No filme Ratatouille, o chef Gusteau afirma que “qualquer um pode cozinhar“, uma afirmação que o crítico Anton Ego contesta firmemente. No final, depois de um rato lhe cozinhar um prato fabuloso, Ego reconsidera a sua posição e verifica que, apesar de nem toda as pessoas poderem ser grandes cozinheiras, um grande cozinheiro pode vir de qualquer lado.
Com as devidas adaptações, é este o conceito da busca do sucesso na sociedade moderna. Independentemente de se considerar o “sonho americano” como uma quimera ou uma realidade, a verdade é que na sociedade ocidental moderna há uma possibilidade de mobilidade social inequivocamente inédita na história da humanidade. O sonho americano e a “busca da felicidade” que está inscrita na declaração da independência dos EUA são apenas as faces mais visíveis dessa aspiração humana universal: procurar atingir os nossos sonhos.
Ora, aquilo que o mundo moderno tem vindo a fazer, através do marketing e, em grande medida, do mundo dos livros de auto-ajuda, éa promoção que a felicidade e a obtenção de tudo quanto se sonhou é um direito humano. Mais, é algo que a sociedade tem a obrigação de fornecer. Obviamente que quanto mais velhas forem as pessoas mais o cinismo se entranha nete pensamento e menos se vê o mundo dessa forma. No entanto, num mundo que apregoa aos quatro ventos que “podemos ser tudo o que quisermos” se o quisermos e trabalharmos o suficiente, é fácil aos mais novos criarem expectativas exageradas.
E é aqui que regresso a Ratatouille. Ego verificava que o “sonho americano” de Remy era perfeitamente válido, mas também indicava que, apesar de ser possível a qualquer um chegar aos seus sonhos, nem todos o fariam. O rato Remy tinha a seu favor um olfacto e um paladar altamente apurado, além de uma enorme imaginação e criatividade. Tinha, portanto, talento. E, na história, tinha sorte, a qual aproveitava da melhor forma.
É precisamente este o aspecto do sonho moderno que é sonegado à sociedade. Desejar muito e trabalhar imenso não é o suficiente. Isso poderá criar condições para uma boa vida, mas ter talento, sorte e capacidade para reconhecer e aproveitar oportunidades é absolutamente essencial para o sucesso.
Sem clarificar tal informação, os jovens – não só, mas especialmente estes, sem o benefício da experiência e das desilusões – acabam por considerar que ser felizes é um direito universal que está a ser suprimido. Isto é um facto de qualquer geração, mas na moderna, com as mensagens ubíquas sobre desejos e felicidade, chega-se a limites inaceitáveis.
Será então de estranhar que os jovens se tornem cada vez mais impacientes com as gerações mais velhas? Lembremos que são as mesmas gerações que de um lado lhes dizem para aspirarem a tudo e do outro lhes retiram essas aspirações. Considero como natural que cada geração tenha melhores oportunidades que a anterior. É o progresso normal desejado, mas estas oportunidades têm que ser entendidas. Sem tal compreensão, os sonhos que vão sendo vendidos não passam de marketing. E consumidores insatisfeitos têm a tendência para procurar outros produtos.

É sempre um prazer ler seus textos e também ter a oportunidade de os reflectir consigo, João.
Antes de mais devo dizer-lhe que o sonho é como o viver: é um direito e não uma obrigação.
Aquilo que o marketing tem oferecido não é um sonho, mas um produto. Aliás, a subtileza do marketing é criar necessidades, induzir atitudes e usar as aspirações para fornecer um falso sonho, e o sonhar deve estar para além do mercantilismo.
A cultura do sucesso, que tem vindo a ser alimentada ao longo das três últimas gerações (um século), fez o homem acreditar que o talento residia em uns quantos iluminados, e que só estes é que podiam aceder ao nirvana e tornarem-se os líderes incontestados nesta película que tem vindo a ser projectada em ecrãs de relevos pouco lapidados. Portugal é um exemplo típico deste fenómeno, onde de uma cultura campesina, que via aos seus filhos frustrarem-se os sonhos outrora não realizados, passou-se para um sonho provinciano que usou as bases dessas mesmas frustrações para frustrar o acesso aquilo que antes reivindicavam; e surgiram as corporações, substituindo outras, que se reproduzem a elas mesmas.
Não há dúvida nenhuma que um bom cozinheiro pode surgir de qualquer parte. Mas o que é certo é que não pode existir uma bom cozinheiro sem um bom pescador, um bom criador, um bom semeador, um bom apanhador e sem alguém que lhe diga que a transformação operada aos artigos é realmente boa. E também é da esfera do talento saber reconhecer essa transformação.
Verifica-se que se tem comido por comer, e o sabor, que vem da palavra sapere, reflecte a sensibilidade e o Saber que não existe para reconhecer as variáveis ou os padrões no cozinhado que se nos oferece.
É uma cultura sem saber e sem sabor. E quando faltam estes ingredientes oferecem-se outros sabores que convencem haver saber.
Ora, o saber do Homem conduz à consciência que o talento é matéria prima partilhada e não abafada; e que o verdadeiro privilégio reside naquele que serve e não no que se serve; no que partilha, e não no que toma para si.
Por outro lado, as gerações mais velhas devem notar que as novas têm o mesmo direito de percorrer os caminhos do erro, e o dever de os acertar. É um privilégio poder fazê-lo, e este nunca nos é retirado. É necessário conhecer o Sabor para Saber que privilégio é este.
“Procurai e encontrareis; pedi e ser-vos-á dado; batei e abrir-se-vos-á”. (in Novo Testamento)
https://www.youtube.com/watch?v=WWDjz6rH O-s
Começo pelo fim: a razão do meu post foi precisamente a crítica constante às gerações mais jovens. É uma crítica que se repete assim que as gerações avancem na idade e pertence à cultura do “no meu tempo…”. É também uma crítica que não percebe que os jovens são telas em branco (pelo menos como colectivo) cuja pintura dependerá completamente daquilo que as gerações anteriores fizerem (directamente – influenciando os jovens – ou indirectamente – condicionando-os com as mudanças na sociedade).
Os sonhos são óbvios direitos, serão talvez o único direito que não pode ser retirado por inteiro, por estar no domínio da mente. É importante é compreender que se o sonho é um direito, a sua concretização não o é, por muito que a cultura moderna tente vender essa ideia.
João, na realidade não compreendi assim.
O que eu pretendi realçar é que as gerações mais novas também não podem cair no síndroma de calimero e julgar que são um alvo de infortúnio, estas também deixarão rabos de palha para as futuras gerações. Na realidade todas essa gerações que referi também foram vítimas de decisões anteriores, mas, como pretendi referir com o anexo do poema de António Gedeão, todas aquelas obras de arte – fuste e capitel, contraponto e sinfonia, arco em ogiva vitral, pináculo de catedral… – são obras concretas desses sonhos que visam construir e não destruir, e muito menos viver à sombra do passado.
Em simultâneo apontei atitudes que são necessárias romper e que vitimaram não só jovens de outras gerações como as vindouras.
E finalmente, citei o Novo Testamento como força motora para empreender-se as necessárias tarefas em tempos tão difíceis. É necessário alimentar a alma para poder desenvolver o espírito e contrariar as falsas tendências mercantilistas muito associadas ao sucesso.
É a Pessoa, e não o produto e a imagem que se cria em torno dela, que é necessário definir como alvo de nossos sonhos e ambições. É para elas que tudo existe.
No meu caso, aponto sempre a Palavra de Deus como bússola para esta navegação. E deixe-me dizer-lhe que a Palavra de Deus não é uma simples leitura bíblica, ela expressa-se através da constatação das consequências de atitudes levadas a efeito, da atenção à linguagem da natureza, na forma como esta reage às intervenções pouco cuidadosas que nela operamos, na dissolução da harmonia social que tem vindo a destruir a pedra basilar desta, a família como berço onde se geram os sonhos e se adquire o suporte para que as aves cantem em “bebedeiras de azul” etc. etc. etc. e tal
Em suma, o sonho não é sonho, é Vida.
na sociedade ocidental moderna há uma possibilidade de mobilidade social
Isso era na sociedade ocidental de há um século ou mais. Está perfeitamente demonstrado que, cada vez mais, a mobilidade social ascendente está a desaparecer rapidamente, à medida que os casamentos estre pessoas da mesma classe social aumentam,a importância da educação aumenta, etc. Hoje em dia escasseiam cada vez mais os self-made men.
Esse é um fenómeno que se repete permanentemente nas sociedades humanas, caro Luís. É possível que a mobilidade social tenha de certa forma diminuído, mas isso deve-se também à democratização do ensino. Quando muitos podem estudar, deixa-se de se ser o único da comunidade pobre a fazê-lo e portanto deixa-se de ter a vantagem comparativa.
Ainda assim, quando refiro a sociedade moderna, falo do último século (mais ou menos). Comparando épocas não quero estar a comparar um século V a.C. em geral com os anos 20 ou 70 do século XX.