Quem os viu e quem os vê (1)


Pedro Correia,

2015-12-02-Esquerda-Parlamento-Jeronimo-Catarina-M

 

É chocante o silêncio do Bloco de Esquerda e do Partido Comunista sobre o condicionamento das pensões mínimas, únicas que poderão ficar sujeitas à  condição de recursos em 2017, sem serem abrangidas pelo aumento extraordinário previsto para as restantes no Orçamento do Estado. Chocante desde logo porque estes dois partidos reclamam a todo o momento solidariedade com os mais frágeis e desfavorecidos da sociedade – precisamente aqueles que auferem as magras pensões sociais (do regime não retributivo) e pensões rurais (do antigo regime rural), que oscilam entre 202,34 euros e 380,56 euros.

Que diferença entre a apatia actual e o tom enérgico usado por Jerónimo de Sousa em Novembro de 2014, vergastando em simultâneo o PS e os partidos à direita dos socialistas. “Foi o PS que abriu a porta aos cortes dos salários, à condição de recursos para tirar abonos e outras prestações sociais, ao congelamento de pensões mínimas, ao Pacto de Agressão e outras malfeitorias, mas é preciso dizer também com estreita colaboração e apoio do PSD e CDS que se aproveitaram mais uma vez da mão amiga do PS para arrombar as portas todas da injustiça e da exploração!” [sublinhados meus].

Que diferença entre a apatia actual e o tom categórico usado pela deputada bloquista Mariana Aiveca em Março de 2011, vergastando em simultâneo o PS e os partidos à direita dos socialistas sobre este mesmo tema, enquanto saía em defesa de “quem tem uma pensão tão mínima como 189 euros ou 227 euros” num debate parlamentar em que lembrou que “mais de um milhão e 600 mil pensionistas” se mantinham abaixo do limiar da pobreza. “Pela nossa parte, continuamos a pensar que a pensão mínima tem de caminhar no sentido da convergência com a remuneração mínima mensal garantida, até porque esse é o valor a partir do qual se considera que há alguma dignidade de vida. Esta é uma questão da qual o BE não abdicará“, declarou a deputada, falando em nome do seu partido [sublinhados meus].

Bastou transitarem da oposição para a órbita do poder para os dois partidos baixarem os decibéis reivindicativos. Antes produziam declarações tonitruantes, agora sussurram baixinho. Não vá o ministro Mário Centeno sentir-se incomodado.

46 comentários em “Quem os viu e quem os vê (1)”

  1. Em compensação:

    Estão imensamente preocupados com as pessoas que embarcam nos comboios em jejum; com os pais “distraídos e desleixados” que deixam ir os filhos para a escola sem tomarem o pequeno almoço; do trabalhador que não toma o café da manhã e pelo caminho mata o bicho com um copo de três….

    São preocupações a mais para um Governo…. acrescida ainda com o exagerado consumo de assucares…

    O cardápio do restaurante da Assembleia da República já baniu todos esses malefícios… Sigais-lhe o exemplo.

    1. Sim, o jejum, que no tempo da maldade era fome!! O Público continua a surpreender. O jornalismo de referência escreve mais uma página de louvor ao prestígio do jornalismo português!! Sim Senhor. (achei particularmente bem conseguida aquela foto do Pedro N. Santos com grávitas de imperador a mirar, sem fim, o horizonte dos urais, ou da serra da agrela!! Impecável!!)

      1. Sim, aquilo que dantes era “fome” agora é “jejum”, aquilo que dantes era “subnutrição” agora é “elegância”, aquilo que dantes era “emigração forçada” agora é “rasgar horizontes”, aquilo que dantes era “perdão fiscal” agora é “racionalização financeira”.
        A revolução semântica continua em marcha.

  2. Até ladrões lhes chamavam, num tipo de verborreia que não deveria ter lugar num parlamento decente (que eu diga asneiras aqui não interessa nada, que eles digam asneiras ali interessa muito) — mas mostra bem o tipo de criaturas que se juntou para não deixar governar em quem os portugueses votaram. O que foi sinalizado com o voto foi muito claro e não era isto.

  3. As palavras do Senhor Pedro Correia e dos primeiros três comentadores surpreendem-me (ou talvez não). Sendo pessoas ilustradas (que conhecem bem Machiavel) o que disseram só pode ter duas explicações:
    1. Detestam a esquerda e aproveitam para bater (ou malhar).
    2. São ingénuos ou pretendem sê-lo.
    Sabem bem que vendedor e (candidato a) comprador não falam do mesmo modo do produto a negociar. E se trocarem de posição trocam também de discurso, o que era inicialmente comprador passa a falar como vendedor e vice-versa.
    Resumindo. Os Senhores estão a fazer o que criticam (e muito bem). Quando as forças políticas se alterarem na Assembleia da República, os senhores mudam também. Se me disserem que não, acho que se pode concluir (no pressuposto de quer falam verdade) que são politicamente ingénuos (o que é pouco provável).
    Para a política como em tudo é preciso ter inteligência para não se ficar do lado dos derrotados. É como na guerra ou no futebol: quem ataca não procede da mesma maneira de quem defende.

      1. Boa saída para quem não sabe que dizer. É como quando se responde num debate: “isso é demagogia” e fica o caso resolvido.

          1. Esse argumento (de eu não saber assinar) faz-me lembrar um outro muito célebre utilizado por um não menos célebre deputado: “vai chatear a tua tia”. E com esta tramou o adversário político.

          2. Diz entretanto o “anónimo” que um célebre deputado tramou o adversário político com um “vai chatear a tua tia”.

            Ora nos anais só consta um “manso é a tua tia, pá” dito (ou pelo menos lido nos lábios) a 16 de Abril de 2010 pelo na altura PM José Sócrates ao na altura deputado Francisco Louçã.

            Este “anónimo” é um poço de cultura, a qual usa com grande conhecimento dos factos e um fino sentido de humor.
            Espero bem que não desapareça daqui.

          3. Pois também me parece, a sua sempre é uma caracterização mais simpática.

            De qualquer modo o meu Amigo sabe há muito como esta gente, que só diz banalidades com ar pomposo e depois se esgueira com respostas que eu nem aos meus netos aceitaria – de tão ridículas que são – não me deixa indiferente.

            Mea culpa de não resistir…

            Um forte abraço

          4. “só consta um “manso é a tua tia, pá” tem toda a razão. Dou a mão à palmatória. E ainda há aquele argumento dos corninhos que também me pareceu notável.

          5. Não me parece que o “anónimo” não saiba assinar.

            O que ele tem é vergonha de assinar, o que aliás só lhe fica bem.

            Depois de fazer um comentário completamente “circular” ainda acusa os outros de não saberem o que dizem.
            Como é que se responde a 15 linhas de banalidades tipo “pescadinha de rabo na boca”?

            De qualquer modo há 3 pontos a salientar:

            1º) Começa ele por dizer “Detestam a esquerda e aproveitam para bater (ou malhar)”.
            Ora isto é demagogia a ver se ficava o caso resolvido logo ali…

            2º) Para se invocar Maquiavel é preciso tê-lo lido e eu não vejo o que é que ele vem fazer para aqui.
            Pelos vistos o “anónimo” limitou-se a googlar, saíu “Machiavelli” e “traduziu” o nome como lhe deu na veneta.

            3º) Finalmente como “Para a política como em tudo é preciso ter inteligência para não se ficar do lado dos derrotados” já fiquei com uma ideia das vezes todas que o “anónimo” já virou a casaca e presumo que ainda a vá virar algumas vezes, assim tenha muita vida e saúde.

          6. Parece-me muito bem caracterizado este anónimo, caro RMG. Achei muita graça, sobretudo, à parte do Maquiavel: a wikipédia brasileira prega cada partida a quem não sabe consultá-la…
            Abraço.

          7. ” ele tem é vergonha de assinar” Claro!!
            Finalmente um comentário inteligente.

    1. Camarada Anónimo ( Marte )
      Diga-me com toda a sinceridade : – Acha que o presidente do sindicato dos ferroviários tem razão quando afirma que as pessoas, hoje por norma esquecem-se de tomar o pequeno almoço, antes de embarcarem no comboio?

      Só isto … não lhe peço mais nada!

  4. Completamente de acordo Pedro.
    A ganância do poder e o cinismo desta esquerda miserável no seu melhor
    Antes sem me identificar com a “cassete riscada “do partido comunista até tinha um certo respeito porque achava que eram coerentes com o que defendiam.
    Sabe? Eu ainda acredito no Pai Natal

  5. É sempre agradável ver alguém preocupado com uma possível deriva para a direita de formações de esquerda.
    É uma variante de vir aqui acusar as mesmas formações de terem um discurso irresponsável.
    A caracterização é feita assim:
    1 – Determina-se quem é de esquerda (os maus)
    2 – Se o discurso deles for diferente do nosso – são irresponsáveis.
    3 – Se for semelhante ao nosso – são vendidos.

    É análise política Benfica-Sporting. Não importa o que se faz mas quem o faz.

    1. O que importa é que o governo anterior aumentou as pensões mínimas, ao mesmo tempo que cortou nas elevadas.

      Este governo congela as mínimas e repõe as altas.

      O resto é conversa.

    2. Não é nenhuma análise futeboleira. São factos. Com menção de fontes, data e nomes.
      Blablablá ideológico, com discurso redondo próprio da futebolândia, fica para alguns leitores nesta caixa de comentários.

  6. Caro Pedro Correia, mais um monumento de louvor ao jornalismo de referência, desta feita, de referência internacional.
    Em Mosul, dizem, caem bombas para libertar a cidade!! Em Alepo, dizem, um massacre, com bombas que pingam, cegas!! Estas coisas são estética e eticamente moucas.

  7. Daqui a dias entra um dos artistas em cena com o papel de representar o bom samaritano dizendo: com muito esforço conseguimos dar os €10 euros a todos. (Não se esqueçam de nos agradecer)

      1. A questão está em se Bruxelas deixou.
        E o mais provável é ter deixado, mas como dar directamente da mão de Bruxelas apanha poucos bananas, fazem-se umas negaças para apanhar mais alguns.

  8. Caro Pedro,

    Já escrevi aqui varias vezes e por varias vezes concordei com as suas teses, mas neste assunto discordo bastante da sua deriva. Como é possível ao fim de uns meses e de um orçamento aprovado e outro por aprovar, poder-se opinar que este é o caminho para a desgraça?? As exportações estão mais baixas, sim estão a própria conjectura económica está em baixa nem para falar no Brexit e seus receios. A procura interna não está a ter o impacto que este governo queria, talvez, também com a dose de incerteza que existe era difícil, mas pelo menos existe uma real tentativa de efectuar algo de diferente, efectuar algo que seja diferente de cortar em vencimentos, subsídios e afins, porque isso não são reformas como o anterior governo tanto apregoava e que no fim viu-se no que deu e ainda está a dar.
    A esquerda que tanta comichão e dor de cotovelo está a dar a direita, está a seguir um caminho diferente, alternativo até a própria Europa está a fazer um pouco comichão e deverão dificultar em tudo o que lhes for possível, mas coitados não percebem que o caminho vai ser difícil e penoso para todos, todos mesmo na Europa. É um caminho difícil e tem riscos, mas tem o condão de devolver rendimentos as pessoas, tentando que isso faça “mexer” o mercado interno, sim pode fazer aumentar as importações, é um risco, pois tudo tem o seu risco e maior é o risco de não tentar, pois quem não trabalha não se engana, como outro dizia por outras palavras, mas nem o IMI pagava na totalidade. Enfim é melhor nem falarmos disso, pois apregoar virtudes e não as efectuar, existe muito disso por aí.
    Resumindo, é preciso tempo para perceber se esta politica de esquerda é assim tão trágica e que nos vai levar ao abismo. (eu pessoalmente não acredito, mas eu sou um simples “curioso” nesse matéria, alem de que não vejo assim tanta histeria lá fora como vejo cá dentro, mas posso ser eu que vejo mal)

    Cumprimentos,

    1. Tenho a maior dificuldade em raciocinar com base nesses conceitos “esquerda/direita”, mais próprios de uma parada militar ou da brigada de trânsito da GNR.
      O que é “esquerda”? O Syriza, que está a aplicar na Grécia todas as medidas delineadas em Bruxelas e Berlim?
      O que é “direita”? O UKIP britânico, proteccionista e antiglobalização, firme opositor da UE e do sistema monetário europeu?

      Feita esta ressalva, faça o favor de não tresler os meus artigos. Onde opinei eu “que este é o caminho para a desgraça”?
      Essa não é a minha linguagem, como qualquer leitor atento sabe. Deixo isso para os palpiteiros de turno: não faltam por aí. O que critico – isso sim – é a incoerência de comunistas e bloquistas, que calam hoje o que criticavam anteontem. Mudam os tempos, mudam as vontades.

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