Como sabemos, e principalmente até ao século XIII, altura em que a escrita começou a ter um papel de maior relevo, muitos acontecimentos medievais ficaram mal documentados. Não se sabe, por isso, a data de casamento de D. Teresa de Leão com D. Henrique de Borgonha, uma união que alterou o curso da História Hispânica. Parece, no entanto, certo que este casamento se realizou na sequência da perda de Lisboa.

Representação de D. Afonso VI na Catedral de Santiago de Compostela
Em 1093, D. Afonso VI, o pai de D. Teresa, recebeu, do rei mouro de Badajoz, as cidades de Lisboa e de Santarém e o castelo de Sintra. Em troca, o rei mouro contava com a protecção do imperador hispânico contra os almorávidas, uma casta berbere que tentava alcançar o poder na Península. Este tipo de alianças com os muçulmanos não era novidade para D. Afonso VI, a Reconquista foi um processo mais complicado do que, à primeira vista, se possa pensar.
D. Afonso VI colocou o território à guarda de seu genro, D. Raimundo, feito conde da Galiza, por casamento com D. Urraca, em 1091. D. Raimundo viu-se, assim, senhor de vastas posses, que incluíam a Galiza e Portucale, descendo até ao Tejo. Em fins de 1094, porém, Lisboa e Sintra foram perdidas para os almorávidas e o imperador, desiludido com o genro, separou o condado Portucalense da Galiza, entregando o primeiro ao novo genro, D. Henrique, originário da Casa Ducal de Borgonha. Sendo o mais novo de seis irmãos, D. Henrique não tinha direito a herança e procurou a sua fortuna na Hispânia, já que a rainha D. Constança, esposa do imperador, era sua tia. Assim se viu o jovem cavaleiro dono de um vasto território, maior ainda do que o do marido da filha legítima, circunstância só explicável pela grande desilusão que D. Raimundo terá causado ao sogro.
D. Henrique e D. Teresa terão, por isso, casado pouco depois da perda de Lisboa. O historiador Rui de Azevedo serviu-se de um diploma de Afonso VI para o mosteiro de S. Servando, datado de 13 de Fevereiro de 1095, para situar o casamento em Janeiro desse ano. Nesse diploma, os condes portucalenses surgem casados e a perda de Lisboa deu-se no Outono de 1094. Porém, segundo o Prof. Abel Estefânio (nota 10) esse documento «encontra-se actualmente redatado criticamente de 1098 ou 1099». Enfim, não havendo outras referências, achei que o mês de Janeiro seria uma boa altura para assinalar este matrimónio e as circunstâncias em que ocorreu.

Miniatura medieval (pormenor) representando D. Teresa. Manuscrito gótico do mosteiro galego de Toxosoutos
(Arquivo Histórico Nacional, Madrid. Tumbo de Toxosoutos, fol. 6v.)
Santarém haveria de pertencer a D. Henrique até Maio de 1111, altura em que foi conquistada pelos almorávidas, fazendo recuar novamente a fronteira do condado Portucalense até quase ao Mondego, já que, entre Santarém e Soure, se estendia uma vasta terra de ninguém. Santarém, Lisboa e Sintra só seriam reconquistadas trinta e seis anos mais tarde, por D. Afonso Henriques.

entre Santarém e Soure, se estendia uma vasta terra de ninguém
Ainda hoje se estende, mais ou menos. É a terra da serra dos Candeeiros e do Pinhal Interior – terras pobres, de muito pouco préstimo agrícola, entre os férteis vales aluviais do Tejo, a sul, e do Mondego, a Norte.
assinalar este matrimónio e as circunstâncias em que ocorreu
É triste assinalar um “matrimónio” que, na verdade, em mais não consistiu do que o imperador oferecer a sua filha D. Teresa, como se ela não passasse de um animal de cobrição, a D. Henrique.
É como se faz na Índia atual: dá-se a filha a um homem e, para que ele a ature, ainda se lhe oferece um rico dote.
Por mais que práticas dessas nos incomodem, não podemos negar a nossa História e procurar os fios de ligação entre os acontecimentos.
Infelizmente, costumes desses não são praticados apenas na Índia, actualmente.
P. S. Estes casamentos arranjados entre a nobreza medieval europeia não constituíam problema apenas para as mulheres, para muitos homens também.
Errata: “e deixar de procurar os fios de ligação”
não podemos negar a nossa História
Não é essa a minha intenção. Só me custa ver designar por “matrimónio” aquilo que mais não é que um negócio, no qual pessoas (os “noivos”) são tratadas, ao fim e ao cabo, como gado.
Além disso, concordo que não devemos negar a nossa história, nomeadamente hoje em dia quando tantas pessoas gostam de criticar outras culturas por nelas ainda se passarem coisas destas. Convém recordar a essas pessoas que na nossa bela cultura, supostamente “judaico-cristã” como gostam de a apelidar (embora os judeus tenham sido expulsos de cá com paus e pedras já há muitos sećulos), coisas assim também foram correntes.
costumes desses não são praticados apenas na Índia
Pois não. São praticados em todo o sub-continente indiano (Índia, Bangladeche, Paquistão e Nepal), independentemente da religião.
Interessante. Culmatar lacunas sobre uma época decisiva na formação de este Portugal que hoje em dia se dilui como entidade política autónoma …
Culmatar lacunas sobre uma época decisiva na formação de este Portugal
Também convém colmatar lacunas sobre a ortografia do português.
Bem visto. Não é cool matar a ortografia.