Reflexão do dia


Pedro Correia,

«Não será possível manter os padrões actuais de liberdade, tolerância e pluralismo numa sociedade sacudida por matanças regulares de cidadãos. Um dia, esse será o problema que a maior parte dos cidadãos quererá ver tratado, e não a arqueologia da guerra do Iraque ou os confortos devidos aos imigrantes. Um dia, o público ocidental esperará que a polícia tudo faça, incluindo o que agora é inaceitável, para limitar os riscos, de modo que nunca mais se saiba que um terrorista era, afinal, conhecido das autoridades, que nada fizeram ou puderam fazer.»

Rui Ramos, no Observador

0 comentários em “Reflexão do dia”

  1. “«Não será possível manter os padrões actuais de liberdade, tolerância e pluralismo numa sociedade sacudida por matanças regulares de cidadãos.”
    Esta declaração aplica-se a outras sociedades, pelo menos no que respeita às “matanças regulares de cidadãos”.
    Porquê proclamá-la apenas quando ela nos bate à porta?
    Será que somos os únicos que não merecemos o que nos está a acontecer?!
    João de Brito

  2. “Um dia, esse será o problema que a maior parte dos cidadãos quererá ver tratado, e não a arqueologia da guerra do Iraque ou os confortos devidos aos imigrantes.”
    .
    um dia…já devia ter sido ontem…mas andamos a brincar
    às perseguições à cristandade russos só porque os judeus-mecca tem uma visão diferente para o mediterrâneo…

  3. “Um dia, esse será o problema que a maior parte dos cidadãos quererá ver tratado, e não a arqueologia da guerra do Iraque…”.

    Impressiona a arrogância de declarações como esta!
    Nem passa pela cabeça de quem as produz que as vítimas da guerra do Iraque possam ter uma memória mais resiliente!
    Pelos vistos, isso não interessa!
    Será assim que acabaremos com esta barbárie?!
    João de Brito

    1. Acho que tem toda a razão. Não temos nada que exportar civilização. Que se matem entre eles.Mas de facto temos de esquecer os nossos padrões para erradicar isto da europa,de outro modelo não será possível.

  4. É natural que Rui Ramos não esteja interessado na “arqueologia da guerra no Iraque”, porque ele seria um dos objetos interessantes a ser encontrado e dissecado pelos arqueólogos.

  5. Boa escolha, Pedro. O artigo do Rui Ramos é excelente. Como cada cabeça sua sentença, se fosse eu a escolher, citaria também a seguinte passagem:

    “Um dia, quem sabe, veremos os cidadãos europeus, indiferentes ao sofrimento dos outros, exigir retaliações nas terras de origem dos terroristas.
    É isso que os jihadistas querem? É de facto isso que os jihadistas querem, quando abusam do Islão e recorrem ao terrorismo para separar as comunidades islâmicas e as sociedades ocidentais. Não devemos aceitar essa segregação.”

    1. Ainda ontem à noite, acompanhando o morticínio em Nice – que provocou já 84 mortos, incluindo dez crianças, e 202 feridos, 52 dos quais em estado crítico – me interrogava sobre até quando iremos assistir impávidos a estes contínuos actos de terror. E lembrava as palavras sofridas do Albert Camus reagindo em 1957 ao terrorismo “nacionalista” na Argélia, que matava inocentes em nome da justiça anticolonial. Questionava-se ele: “Neste momento, em Argel, explode um autocarro. A minha mãe podia ir nesse autocarro. Se isto é justiça, ponho a minha mãe à frente da justiça.”
      Milhares de vozes, por essa Europa fora, repetirão o mesmo nas semanas mais próximas, nos meses mais próximos, nos anos mais próximos. Em crescendo, sempre em crescendo. Escrevo estas linhas enquanto se anuncia um golpe de Estado na Turquia – algo inimaginável às portas da Europa ainda bem há pouco tempo. Tanto quanto me recordo, o anterior golpe militar em Ancara ocorrera em 1980.
      Todos aqueles que optimistas históricos que concebiam a cronologia histórica como uma sucessão de avanços sem remissão sofrem de cegueira acentuada. Se algo a História nos ensina é isto: nunca há conquistas inteiramente adquiridas. Nem precisamos de recuar mais longe do que o século XX para aprendermos isto.

      (olha, dialogando contigo acabei por escrever mais um ‘post’: começa a tornar-se um hábito)

  6. “[…] um terrorista era, afinal, conhecido das autoridades, que nada fizeram ou puderam fazer”

    Que interesses mais importantes do que a garantia de vida, da vida que colocamos nas mão daqueles que elegemos para nos governar, se esconderão por detrás desta política de cegos e surdos ? Eles sabem quem “os outros” são. Eles sabem onde “os outros” estão… e as pessoas vão caindo como tordos e o medo vai pintando de negro o pensamento mais feliz.
    Isto não é coisa que se resolva no papel ou com meia dúzia de palavras.

    Quem se senta às mesas de negociações, acena negativamente a cabeça perante imagens de atrocidades e envia condolências ocas, sabendo no seu íntimo que algo poderia ter sido feito para preveni-las, deveria fechar os olhos, respirar fundo e pensar : ” E se fossem os meus filhos”?

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