma ponte em Lisboa. Um homem do Renascimento.
Salazar um homem do Renascimento !!???
Só faltava mais esta.
Dessimulam-se escadas, mas elas contiuam lá. A porta permite controlar quem acede ao lugares mais acima. Parábola ou simples romaria?.