Guerra contra o terrorismo


Diogo Novo,

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O terrorismo é, por definição, uma táctica. No entanto, quando aplicado de forma exclusiva e reiterada, como sucede no caso do jihadismo, a literatura especializada é consensual na validação da natureza estratégica do terror. Seja táctica ou estratégia, a verdade é que o terrorismo não tem ideias próprias, isto é, serve diferentes agendas e propósitos que apenas dependem de quem a ele recorre. Da construção de sociedades marxistas, passando pela independência de Estados, até a criação de um califado global, o terrorismo serviu várias causas, todas elas políticas. Assim sendo, e sem sair da esfera conceptual, a declaração de guerra ao terrorismo é um empreendimento oco. Por um lado, as tácticas e as estratégias têm uma longevidade centenária, sobrevivendo sempre a quem as usa, e o terrorismo é disso um exemplo. Por outro lado, mais do que combater o terrorismo, o que se pretende é o combate às ideias e aos objectivos daqueles que recorrem ao terror. Abreviando, da mesma forma que é absurdo declarar guerra à guerrilha ou aos assassinatos selectivos, não faz sentido declarar guerra ao terrorismo.

 

Porém, a segurança de pessoas e bens requer pragmatismo e respostas firmes. Face à ameaça comummente designada como jihadismo, algo tem que ser feito. A barbárie inenarrável provocada pelo terror exige contundência. Em grande medida, é este o argumento do nosso Luís Menezes Leitão e de tantos outros que, de forma justa e compreensível, exigem o fim da ameaça. É compreensível, mas está por demonstrar que seja eficaz.

 

Se seleccionarmos uma amostra cronológica ampla, que vá por exemplo do Irgun (1931-1948, considerada a primeira organização terrorista moderna) até aos dias de hoje, veremos que são raríssimos os grupos terroristas que se identificam como tal. Na sua maioria, apresentam-se como soldados/guerrilheiros ao serviço de uma causa e de um povo. Quando um Estado declara guerra a uma organização terrorista está implicitamente (e admito que inadvertidamente) a outorgar-lhe o estatuto de inimigo legítimo. Por outras palavras, o Estado concede à organização terrorista aquilo que ela mais procura: legitimação por parte do Estado/s visado/s. O combate a organizações terroristas é – ou dever ser – sobretudo político. É perfeitamente possível empregar Forças Armadas e meios militares no combate à ameaça, sem com isso oferecer reconhecimento político ao inimigo.  

 

No momento actual, e tendo o autoproclamado Estado Islâmico (EI) como objecto de análise, a dimensão política reveste-se de uma importância capital. Ao longo dos últimos meses, o EI tem perdido o controlo de parcelas de território muito significativas e os problemas financeiros da organização são cada vez mais notórios. Como sempre ocorreu com todas as organizações terroristas modernas, é nos momentos de maior fragilidade que as campanhas de terror são intensificadas. As vagas de atentados e a acumulação de cadáveres na rua são um instrumento poderoso para contrariar a imagem pública de declínio.  Não se trata de uma estratégia nova. A título de exemplo, já em 1998 um dos mais conceituados analistas do fenómeno terrorista assinalava esta tendência. Hoje, os atentados aos quais infelizmente assistimos resumem-se a isto. Aliás, a Europol, nos relatórios TE-SAT, justifica a elevada probabilidade de atentados terroristas na Europa precisamente com a fragilidade territorial e financeira do EI.

 

Ainda que possamos deitar mão aos mais temíveis e poderosos instrumentos de guerra para combater a ameaça terrorista, convém que no plano político este esforço continue a ser enquadrado como um combate a uma forma de criminalidade. Uma forma nefasta e especialmente gravosa, mas ainda assim criminalidade.

0 comentários em “Guerra contra o terrorismo”

  1. Não sendo especial admirador dos israelitas, um princípio poderia ser de expulsar toda a família e ligações de amizade de cada um destes tipos.
    Se ninguém is quiser,o mediterrâneo é fundo….

    1. Esquecendo a moralidade e a ética e olhando apenas para a dimensão operacional, combater terrorismo com terrorismo não é grande ideia. Em tempos, o Estado espanhol tentou fazê-lo através do GAL e o resultado foi miserável.

      1. Concordo que eticamente é difícil de aceitar.
        Não creio que haja outra solução no entanto.
        O GAL foi um mau investimento do estado espanhol, que de resto soube bem aplicar uma alargada panóplia de meios menos falados no combate ao terrorismo.

  2. Muitas vezes a resposta militar é a única possível. Tratar o caso como mera criminalidade — que não deixa de o ser — implica manter o assunto na esfera policial. Já se viu que isso é insuficiente. É perfeitamente ridículo a Europa não se defender de um exército inimigo, a pretexto de que isso o legitima como inimigo… Há alguma dúvida de que o seja?

    Recordo-me da vaga de atentados terroristas contra cidadãos americanos nos anos 80. Terminaram quando Reagan bombardeou a Líbia, avisando que não haveria nenhum lugar da terra onde os terroristas se pudessem esconder e preparar outros ataques.

    Se o Estado Islâmico está a recuar, é porque está a ser combatido. Só que quem tira as castanhas do lume são os russos. A Europa não está a dar a resposta militar adequada. E com isso fica vulnerável. Infelizmente estamos a repetir a história de discutir o sexo dos anjos enquanto os turcos cercam Constantinopla.

    1. Meu Caro Luís,

      Algum dia haveríamos de discordar – embora me pareça que não exista aqui um desacordo profundo.

      A resposta militar é imprescindível, mas duvido que seja a única opção, especialmente no caso em apreço. Numa parte importante dos casos de terrorismo ocorridos no continente europeu nos últimos anos, os terroristas não têm qualquer ligação à estrutura do EI no Iraque e na Síria. E quando existe essa ligação, ela tende a ser episódica e pouco relevante do ponto de vista operacional. Assim sendo, o combate ao terrorismo jihadista tem que dar-se forçosamente em território europeu.

      Claro que isto não invalida que se vise directamente o EI no seu campo. Estamos obviamente de acordo, Luís, que se o EI está a recuar é porque está a ser combatido. Mas a acção militar no Médio Oriente é curta, dada a forma assumida pela ameaça. E é possível usar Forças Armadas e meios militares num contexto de combate à criminalidade (ver, por exemplo, o plano Vigipirate – na minha opinião está longe de ser perfeito, mas é um exemplo de utilização de FA num contexto de não-guerra).

      Quanto a reconhecer ou não o inimigo, creio ser mais eficaz não fazê-lo. Aqui como em qualquer conflito, quando mais debilitado estiver o inimigo, melhor. Se o combate é essencialmente político, destituir quem nos ataca de legitimidade não é irrelevante.

      1. Alguns “terroristas não têm qualquer ligação à estrutura do EI no Iraque e na Síria”, mas foi de lá que veio a inspiração para este terrorista de Nice, pode crer, parecendo-me, por isso, que o combate ao terrorismo tem que ser feito lá e cá e em todos os lados. Sem desfalecimentos.

      2. O combate não é essencialmente político. Precisamente porque os ataques não são políticos. São claros actos de guerra levados a cabo em território europeu. E à guerra responde-se com a guerra. Os americanos têm percebido isso muito bem.

        1. Aqui sim estamos em profundo desacordo, caro Luís. Hoje, como no passado, o terrorismo mais não é do que a utilização da violência enquanto instrumento de acção política.

          1. O problema é de percepção e de coragem/legitimidade.
            As tácticas antigas hoje com enquadramentos modernos são altamente eficazes. Isto é, actualmente a ameaça assimétrica é tratada tanto com a assimetria devida, sem nunca descurar a devida resposta política e socialmente correcta, numa vertente claramente pós ONU. Hoje seria claramente impensável varrer Raqqa. Alias qualquer historiador militar saber que se varrêssemos Raqqa a probabilidade dos “bebés europeus” e afins que foram para a jihad pela glória mas com net em casa rapidamente perdiam o norte logo que vissem que não compensava mais lutar, nem como lone wolf.

            Logicamente os Estados democráticos pelas vicissitudes modernas, do que já referi e por aquilo que as suas sociedades esperam deles, não podem (ou não devem) entrar pela via mais agressiva e eficaz, mesmo que invoquem a autodefesa.

            Se tivéssemos usado os paninhos quentes que hoje usamos para proteger as opiniões publicas (que pelos vistos preferem ser alfinetadas no seu conforto e bem estar do que mandar as forças armadas fazer o seu trabalho) hoje a Alemanha nazi dominava a Europa. Porém, não existindo ONU, o jus bellum e a arma convencional ditava que se bombardeasse o inimigo até à sua rendição. Foram só preciso 5 anos anos para derrotar um exercito altamente poderoso. Não me digam que os tipos de chinelos precisam de mais?

          2. Ao constituírem uma ameaça assimétrica, como aliás bem refere, talvez 5 anos não cheguem para derrotar os “tipos de chinelos”. De qualquer forma, mais importante do que obter a vitória militar é obter a vitória política.

          3. É assimétrica porque deixamos que ela chegue até nós nos seus termos e não levamos a resolução devida à sua base. Tal e qual como aconteceu com a pirataria, esta prosperou no estreito de Ormuz até se usarem meios de dissuasão decentes, prevenção, boas práticas, comunicações, etc. Mas este até é um caso bastante soft, já no caso DAESH ninguém tem a coragem política e militar para resolver como muitos dos conflitos perigosos se resolviam há umas décadas atrás. As opiniões públicas (se é que elas existem) e os regimes democráticos não sobrevivem ao pragmatismo de algumas medidas, portanto tem de ser com os paninhos quentes e com as armas à distância, para não ferir susceptibilidades – e mesmo assim os cidadãos queixam-se dos drones, fará.

          4. “mais importante do que obter a vitória militar é obter a vitória política.”

            Ser narcisista ainda?

            Não há vitória política sem a destruição total do inimigo. Como se fez ao Nazismo. E isso implicará matar muita gente inocente. Pois a guerra é punição colectiva.

            Só quando colocarmos em causa a existência do Islão se poderá travar o que vem aí.

  3. A ameaça Islamica é militar!!! A Arabia Saudita e o Qatar a financiarem os grupos terroristas no Iraque e na Síria na Europa financiam mesquitas que fomentam a radicalização…Sanções contra a Arabia Saudita e Qatar onde andam!!!??? não andam, eles já controlam o centro financeiro de Londres, Paris, Berlim…maiores compradores de armas aos Europeus…maiores financiadores do terrorismo…e toda a gente sabe disso, mas querem tratar o assunto como uma questão de criminalidade…

  4. Temos que dar um passo a trás para dar dois á frente.
    Conhecendo a mensagem islamista é fácil perceber, que objectivo é sempre o mesmo, submissão, conquista, humilhação… de qq forma existente. Apoiam-se no exemplo do suposto profeta. Lembrem-se que praticou todos os crimes, pecados humanamente possíveis, desde violação, pedofilia, assassinatos, roubo, traição até necrofilia praticou.

    Teem um manual de atuação bem identificado. Quando em minoria, submeter-se á maioria com a maior hipocrisia e cinismo possível, aceitando amizade e regras do infiel, mas nunca no coração. Quando em numero já razoável fazer reivindicações, tal como a aplicação da Sharia (quer dizer lei em árabe, se preferirem Sharia Law), causar transtorno social, seja através de políticas, seja através de crime organizado. Tudo no sentido de fazer crescer em numero os aderentes e muçulmanos envolvidos, assim como aumentar a população muçulmana no pais em questão. Quando por ultimo estão em maioria, terminam com toda e qq lei que permita desenvolver uma sociedade livre política e espiritualmente, recorrendo á repressão, violência, extermínio de qualquer mentalidade, pessoas, organizações não islamistas.

    Religião totalmente intolerante, como tal, a una resposta possível, será a intolerância ao Islamismo. Total proibição de pratica do islamismo, erradicação de mesquitas, criminalizar a pratica de tal religião.

    Saudações

    1. Retribuindo as saudações, temo não estar de acordo consigo. Veja, por exemplo, a governação do partido tunisino Ennahda para perceber que o que escreve não é verdade.

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