
O nosso Presidente está em Moçambique. Desde o primeiro dia, via Whatsapp, troco fotografias das suas andanças entre um largo núcleo de amigos, portugueses que lá viveram durante as últimas décadas. Conhecemos o país, os sítios visitados, interpretamos melhor as interpretações locais. O nosso desconforto é generalizado, alguns mesmo seguindo irritados. O resmungo com o populismo é até explícito. Uma querida, e tão clarividente, amiga, minha vera mana, resumiu tudo, num desalentado e nada leninista “que fazer?”. De facto, nada podemos fazer diante desta pantomina que o nosso povo elege e adora.
Entretanto, no seu mural de Facebook o ex-bloguista João Gonçalves – o qual, que eu saiba, nem sequer conhece aquele país – explicita tudo, explicando o nosso desconforto: “E em Moçambique, o chefe do Estado a que deixou tudo chegar engraxa sapatos, corta cabelo e comporta-se como o filho caprichoso do antigo governador geral da Colónia que ele nunca deixou de ser.”
As pessoas aqui, na sua maioria, não compreendem. Mas é isso mesmo. O festivaleiro desta visita. E, muito mais importante, o vácuo desta presidência.
Adenda: logo me dizem que MRS é folclórico. Mas não é apenas, ainda que o seja, “folclórico”. Disse o célebre filósofo que a história se repete, primeiro como tragédia e depois como farsa. Para quem conheça a história tardo-colonial em Moçambique são notórias as semelhanças entre a postura do antigo governador-geral – que era um Senhor, note-se, e de verdadeira grandeza humana – durante a “primavera marcelista”, intentando mostrar um “colonialismo de rosto humano” (passe a expressão, que é glosa), um poder entendido como “relações públicas” assente na linguagem dos “afectos”, mas que terminou como terminou (tinha historicamente de terminar, anacrónica injustiça que era) e a postura do seu filho, actual PR.
MRS tem assim, desde o início, o projecto mais reaccionário – na velha expressão – da história da democracia portuguesa, o da “apolitização” da sociedade através desta pantomina “afectuosa” [já ninguém fala de “coabitação”, de “consenso”, de “estabilidade”, de “bipolarização”, todo esse jargão político presente nas presidências anteriores, que servia para tentar consensualizar o país. Agora já nem há essa abordagem, resta apenas a “selfiezação”, “o abracismo”, o marketing da a-conflitualidade]. É isto uma farsa, uma triste – e sem a grandeza, a densidade católica, do protagonista anterior – derrapagem. Antes tudo decorreu durante a “tragédia” de um final de regime. Agora não sei que corolário será o desta farsa. Que nada tem de projecto a não ser este folclorismo.

MRS tem […] o projecto mais reaccionário – na velha expressão – da história da democracia portuguesa, o da “apolitização” da sociedade […] para tentar consensualizar o país.
Mas não é essa, ao fim e ao cabo, a essência do projeto político do PSD?
O PSD é o continuador da antiga União Nacional por outros meios. O seu projeto político aglutina diversas tendências (social-democrata, liberal, conservadora, católica, nacionalista) numa só e grandiosa União Nacional. Ao aglutinar, o PSD apolitiza a sociedade e consensualiza o país.
Marcelo é um digno representante do partido de que faz parte.
Ninguém que seja desse partido tem nada que se queixar…
“Ninguém que seja desse partido tem nada que se queixar…”, é possível, Lavoura. Mas isso é lá com eles.
Eu votei em Henrique Neto. E se a Cristina se candidatar voto nela, é muito mais profissional no que diz respeito a folclore, e já que é para ser folclore, que seja feito por quem sabe.
Confesso o meu apreço por Cristina Ferreira (julgo ser dela que fala). O qual não chega para lhe ver os programas, ler as revistas. E muito menos para a desejar (ou votar) nas eleições presidencias, a tal conversa absurda da semana passada, para animar audiências. Ainda assim, reitero que volta e meia lhe atribuo um soslaio. Nada desagradado.
Por vezes, caro jpt, o absurdo é pedagógico. Marcelo Rebelo de Sousa deu-se ao luxo de nem fazer campanha. Para quê? Fê-la na TV, e foi essa persona televisiva que ganhou. Acredita que, sem o programa, sem campanha, tivesse o resultado que teve?
A Cristina Ferreira é muito popular – e note quem precisa de quem, foram os políticos quem se deslocou até ela. Não todos, claro, mas o PR também não deixou passar a onda.
É popular e aparentemente sabe cuidar muito bem da vida honestamente, facto em que bate quase qualquer político.
Num mundo onde palhaços e comediantes são eleitos para altos cargos, porque razão a terceira idade – que no fundo é quem vota – não votaria nela? É nova, é despachada, e no fundo fica bem melhor a trocar de fato de banho do que a triste figura do PR. Quanto a afectos, aqueles abraços encostados ao externo de Marcelo, bem, ficariam mais afectuosos, não acha?
Não o desdigo. Apenas refiro que o meu ocasional soslaio, ainda que nada desagradado (repito-o), não me convocará o voto.
Um contrito ex-colonialista faria melhor a cena progressista da responsabilidade histórica.
Entre o comentador criativo que foi e o presidente de escassos poderes que é pouco lhe resta senão divertir-se.
E no seu género é um verdadeiro artista!
Se irritar os sobas locais já será de alguma utilidade.
Irritar os políticos locais? 1) É função do PR andar a irritar políticos de países aliados quando se desloca em visita oficial, por convite alheio? 2) [e muito mais importante] acredita mesmo que irrita alguém?
É só inveja!
Não. Cortei o cabelo uma vez naquela barbearia e não apreciei o ambiente.
“…e sem a grandeza, a densidade católica do protagonista anterior”. Não concordo com a opinião defendida por si acerca de Marcelo Rebelo de Sousa. Pertenço a essa maioria popular que, sem selfies nem abraços, aprecia o presidente Marcelo. Mas admito e respeito posições diversas, creio até serem necessárias. Porém, julgar grandeza a postura de Cavaco Silva como presidente, digo-lhe, é forte de mais. Contudo, é a sua opinião. E não será única.
Fiz-me incompreender: o protagonista anterior que referi foi-o no eixo histórico que procurei abordar, isto da presidência de MRS ser uma sequela intelectual e política da governação de seu pai, aquando foi governador-geral em Moçambique (ou 1968-70 ou 1970-1972, agora não tenho certeza e escrevo sem consultar fontes). E pode crer, e estou certo que o próprio actual PR não o negaria, que Baltazar Rebelo de Sousa, homem do seu tempo e agente político de um regime anacrónico e em vero estertor, tinha uma grandeza que falta ao seu filho. De uma forma simples dir-lhe-ei, (quase) todos acham que Marcelo é um homem “simpático” enquanto figura grada de um regime democrático enquanto de seu pai reinou a ideia de que era um homem “bom”, e enquanto figura grada de um regime ditatorial e colonial. É uma gigantesca diferença. Foi isso que quis dizer.
Devo dizer que fiquei muito mais descansada. Peço desculpa por ter julgado que seria o senhor capaz de proferir a minha suposição (admirei-me, diga-se). Do pai do nosso presidente nada sabia antes do post de hoje. Ainda bem que foi um homem bom, não devia haver assim tantos; ainda não há e arrisco que nunca haverá. Os homens bons não são apêndices de governo, são um bem geral.
Vai desculpar-me, jpt,
mas não entendo porque razão MRS não poderá ser considerado um “homem bom”, mas apenas “um homem simpático”, diferentemente, ao que parece, do que o seu pai foi.
FatimaP, nada tenho de que a desculpar. Direi mesmo que eu é que me devo desculpar por escrever sem me fazer compreender. Eu não disse que haverá alguma razão para que MRS não seja considerado um “homem bom” (no sentido de bondoso, não no histórico sentido jurídico). O que disse, tentando de “uma forma simples” distinguir os dois exercícios de poder, e para tentar especificar o quis dizer sobre a “densidade católica” que atribui ao governador-geral Rebelo de Sousa, é que “(quase) todos acham que Marcelo é um homem “simpático””, que é sua imagem de marca – eu não o considero isso, acho-o um melífluo cidadão e um político populista e trave-mestra de um regime apodrecido, o que me é verdadeiramente antipático, mas isso é a minha opinião. Do que falo é de uma imagem pública, de uma vox populi. De cuja existência não me parece haver dúvidas
Obrigada pelo esclarecimento.
Obviamente que considero legítimas, todas as apreciações e opiniões sobre o estilo e performance de MRS, enquanto Presidente da República.
Entendo muito bem a sua, embora a não partilhe, sobretudo não no grau de rejeição com que ela é exposta. Porém, sou sensível aos argumentos por si apresentados.
Isso não está em causa. O que me surpreendeu, foi exactamente a existência dessa tal vox populi, que o jtp diz existir, a qual não reconhecerá MRS como um “homem bom” … pensaria eu que essa qualidade seria mesmo aquela que a vox populi lhe não regatearia. Juntamente com “simpático”, claro.
Foi apenas surpresa da minha parte.
FatimaP, será uma minudência mas insisto em esclarecer melhor o texto pois parece-me que não é explícito: repito, não nego que o povo considere MRS um “bom homem”. Mas julgo ser pacífico, e não uma manipulação, que a primeira coisa que ocorrerá (numa sondagem, por exemplo) é que ele é “simpático” – e toda a corrida aos banhos de multidão em que transformou a presidência catapulta esse sentimento. Mas isso é uma coisa, outra é o que eu refiro no texto, minha mera opinião: BRS era reconhecido por ser um “homem bom” sendo agente de um regime nada agradável. E em particular foi assim considerado em Moçambique, muito pela contraposição com os governantes anteriores, aos diversos níveis, e em pleno serôdio regime colonial e durante a guerra de independência. E MRS é considerado um “homem simpático” num regime bem mais agradável (pense-se o que se pense sobre o estado do país ele está sob um regime incomparavelmente melhor do que o tardio Estado Novo foi). O que quero dizer é que é muitissimo mais dificil (e apela a uma muito maior densidade) ser visto como “bom” quando se é o poder naquele regime (e naquela colónia) do que “simpático” neste nosso aprazível ainda que titubeante país nos dias de hoje. Essa é a comparação, que remete para as formas de exercício do poder. Ñão estou minimamente a comparar as pessoas em causa (não conheço MRS, conheci apenas brevemente BRS no ocaso da sua vida, um Senhor genuinamente encantador), estou a comparar (a “descomparar”, melhor dizendo) os trajectos políticos.
Obrigada, jtp, finalmente esclarecida, entendi o seu ponto.
Quanto a MRS, deixe-me dizer-lhe que, dando de barato o folclore, as selfies e vários etcs … achei (acho) o nosso PR o homem certo para o momento que o País atravesssava (atravessa) e para a injusta situação de indiferença a que os portugueses mais frágeis e humildes foram sendo sucessivamente votados pelos vários Governantes deste País, sem qualquer pingo de empatia e, atrevo-me a dizer, respeito.
MRS, graças a características pessoais impares, veio dar rosto e visibilidade a muita gente invisível, veio resgatar parte de orgulhos e vidas relegadas a um esquecimento ancestral, através de uma generosa e nunca vista aproximação ao povo. Foi bonito de ver, sobretudo em momentos dramáticos que o País atravessou, quando outros trataram de se salvaguardar, através das rábulas do costume, e ele esteve lá, inteiro.
Pode parecer pouco, eu acho que não é.
Espera-se mais, claro, de um PR. Eu ainda acredito que ele irá fazer parte desse “mais” que muitos desejamos.