«Há dias li que o Acordo Ortográfico tinha passado a ser obrigatório. Assim, de um momento para o outro, passados anos de resistência de tantas pessoas na sociedade portuguesa. Escrevi bastante sobre este tema e a partir de uma certa altura deixei de escrever, não por ter mudado de ideias, mas porque passei a fazer exactamente aquilo que queria, indiferente aos acontecimentos. Em Portugal pratica-se pouco a desobediência silenciosa e há uma tendência para preferir a queixa activa e permanente, que dá muito mais trabalho. A partir de certa altura, como é aliás tão feminino, desliguei. Para mim, o Acordo Ortográfico não existe. Não o quero, não o compreendo e não o sigo. É uma teimosia imposta por quem quer impor à força regras de escrita inúteis, que ainda por cima só trazem confusão e mais erros de português. O que me acontece se continuar a escrever Setembro com maiúscula? Serei multada? Enviem a multa para casa com a referência Multibanco.»
Carla Hilário Quevedo, na revista Tabu (do semanário Sol)

Ah, melher! Assim mesmo é que é! Deixe que os imbecis escrevam “Ninguém para o Benfica/Sporting/Porto” (por mim, pode ser qualquer um deles).
No que concerne o AO, sou prevaricadora por opção , homicida por negligência , porque é um absurdo tão morto à partida como à chegada.
Como já referi e repetirei tantas vezes quantas as necessárias, não o aceito, porque não o entendo como Um bem , ou até mesmo um mal necessário, apenas uma aberração, uma contrapartida igual a tantas outras, uma venda de garagem de identidades usadas ao desbarato.
Pobres dos que nunca aprenderão português para facilitar o mercantilismo da escrita e deixar passar a quantidade em desfavor da qualidade.
Não cumprirei nem aceitarei este auto de fé que queima letras e desfigura palavras , esta caricatura triste do verbo que em tempos ensinou mundos ao mundo.
Pode estar descansada que não prevarica: o acordo nem sequer foi ratificado, quanto mais em vigor!
E se um dia vier a ser ratificado, será inconstitucional e ilegítimo.
Por agora – e como é hábito – quem prevarica é o estado português.
As coisas, é de antever, seguirão esse caminho. Uns, cada vez menos pelo mero decurso do tempo, recusarão a barbárie e paulatinamente desobedecerão. Mas deixarão de escrever, de intervir como e onde for, em demonstração da iniquidade do AO90 . E, com os anos, gradual e naturalmente desaparecerão.
Do lado do povo a ignorância, a indiferença, o desprezo pela história, o nojo arrogante pela cultura, a adoração boçal do “moderno”, o medo, a obediência definirão o caminho. Do lado do poder o serviço de interesses obscenos, o nepotismo e a venalidade farão o mesmo e de forma coincidente. Se alguma vez – remota hipótese – uma voz oficial se fizer ouvir, de forma oficial e clara, contra o AO90 e publicamente admitir o desastre que representa, será apenas para logo depois vir dizer que perante tudo o que já foi feito – perante desde logo a geração de criancinhas entretanto assim embrutecidas – os custos da reversão do processo seriam – fatal conclusão, em casos que tais e sempre fatalmente legitimada pela evidência dos números e escassez de recursos – incomportavelmente elevados. Será então “uma pena”, se se chegar a tal admissão, claro, mas uma pena rápida e convenientemente esquecida.
Tudo está disposto para este vir a ser um clássico caso de derrota (ou vitória) pelo cansaço e sem outra acção requerida além do mero passar do tempo.
A estupidez, ou coisa bem pior, criminosa e impune, ganha. Entre nós, nada de novo.
Eu desobedecerei. Até ao fim.
Costa
Dizer que o acordo ortográfico entrou em vigor tem tanta validade, do pior de vista jurídico, como dizer que entrou em vigor a 13 de Maio, o Tratado de Fontainbleau e que Évora é agora a capital do Principado dos Algarves.
Toda a razão: claro que não vigora. Mais não seja porque uma resolução se não sobrepõe a um decreto-lei, coisa que qualquer aluno de primeiro ano de um curso de Direito saberá (isto para nem abordar a questão de direito internacional), mas os nossos governantes e seus assessores – dotados de curiosíssima preparação académica, há que convir – conveniente e paulatinamente ignoram. Agem como o pretor da Roma antiga.
O problema é que, com eles, uma larga, larga, fatia do povo tem também perante essas questões uma total e triunfante ignorância. Pior: desprezo. Este “acordo” é, aliás, se alguma coisa, um verdadeiro triunfo da mais arrogante estupidez.
E como se pode ler uma e outra vez – e por boas razões – num outro blogue (e perdoará o uso da língua inglesa, por fidelidade de citação): never underestimate the power of stupid people in large groups .
Isto escrito, quem me dera estar absolutamente errado quanto ao futuro deste assunto.
Costa
Certinho, mas eu queixo-me activamente porque pretendo insultar os seus defensores.
Não se acanhe. Por mim, aplaudo.