Reflexão do dia


Pedro Correia,

«Comparando o léxico de Mau Tempo no Canal, de 1944, com o romance de um autor contemporâneo, percebe-se que cerca de 20% desapareceu. A língua portuguesa está confinada ao seu ersatz, uma espécie de substituto ligeiro, uma língua de anúncios de aeroporto, de fala de supermercado. A escola é muito responsável pelo desastre, preferindo a pobreza do léxico, desculpabilizando os erros, parlapatando – esquecendo que quem fala e escreve mal pensa mal.»

Francisco José Viegas, no Correio da Manhã

0 comentários em “Reflexão do dia”

  1. Discordo de FJV: a língua portuguesa tem um excesso de palavras que para nada de útil servem e que apenas sobrecarregam a memória de quem as conhece.
    Quantas vezes não me pergunta o meu filho sobre o significado de uma palavra e eu tenho que lhe dizer que essa palavra é totalmente sinónimo de uma outra, nada lhe retirando nem acrescentando.
    Por exemplo: para que é necessário conhecer a palavra “escasso” se ela é totalmente equivalente à muito mais intuitiva palavra “insuficiente”?

    1. Era bom que fosse tudo assim tão simples e, se quiser, pode ler gratuitamente George Orwell’s Theory of Language – Andrei Reznikov – Google Books
      Aqui, Reznikov junta vários textos de G.Orwell sobre este assunto mas, se calhar, como é em inglês, na sua opinião, deve ser outra coisa inútil que não vale a pena aprender.

      Quanto ao “sobrecarregam a memória” posso garantir-lhe que, aprender, não causa sobrecargas nem problemas como curto circuitos, danos no cérebro, choques elétricos nem incêndios. Aliás, o cérebro funciona exactamente como qualquer outra parte do seu corpo, quanto menos a usar, pode até acabar por paralisar que, no caso do cérebro, até se pode usar outra palavra como, por exemplo, estupidificar

    2. as duas palavras devem existir porque, embora sinónimos, nem sempre significam a mesma coisa. A velocidade que um corredor imprimiu foi insuficiente para ganhar a corrida, mas não foi por escassez de recursos, mas porque usou insuficientemente os que tinha.

    3. Séculos de literatura – coisa fundamentalmente inútil, afinal; mesmo perigosa – magistralmente fulminados e postos no seu lugar por Luís Lavoura, o Novilíngua.

      Viver e aprender, enfim.

      Costa

    4. Lavoura, bolchevique quer obviamente provocar a escassez de palavras.
      Acha que “insuficencia de palavras” gastando muito mais letras acima fica melhor?

      Percebe que o que significa “melhor”

      Porque ter 2 marcas de leite quando uma basta? Porquê ter Pepsi e Coca Cola e outras colas?
      O mundo hiper regulado a régua e esquadro destas mentes puritanas.

      Que tal porque as pessoas querem, gostam e lhes apetece? Porque têm prazer num som de uma palavra junto com outra.

      Onde ficaria a literatura, a poesia, a letra de uma canção, humor só com palavras unívocas só com um significado sem sobreposições, mistura, cor, força, som?

      Na destruição moral e ética da decadência do mundo regulado, aprovado cientificamente Comunista?

      Onde nada é possível descobrir, criar, inventar.

  2. Escreve – e muito bem – isso que aqui reproduz e todavia abraça o AO90, como se para ele a ortografia fosse mera ferramenta da mais básica, despida de cultura, ciência, elegância, qualquer coisa servindo. Quanto muito um instrumento político (de políticas ora falhadas ora inconfessáveis).

    Peculiar personalidade, tanto aqui como em Foz Tua. Um desapontamento que entristece.

    Costa

  3. Aposto que, mesmo alargando âmbitos até ás academias, será reduzida a audiência para estas chamadas de atenção – não necessariamente por desinteresse, mas porque essas populações tropeçam em, hesitam sobre e/ou se quedam bloqueados no matutar do significado da palavra “léxico” – e se esforçados, recorrerem á Wikipédia, esbarram logo, no inicio da definição, com a palavra “acervo”! Uma canseira… :-)))

  4. E se comparar o léxico de Vitorino Nemésio com o de Camilo, se calhar chega à conclusão que algum desapareceu. O que não quer dizer que o primeiro escrevia mal.

    As comparações fazem-se entre equivalentes Vitorino Nemésio era um escritor talentoso.
    Qual o escritor moderno que indica?
    É que há algumas diferenças entre Lobo Antunes e Rita Ferro.

  5. “A escola é muito responsável pelo desastre, preferindo a pobreza do léxico, desculpabilizando os erros, parlapatando – esquecendo que quem fala e escreve mal pensa mal.”

    A escola pode ser responsável mas, a culpa, será de quem controla o que se ensina ou exige na Escola e é, precisamente, o reflexo das boas ou más intensões do Estado que, se ainda ninguém notou, quer, apenas, cumprir “ordens” porque, o caminho para esta concentração do Poder a nível global, não é só através do dinheiro e das dívidas dos países mas, envolve muitos outros aspectos, como o da linguagem, basta olhar para outros regimes totalitários do passado que nunca gostaram de cidadãos que “saibam demais”, consigam ver para além da manipulação do que lhes dão “a comer” e um crime pensarem fora da “caixa” mas, para pensar, isso só é possível com palavras, para poder elaborar os pensamentos que, inevitavelmente, os farão questionar, permanentemente, o status quo.

    Para uma minoria conseguir controlar a maioria, fica difícil através da força física mas, fica muito fácil, quando conseguem transformar as pessoas em “recipientes” ou nos tais “carneiros” que não pensam, sendo apenas programados para obedecer e, adicionando medos, a “receita” fica perfeita e é mais que velha.

    Quanto ao “esquecendo que quem fala e escreve mal pensa mal.”
    não é nada de novo porque muitos já falaram do assunto e de como isso é deliberado e, basta voltar a George Orwell e, ao seu livro 1984 “But if thought corrupts language, language can also corrupt thought.”

    Chegados ao ponto em que concordamos que, cada vez, se ensina e se exige menos, também podemos concordar que se gastaria o mesmo para ensinar mal ou bem portanto, só resta fazer a pergunta: Quem se aproveita e qual a finalidade de tentar embrutecer o pensamento? Lembro-me, por exemplo, das Nações Unidas “muito preocupadas” e que querem tomar conta dos programas educativos a nível Global mas, também me lembro de quem doou o terreno para a construção do 1º edifício da Sede das Nações Unidas em Nova Iorque que, “por acaso”, faz parte do mesmo grupo que controla o dinheiro dos países endividados.
    Parece que existem milhentos problemas mas, quando começamos a “desenrolar a meada”, acabam todos na mesma origem. Coincidência? Tomara que fosse.

  6. É assim que se vai matando a língua. Com a era informática o massacre agudizou-se. Não só pelos anglicismos inevitáveis mas pela confusão em distinguir o virtual do real. Tira-me do sério quando o computador e os colegas me pedem para “visualizar” o que aparece na pantalha. Que raio, nunca precisei de computadores para visualizar o que quer que fosse pois imaginação não me falta, mas sei muito bem ver o que me põem diante dos olhos. No computador vejo o que lá aparece, na minha cabeça, com a capacidade imaginativa, visualizo, até de olhos fechados, o parvalhão que entendeu substituir o ver por visualizar. E já não vou falar de “contratualizar”, outra inexistência, porque parto para a violência.
    É uma gabela gentiaga que nunca saboreou o bordado de um Aquilino ou de um Camilo. À falta de riqueza de vocabulário, afofam-se e alçam o bestunto só porque “contratualizam” o alquilé das bestas. E assim, com a altivez e a ignorância ajoujadas, vão lendo os “aitâmes” do contracto. Pelo amor da santa! Quando é que vão perceber que item é latim e não inglês, essa língua de bárbaros? Insulta-se Séneca e Virgílio para fazer cócegas a Shakespeare.
    Um dia destes, se me aparece uma seresma ou um taranta, a pedir-me que visualize um raio que os parta ou a inglesar o latim, mando-lhe com os guantes aos gorgomilos. Depois não digam que fui eu quem começou a zanguizarra!

  7. FJV queixa-se agora de uma língua que ajudou a abandalhar tendo sido dos primeiros utilizadores do AO dado:

    1. A sua parcialidade e simpatia com o Brasil;

    2. A sábia oportunidade de vender mais livros nos trópicos. Como se vê, foi à pazada que os Brasileiros passaram a comprar livros editados cá na terra.

    Creio que o n°2 até terá precedido o n°1.

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