Os saltitantes-das-traseiras

São sempre jovens, mas alguns já rapazolas com idade para fazer tudo o que não devem. Os saltitantes-das-traseiras costumam morar nas proximidades do local em que aparece um repórter e uma câmara de televisão. Não querem saber de microfones, mas as câmaras são definitivamente irresistíveis.
Por vezes, os saltitantes-das-traseiras nem moram nas redondezas. São como os automobilistas que circulam na faixa oposta a um acidente e se põem a observar a cena até conseguir que a intensidade do trânsito interrompido por eles seja igual ao pandemónio que se formou do outro lado. Os saltitantes-das-traseiras podem ser, portanto, simples passantes que param, ficam a cheirar tudo e não desinfectam enquanto a câmara de televisão não se evaporar.
Aquilo que os caracteriza é estar sempre atentos e a postos para tomar posição atrás de qualquer pessoa para a qual a câmara se vire. O papel dos saltitantes-das-traseiras é ficar a saltitar atrás de cada entrevistado de rua. Os mais jovens e mais baixos saltam com mais vigor, para ter a certeza de que serão vistos na televisão pelos amigos. Ou, pelo menos, tentam ser vistos-e-não-vistos, vistos-e-não-vistos, vistos-e-não-vistos na cadência dos saltos!
Característica curiosa do grupo é essa ginástica ser sempre acompanhada por acenos de mão, enquanto se empurram uns aos outros na conquista pelos melhores lugares. Mas não devem ser levados a sério: põem-se a dizer adeus, como quem se despede e vai seguir caminho, mas jamais descolam antes de ver a câmara ir-se embora.
No fundo, este grupo está para o dos «meteorologistas inquietos» (v. Quem se vê na TV n.º 1) como os rapazes em geral estão para os futebolistas: todos querem ser, mas raros lá chegam. É que não lhes basta ter uma boa técnica para aparecer atrás dos entrevistados na melhor posição: os saltitantes-das-traseiras precisam de se inscrever numa juventude partidária e de treinar muitos esquemas até que o futuro lhes permita andar encostados aos políticos e aparecer atrás de um ombro sem precisar de dar saltinhos…

Os saltitantes-das-traseiras costumam também aparecer de telemóvel na orelha. Lembram-se todos de telefonar à família no preciso momento em que topam uma câmara de TV. Só o Emplastro não tem telemóvel. A TMN, a Vodafone ou a Optimus não lhe oferecerão um?
Boa, compadre!
E já ponderou as vantagens de a nossa selecção não dar uma para a caixa, o que previne a visão de multidões de saltitantes a gritar «somos os maiores», coisa que todas as TV’s adoram transmitir horas a fio?
É verdade.
E há aqueles que depois de uma ‘grande luta e saltos’ para chegar às câmaras de TV…
“Quando aqui cheguei, não vi nada, mas uma mulher que estava aqui disse que um homem tinha visto tudo… posso mandar um beijo para o meu filho?”
O mais característico, tal como disse o Pedro, é o Emplastro… pena ter comprado aqueles ‘dentes todos’; a antiga ‘cancela velha’ era a sua imagem de marca!!!! Não esquecendo o sinal na cara!!!
Creio que esses pertencem a outro grupo específico. Hehehe…
Nada como começar a manhã a rir, João! 😉
E os saltitantes-das-traseiras são muitas vezes mais interessantes do que os que estão em primeiro plano… pelo menos dá para nos entretermos enquanto não acabam as banalidades dos perguntadores-agendados e dos seus entrevistados.
É isso mesmo, Ana!
Com isto fizeste-me lembrar uma passagem de
«O Senhor Valéry» do Gonçalo M. Tavares:
«O Senhor Valéry era pequenino, mas dava muitos saltos.
Ele explicava:
Sou igual às pessoas altas só que por menos tempo»
Gd. abraço.
Bem lembrado, Luís.
Abraços.