Jacques Tati encheu muitos dias de um período especial da minha vida, os trinta anos, quando, finalmente liberta de uma série de modelos, me encontrei a mim própria, como pessoa nada modelar, mas muito mais autêntica.
Ir ver o filme Play Time – entre nós Vida Moderna – o único que, penso, nunca terei visto antes, foi uma experiência curiosa.
O Nimas é apertado, com cadeiras incómodas e não usa ar condicionado, circunstância que num país pobre já se vai tornando habitual, embora o preço dos bilhetes, 6 euros, esteja acima do que os baixos salários podem comportar.
Assim, de leque em riste e pernas quase em asana, dispus-me a um retorno aos tempos em que começara a ser feliz. Ao fim do primeiro quarto de hora, não se ouviu um riso na sala e eu temi que a coisa se prolongasse. Felizmente não. O aparecimento de Hulot, essa personagem mítica, alterou tudo e, pelo menos eu, ri com gosto, nalgumas circunstâncias.
Mas o filme vale por muito mais. Vale por um retrato de futuro, por uma crítica à vida robotizada e aos estereotipos sociais que haviam de marcar os anos que se seguiram. E vale pelo decor de interiores que qualquer arquiteto não enjeitaria.
É, sem dúvida, uma película datada. Mas, para quem conheceu aquele play time, é impressionante ver o que a vida mudou em apenas três décadas. É também por isso que vale a pena o sacrifício corporal a que somos submetidos. Que, aliás, se atenuaria se retirassem meia dúzia de filas de cadeiras e distribuissem melhor as restantes.


Este é um excelente filme, Helena. Uma das três obras-primas de Tati, juntamente com ‘As Férias do Sr. Hulot’ e ‘O Meu Tio’. Ainda bem que estão a ser repostas no circuito comercial de Lisboa, Helena. Até porque a Cinemateca nem sempre cumpre esta função (e muito menos em Agosto, quando encerra ao público, com a cidade cheia de turistas, o que para mim é inexplicável).
Pedro
Ontem à saída do Nimas disse exactamente o que tu acabas de escrever.
Eu não apreciava o João Benard, como pessoa. Pertenceu aos católicos progressistas, gente onde gravitei e conheci demasiado bem. Mas que a Cinemateca do tempo dele prestava serviço público, isso é um facto. Homenagem lhe presto!
Para mim, o melhor de todos. E lembro-me de que só comecei a rir a meio e depois nunca mais consegui parar. Há um tipo de humor tão avassalador que nem dá para rir, pelo menos enquanto não nos habituamos. Como os olhos ao escuro.
É exactamente isso, Isabel!