«As crianças hoje não têm um momento de pausa nem de silêncio à sua volta. A televisão está sempre ligada e do que precisavam era de calma e de pessoas junto delas. O que mais me aflige é as crianças só terem à sua volta máquinas, ecrãs, computadores, telemóveis, em vez de pessoas. Falta-lhes o contacto humano, o que é muito mau.»
Alice Vieira, no Diário de Notícias

É isto, Pedro; a geração de noventa/do milénio é a geração do desassossego. Daí que se tope à légua aquela forma particular de calma que os miúdos e miúdas que têm ‘tempo de antena’ dos adultos de quem gostam costumam deixar transparecer.
Há uma reflexão complementar a esta, também na imprensa de hoje, que me apetece trazer também aqui. Do presidente do ISEG, João Duque, em entrevista ao i. Diz ele: “Veja como [os jovens] estudam hoje: um lap-top à frente, com três ou quatro janelas do Facebook abertas, ao lado, o telemóvel, a televisão acesa e ainda o som do MP3 ou da aparelhagem. E isto tudo a fazer trabalhos de casa, estou mesmo a ver, a perguntar quais são as propriedades distributivas da multiplicação face à adição…”
Tenho lido alguma coisa sobre isto no último ano, curiosamente, e pelo que pude perceber, Pedro, se a questão da diminuição temporal da capacidade de concentração dos alunos permanece polémica (os primeiros estudos sobre o impacto da exposição de universitários britânicos, canadianos e norte-americanos aos novos media/social media a que acedi apontavam para um decréscimo dessa capacidade), parece haver algum entendimento académico quanto à ilusão cognitiva de proficiência em que vivem os chamados heavy multitaskers: segundo tem sido apurado e testado, quem se habitua a fazer muita coisa ao mesmo tempo adquire uma confiança infundada no seu estado de alerta e de memória a curto prazo, e está muito mais exposto a erros, acidentes e – por mais paradoxal que isto soe – ao evitamento de informação relevante.
e falta tambem o esforço, dedicação e o levarem umas palmadas de vez em quando.
mas sim, ás crianças portuguesas falta brincar no recreio com as emoções á mistura
Máquinas em excesso, factor humano em défice.
espero que um dia , um filho não queira uma playstation ou um pc….mas antes uma bola…
Qualquer dia, bolas só… virtuais.
Na feira do Livro de Lisboa assisti a uma cena engraçada:
Um senhor de uma certa idade apareceu com um saco de plástico na mão dizendo a um miúdo dos seus 5 anos que tinha ali um presente barato, não de graça mas barato. Tirou umas folhas de papel colorido do saco, escolheu uma e começou a fazer um avião de papel, sob o olhar entre o desconfiado e o blasé do miúdo. Quando ele atirou o avião, vocês haviam de ver o ar incrédulo e absolutamente maravilhado do miúdo a seguir o avião pelo ar fora aos loops. A desgraçada da criança via obviamente pela primeira vez voar um avião de papel feito à maneira.
Depois apareceram mais duas miúdas da mesma idade, a quem o senhor deu a escolher as cores (olha ali um cor de rosa, dizia o miúdo) e que começaram também entusiasticamente a aprender a lançar aviões de papel.
Abençoados.
Sempre que tenho a sorte de assistir a um momento desses, Isabel, sinto isso mesmo, essa alegria em segunda instância.