Reflexão do dia


Pedro Correia,

 

«Uma das coisas mais interessantes desta crise é a de verificarmos semelhanças entre os países do Sul da Europa, nomeadamente entre nós, Espanha, Itália e Grécia. A história do mundo ocidental que hoje conhecemos assenta em boa parte no que foi gerado nestes quatro países em termos de cultura, história, equilíbrio entre o homem e a natureza, e o grande prazer de viver com o Sol, os sabores gastronómicos riquíssimos, as praias, a paisagem. Se nos tivermos de virar para algum lado, parece claro que a nossa herança genética está aqui.

E este pode ser o nosso plano B. Talvez tenhamos de construir um destes dias a tal Europa do Sul com italianos, gregos e espanhóis a fazerem-nos companhia. Será mais pobre mas pode incluir uma moeda para os quatro, ter França como uma zona de passagem neutra, talvez incluir os países dos Balcãs como novos mercados. E nós, os do Mediterrâneo europeu, não metemos medo aos turcos, aos marroquinos, aos egípcios, etc.. Não somos a Europa xenófoba.

Estamos numa luta contra o tempo e no nosso sangue não corre a geometria decimal com que a troika nos obriga a vender tudo como se não houvesse no fundo da nossa memória esta questão: quase mil anos como nação independente. Sim, é essencial tornar o país menos dependente do financiamento externo e pôr as contas em ordem. Mas que países do Norte da Europa nos vão perdoar, mesmo depois de termos feito tudo, e não for suficiente? Não tenhamos ilusões: quem trata mal os gregos, vai-nos tratar mal a nós.»

Daniel Deusdado, no Jornal de Notícias

11 comentários em “Reflexão do dia”

  1. O Daniel descreve a atemporalidade.
    Mas há algo mais grave.

    A Grécia foi mais produtiva do que nós em todo o sec. XX.
    …degenerou em 2000 para a frente…

    O nosso atraso é mental.

    1. Não concordo, Jaa. As diferenças de ritmo e de perspectiva de vida não têm de significar mediocridade para os mais “lentos”. Assim como a maior produtividade e riqueza não tem de significar, tout court, uma superioridade para além da hegemonia económica. E há, seguramente, outras formas de superioridade. Esta esquizofrenia de cumprir imposições claramente acima das nossas possibilidades só vai fazer aumentar ainda mais a nossa frustração, se (quando?) não o conseguirmos. E é muito provável que isso aconteça. Por outro lado, os povos do Mediterrâneo são os nossos irmãos naturais, e não os nórdicos. Será mais fácil entendermo-nos com eles, negociarmos com eles, progredirmos com eles a um ritmo comum. Todo o esforço que os povos do sul têm feito para parecer-se com os do norte tem sido em vão, talvez por ser demasiado artificial. E para quê? Termos como objectivo transformar-nos naquilo que não somos, naquilo que nunca seremos, é reconhecermos uma inferioridade que não só não existe como contraria até a História, como diz e muito bem Daniel Deusdado. Devíamos orgulhar-nos de quem somos e aperfeiçoar a nossa matriz, e não tentar substituí-la por outra.

      1. Ana: é então bom ser financeiramente irresponsável, ter estoiros de quando em quando e um Salazar (ou uma versão Luso-hispano-italo-greco-etc. do Salazar) para equilibrar as contas? Pela mesma lógica, os povos do Sul do Mediterrâneo também não deviam aspirar a atingir os níveis de vida dos europeus. Deviam “orgulhar-se de quem são e aperfeiçoar a matriz” – exactamente o que é que isto quer dizer, Ana?

        1. Isto é um bocadinho esquizóide: bato-te aqui, elogio-te lá em cima.
          Mas enfim, vamos ao que interessa. O que isso quer dizer é exactamente o que lá está escrito. Aperfeiçoar a matriz significa melhorar naquilo em que tendemos a falhar, sem que para isso tenhamos de descaracterizar-nos. Será assim tão difícil de entender? E não, não “é bom ser financeiramente irresponsável, ter estoiros de quando em quando e um Salazar para equilibrar as contas”… mesmo sabendo que grande parte dessa irresponsabilidade provém de um deslumbramento fácil (e saloio) com um nível de vida que nos fizeram crer estar ao alcance de um simples estalar de dedos. Nada disso foi inocente, Jaa, e a factura só veio quando os doces já estavam comidos. Como era expectável. E aqui ficámos, suspensos neste limbo de quem já viu entreaberta a caverna de Ali Babá mas é obrigado a voltar para trás, frustrado, e ainda a pagar o bilhete de entrada mesmo ficando à porta. Além disso, qual é exactamente hoje em dia o tão apregoado “nível de vida” dos europeus? Não te parece, no mínimo, que o conceito é discutível?
          Mas pergunto: se é assim que nos vês, nessa descrição sumária e miserável em que nada se aproveita, então ou tens uma sólida arcada de costelas celtas para te sentires mais feliz, ou deves sentir-te muito mal na tua pele. Eu gosto de ser latina, com tudo o que isso implica.

          1. Não faz mal: alguma das melhores relações nascem assim…

            O que tendemos a falhar é pecisamente aquilo que faz a diferença: capacidade de antevisão, de responsabilidade, de dar prioridade ao realismo e não aos sonhos deslumbrantes. Tudo isso é notório na forma como nos comportamos no trânsito, como não somos pontuais, como nunca assumimos culpa de nada, como achamos normal criar relações de cumplicidade que nem percebemos que rapidamente se tornam formas de cunha e favorecimento (ou só percebemos quando as vemos nos outros), etc, etc. É isto que nos faz latinos? Se é, de facto não gosto de o ser.

            Numa coisa estamos de acordo: o nível de vida europeu já não é o que era. Em contrapartida, há muita gente a viver melhor noutras partes do mundo. No Brasil, por exemplo.

            E não faço ideia se tenho costelas celtas; sei é que gosto mais da música celta do que do fado, talvez isso queira dizer algo. 🙂

          2. Não é só isso que nos faz latinos, é muito mais. Continuo a dizer que só consegues ver-nos os defeitos, ignorando as qualidades que também temos…
            Mas pronto, não teimo mais. Acrescento só que por acaso gosto de fado (não de todo o fado, note-se) e também gosto muito – muito mesmo – de música celta. 🙂

  2. Com textos destes dá-se mais um passo para a degeneração.
    Fica claro como a Europa do Sul defende a injustiça, a mentira e a vigarice e como foram cúmplices de todo o caminho até aqui.
    E a hipocrisia xenófoba. Sim este texto é mesmo isso. Os do Norte só são bons quando nos pagam. TODAS as contas, senão chamamos-lhes xenófobos.
    Todas sim porque os subsídios que vêm da Europa do Norte não chegam.
    Eles têm de pagar TODA a conta.
    Sim há muitos portugueses que fazem parte da Europa Xenófoba. São a maioria. E este texto demonstra-o.

  3. o conceito “pigs”, em todo o seu esplendor, pensarão alguns com pouco tempo para reflexões.
    (mas muito europeus: enxote-se esses outros, deste e do outro lado do mediterrâneo -turcos, marroquinos e por aí-porque “nós” somos do mediterrâneo europeu).

  4. Um dia destes estive com um amigo meu grego que já não via há muito, bastante tempo antes de esta saga ter começado. Ele conhece bem Portugal (casado com uma portuguesa, tradutor de literatura contemporânea portuguesa para grego, etc). Perguntei-lhe como é que as coisas estavaqm por lá, se havia um desfasamento muito grande entre o que se lê cá fora e o que se passa lá dentro (como há algum em relação a Portugal, acho eu). Ele disse-me que as coisas estão mas, que as pessoas começam a sofrer, que são sempre os mesmos a amochar (funcionários públicos e pensionistas, porque são fáceis de apanhar), mas que toda a gente quer que sejam os outros a pagar, não eles. Perguntei-lhe pela corrupção, se era mesmo tão mau como se dizia: e ele disse que sim, que o IMT tinha um valor teórico e o valor que efectivamente se pagava e que era com esse aqu o banco entrava em linha de conta, etc; que, em suma, era um modo de vida. Era esta a minha dúvida, se a imagem que passa cá fora da Grécia correspondia à verdade e fiquei com a ideia de que sim, correspondia. E que, como se dizia meio a brincar meio a sério “em Bruxelas”, eles são diferentes, menos europeus e mais orientais.

    Vale o que vale.

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