Raquel Freire: «A fórmula 1 faz-me sono»


Pedro Correia,

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«A vida é sempre mil vezes mais surpreendente do que o cinema»

 

Esta entrevista decorreu num contexto especial. Destinou-se a um suplemento do jornal dedicado ao centenário de Manoel de Oliveira (1908-2015). Daí a entrevistada ser a cineasta Raquel Freire e as primeiras perguntas aludirem ao então decano do cinema português. Devo reconhecer que ela correspondeu às expectativas.

 

Qual foi o primeiro filme que viu de Manoel de Oliveira?

Foi o Acto da Primavera. Marcou-me muito. É impressionante.

Dizem que os filmes dele dão sono. É verdade?

A mim, nunca deram. O único filme português que me fez adormecer foi o Zona J [de Leonel Vieira]. O que me faz sono são as corridas de fórmula 1 e os concursos da TV.

O melhor filme de Oliveira é…

Tem dias. Hoje é a Francisca.

Concorda que se trata de teatro filmado, como alguns dizem?

Não. O teatro nem é vagamente parecido com os filmes dele.

Gostava de trabalhar com ele?

Como actriz, gostava.

«O cinema é a vida», já houve quem dissesse. De acordo?

Claro que não. A vida é sempre mil vezes mais surpreendente do que o cinema.

Gostava de chegar aos cem anos ainda a filmar?

Sim!!!

Tem medo de quê?

De assistir ao sofrimento dos outros sem poder fazer nada.

A sua bebida preferida?

Um vinho do Douro.

Tem alguma pedra no sapato?

Muitas. E ainda bem.

Que número calça?

37.

Que livro anda a ler?

Ando a ler Para o Ator, de Michael Chekhov, a bíblia da interpretação. E Lacrimae Rerum, do polaco Slavoj Zizek, numa tradução de Luís Leitão. E Avódezanove e o Segredo do Soviético, de Ondjaki.

Tem muitos livros à cabeceira?

Um monte deles: os que leio e os que devia ler e ainda não consegui.

A sua personagem de ficção preferida?

Neste momento é a personagem do livro que estou a escrever. Uma pessoa que nasceu biologicamente mulher, que vive como um homem e é um transgressor.

Rir é o melhor remédio?

Quando não adianta chorar.

Lembra-se da última vez em que chorou?

Foi ontem. Sou de lágrima fácil.

Gosta mais de conduzir ou de ser conduzida?

No carro, prefiro ser conduzida. Mas só no carro.

É bom transgredir os limites?

Sempre.

Qual é o seu prato favorito?

Arroz de lingueirão n’ O Costa, em Cacela.

Qual é o pecado capital que pratica com mais frequência?

A luxúria.

A sua cor preferida

Vermelho.

Costuma cantar no duche?

Sempre.

E a música da sua vida?

O Concerto N.º 21, de Mozart, tocado pela Maria João Pires.

Sugere alguma alteração ao hino nacional?

Sugiro que façam um novo.

Com que figura pública gostaria de jantar esta noite?

Com o Obama.

As aparências iludem?

Muito. E ainda bem.

Qual é a peça de vestuário que prefere?

Vestido.

Qual é o seu maior sonho?

Viver em liberdade plena.

E o maior pesadelo?

Enlouquecer.

O que a irrita profundamente?

A falta de respeito pelas pessoas.

A melhor forma de relaxar?

Filmar.

O que faria se fosse milionária?

Investia tudo quanto tivesse em crianças.

Um homem bonito?

Era o John Cassavetes.

Acredita no paraíso?

Somos nós que o criamos.

Tem um lema?

Viver o aqui e agora.

 

Entrevista publicada no Diário de Notícias (6 de Dezembro de 2008)

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