Regresso à escola


José Meireles Graça,

De regresso de uma breve saída, passei no meu velho Liceu (agora Escola Secundária porque pouco tempo depois do Vinte e Cinco do Quatro um secundário qualquer assim crismou aqueles estabelecimentos) e, num impulso, fui visitá-lo. Não pela entrada principal, que está fechada, mas pela nova, que se distingue por ser um pórtico enorme cheio de grades e com uma casota para o porteiro. O qual ainda esboçou o gesto de me interpelar mas desistiu dado o meu distraído aceno de pessoa superior – o homem achou decerto que seria alguma autoridade académica, nem todos os agentes desta vestindo mal e tendo aspecto de amanuenses.

Os revestimentos do chão e das paredes não são os mesmos, há portas onde dantes a passagem era livre, e passagens livres onde dantes havia portas, onde era a Secretaria, que passou para as salas de desenho, agora está uma Portaria, e quase tudo o mais mudou de sítio, salvo as minhas salas de aula, por onde passeei, há 50 anos, preguiça e insolência. O mobiliário é porém muito diferente – com aquelas mesas os moços e as moças confirmarão as suas corcundas, que já vinham cultivando de pequeninos porque os pais modernos não acham pedagógico ligar às posturas, o que já sucedia com as antigas carteiras, que porém tinham outras vantagens. É óbvio que ali se torraram milhões do saudoso Parque Escolar, vê-se a mão de arquitectos e designers, duas classes profissionais que se ocupam uma a produzir ofensas à paisagem e outra a rechear os interiores de lixo pouco funcional, se não for nórdico, e de limitada duração, se for, mas o resultado final não está mal: o edifício é em granito, alterar-lhe a traça não é viável, havia boas madeiras que seria pena escavacar, salvo as portas, que não sobreviveram possivelmente porque, se forem em vidro, é mais fácil fiscalizar os tumultos e as faltas de respeito que me dizem fazerem hoje parte das mais actualizadas práticas pedagógicas.

Entrei e virei à esquerda, o percurso que penosamente fiz, de manhã, centenas de vezes. E, já a meio, fui interpelado por uma funcionária, inquirindo se “desejava alguma coisa”. Desejava: Queria saber onde paravam as escadas em que terminava aquele corredor, que não as estava a ver. E como ela me olhasse avaliatoriamente, fui dizendo que tinha sido ali aluno há 50 anos e estava a fazer uma romagem de saudade.

A moça (tudo o que tenha menos de 50 hoje, para mim, são “moças”) esclareceu que as escadas estavam lá, mas não se viam porque o corredor fora prolongado e havia, à direita, uma porta que a elas dava acesso. E vi, claramente visto, que nas engrenagens daquela cabeça o objecto a precisar de classificação, que era eu, já havia recebido luz verde como não constituindo qualquer perigo. Está já a decorrer a campanha para as eleições locais e numa primeira apreciação poderia ser o caso de ser eu um candidato enxerido a meter o nariz nos estabelecimentos de ensino. Mas não parecia comunista porque esses costumam andar de camisa aos quadrados e pochette; bloquista também não porque nem tenho acne nem uso tshirts com aspecto de pijama gasto; psd ainda vá, mas a variedade local não é desempoeirada como são os de Oeiras, e dá-se o caso de que eu estava de camisa por fora das calças; do Chega! nada, que não tenho peito cabeludo; e betinho do CDS ou da IL isso sim, mas é gente inofensiva.

De modo que passeei por onde quis, sozinho, saí tranquilamente por onde entrei, agradeci à funcionária que estava imersa numa conversa telefónica por causa, ao que pude perceber, de um incidente doméstico, e relato todos estes factos porque me parece não serem destituídos daquele interesse que, se soubesse qual é, não esconderia.

11 comentários em “Regresso à escola”

  1. Ainda não passaram muitos anos, o João filho da Maria, também conhecida por senhora Maria, e o Joaquim filho da Carolina, também conhecida por dona Carolina, eram colegas no mesmo estabelecimento de ensino, também conhecido por Escola, mas havia uma diferença na explicação que davam, o João andava na Escola Secundária e o Joaquim andava no Liceu.

      1. Fino e revelador. Se o filho andava no Liceu a mãe seria a sra. D. Carolina, ecepto se vendesse na praça ou noutro local público.

  2. Há umas décadas o meu (salvo seja) departamento foi presenteado com um novo edifício no Pólo Universitário. Edifício top, arquitectos de excelência, uma coisa agradável à vista, ao contrário dos caixotes que o Salazar deixara como legado.
    Largos corredores, espaços amplos, jardins (claro que nao havia quem os tratasse), imensa exposição solar nas salas, o que no Verão tinha o seu quê de desconforto.
    Cedo saltou à vista que a área útil não era proporcional à total, o que logo provocou comichão em quem tinha ideias de ir aumentando o número de entradas anuais. O desenho era composto por três torres, sendo que qualquer movimento entre elas obrigava a descer uns lanços de escadas e subir outros tantos.
    O melhor, só foi criado um anfiteatro grande, que ainda assim ao fim de 2 anos não albergava certas disciplinas.
    Mas o edifício era bonito.

    1. “sendo que qualquer movimento entre elas obrigava a descer uns lanços de escadas e subir outros tantos.”

      Só faz bem!

      1. Exercício já se fazia no caminho para as aulas. Criaram um pólo universitário, não se lembraram de fazer passar por lá um autocarro. O mais divertido foi no ano em que ainda havia aulas em ambos os pólos fazer o percurso entre ambos no espaço de tempo do intervalo. Tudo pensado ao pormenor.

    2. O Salazar era/foi arquitecto?
      O edifício era bonito; já não é?
      Sempre gostei de aprender, muito obrigado.

  3. Dessimulam-se escadas, mas elas contiuam lá. A porta permite controlar quem acede ao lugares mais acima. Parábola ou simples romaria?.

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