ARTE POÉTICA
Olhar o rio feito de tempo e água
E recordar que o tempo é outro rio,
Saber que nos perdemos como o rio
E que os rostos passam como a água.
Sentir que a vigília é outro sonho
Que sonha não sonhar e que a morte
Que a nossa carne teme é essa morte
De cada noite, que se chama sonho.
Ver em cada dia ou ano um símbolo
Dos dias do homem e dos seus anos,
Converter o ultraje dos anos
Em música, rumor e símbolo.
(…)
Às vezes pela tarde há uma cara
Que nos olha do fundo de um espelho
A arte deve ser como esse espelho
Que nos revela a nossa própria cara.
Contam que Ulisses, farto de prodígios
Chorou de amor ao avistar a sua Ítaca
Verde e humilde. A arte é essa Ítaca
De verde eternidade, não de prodígios.
(…)
Jorge Luís Borges, in Obra Poética
(Nota: tradução minha, com as devidas desculpas ao Mestre pela ousadia e pela liberdade de truncar um poema sublime)

Excelente.
Excelente mesmo.
Isso já se sabia. Mas referia-me ao teu papel.
O meu papel é pardo…
Pobre e mal-agradecida.
:o)
Sou uma ingrata, é o que é.
🙂
Eu “vou” mais por este e deixo-lho em jeito de adivinha…é fácil.
Yo soy el cóndor, vuelo
sobre ti que caminas
y de pronto en un ruedo
de viento, pluma, garras,
te asalto y te levanto
en un ciclón silbante
de huracanado frío.
Y a mi torre de nieve,
a mi guarida negra
te llevo y sola vives,
y te llenas de plumas
y vuelas sobre el mundo,
inmóvil, en la altura.
Hembra cóndor, saltemos
sobre esta presa roja,
desgarremos la vida
que pasa palpitando
y levantemos juntos
nuestro vuelo salvaje.
El Capitan é outra das minhas paixões, Fernando.
🙂
Tenho um velho vinil onde é o próprio Neruda que lê os vinte poemas de amor…
lamechices minhas, tá visto…
Boas lamechices, Fernando.
Por un camino de oro van los mirlos… ¿Adónde?
Por un camino de oro van las rosas… ¿Adónde?
Por un camino de oro voy…
¿Adónde,
otoño? ¿Adónde, pájaros y flores?
então só mais este ,para o caminho…do velho JRJ…
E estamos lá quase, no Outono. A minha estação do ano preferida.
Belíssimo poema de um dos maiores escritores do século XX. Excelente tradução, Ana.
Obrigada, Pedro, gosto de ler poesia no original sempre que posso, mas também gosto do exercício de traduzi-la. A poesia de Borges (e também a prosa, claro) é um deslumbramento permanente, a que volto sempre.