«Só acho possível aguentar a ideia da morte com a ideia de que outros vão viver. A vida vai continuar e o que tu fizeste nesta terra tem uma consequência. No cristianismo dá-se um nome religioso – a ressurreição – a uma coisa que é verdadde, quer se queira quer não. Uma pessoa, mesmo que viva num ambiente reduzido, exerceu influência sobre as outras que cá ficam. No caso das mulheres, deram à luz, a vida ressurgiu. Como tudo renasce na natureza.»
Luís Miguel Cintra, em entrevista ao Diário de Notícias

Essa reflexão do Luís Miguel Cintra é tão importante como verdadeira. Numa época que vive cada vez mais do e para o imediatismo, a capacidade de reflectir sobre a eternidade, sobre o que há para além de nós – no aspecto mais básico e animal, a nossa continuidade genética – é essencial.
Quando olhamos para o passado não tão recente e nos apercebemos que as obras era não feitas para o já, mas para o sempre (comparemos, a título de exercício, o tempo que demorou a construir qualquer um dos nossos monumentos e o tempo que demora qualquer edificação a esse título nos tempos actuais), fica a dúvida do porquê do esforço de quem construía sabendo que não veria o final da obra. Gostando ou não, olhamos para a Sagrada Família de Gaudi, começada em 1882 e por terminar (diz-me o Wikipedia que se “espera” em 2026, no centenário da morte do arquitecto, como se impor um prazo em algo transcendente não diminuísse o seu valor – tempos modernos), julgamos um projecto de louco. Não, não era de louco. Era de alguém que percebeu (com ou sem a sua fé) que nos mantemos no mundo para além da nossa mera biologia. A alma, mesmo para quem não crê, é isso mesmo: o legado que deixamos e perdura nos outros.
A única certeza que temos todos é que um dia morreremos. Não há excepções de raças cores, credos ou idades. É na impressão digital que deixámos pelo nosso toque, que o futuro falará de nós. Num livro, numa flor, numa palavra, numa criança numa canção, tocámos todos algo ou alguém de modo que a memória de nós perdurará enquanto reminiscência pudermos ser. Gostava que me lembrassem como uma boa recordação. As boas recordações nunca morrem e ressurgem sempre com um sorriso.