A expressão “Que se lixe a troika“ – multiplicada nos espaços de intervenção pública, a começar nas redes sociais – inaugura, por via indirecta, um debate que vale a pena travar em Portugal. Funciona, desde logo, como um corolário do que poderíamos denominar “doutrina Pedro Nuno Santos”, o deputado socialista que abriu caminho ao actual slogan quando proclamou sem rodeios “Estou-me marimbando [isto é, lixando] para os credores.”
Confesso que não aprecio particularmente esta contaminação do discurso político pelos plebeísmos de linguagem que nos induzem a estar “lixando” para tudo, dos credores às eleições, passando pela inefável troika. Isto decorre do mesmo caldo de cultura que leva meio mundo a insultar a outra metade nos fóruns da Net e estimula as micromultidões de vaiadores de conselheiros de Estado e outros protagonistas da cena política nacional, com direito a longos directos televisivos e registo antecipado nas reportagens dos telejornais. Daí ao insulto mais desbragado como paupérrimo sucedâneo da argumentação racional vai um curto passo.
Mas desagrada-me ainda mais o alastramento do jargão tecnocrático ao discurso político. Ao menos o calão tem a vantagem de ser claramente perceptível pelo cidadão comum.
As palavras nunca são indiferentes ou neutras no debate político. Podemos dizer “Que se lixe o défice” ou “Que se lixe a dívida”. Podemos – e devemos – gritar “Que se lixe o desemprego”. Mas quando elejemos a expressão “Que se lixe a troika” temos a obrigação de saber onde esta palavra de ordem nos conduziria caso fosse seguida à letra. Rasgar o memorando com a Comissão Europeia, o Banco Central Europeu e o Fundo Monetário Internacional, assumindo o incumprimento, levaria Portugal a ser expulso da zona euro.
E este é, portanto, o debate que vale a pena ser travado: devemos ou não permanecer no euro?
É um debate que urge travar, mesmo que algumas forças políticas que mandam “lixar a troika” o evitem. Essa foi uma clarificação que faltou à esquerda na recente campanha legislativa grega e que explica porventura o desaire eleitoral do Syriza, contrariando o que diziam as sondagens: há uma contradição insanável entre a proclamada intenção de manter o euro como moeda enquanto se recusa o cumprimento das mais elementares obrigações impostas aos membros deste clube – à cabeça das quais está, naturalmente, o pagamento das dívidas.
Tal como o Luís Menezes Leitão, gostaria de ver esse debate travado em Portugal. Com argumentos sérios, não com slogans. Alguns economistas têm defendido sem rodeios a saída de Portugal do euro: são poucos, como João Ferreira do Amaral e Octávio Teixeira, mas os seus argumentos merecem ser escutados. E é bom que não haja dúvidas sobre as consequências dessa opção. Mandar fora a troika seria mandar fora o euro mas sem que nos livrássemos da pressão dos credores. Porque, mesmo de regresso ao velho escudo, necessitaríamos de financiamento externo como de pão para a boca. Nenhum dos nossos actuais problemas terminava – e vários outros começariam. Resta saber que slogans iríamos gritar então.


Reconheço que não gosto da ideia do “custe o que custar” tem de se cumprir o acordo, até por que o balanço definido para cortes e receitas não está a ser respeitado.
Assumo que me interrogo sobre a via que seguimos e quais as alternativas.
Ma não percebo os que querem romper com a troika, sem dizerem de como a seguir aplicariam a receita que propagam de crescer consumindo mais, sem dinheiro nos cofres, sem cortes nas despesas e onde o recurso ao crédito para sustentar uma sociedade que consumiria mais do que produz assume à priori que não paga o que deve.
De facto, Carlos, muitos dos que mais querem ‘lixar’ a ‘troika’ advogam ao mesmo tempo o aumento das despesas públicas. Resta saber com que dinheiro pretendem satisfazer tanto despesismo. Devem ser adeptos da teoria económica do Dr Soares: “basta dar à manivela para imprimir notas”.
A permanência no Euro é o calvário que, mais ou menos, já sabemos.
A saída do euro seria um cataclismo de consequências imprevisíveis. Sair de maneira ordenada parece-me completamente irrealista.
Qual das duas opções nos empobrecerá mais e melhor? X2, digo eu.
É bom que este tema seja debatido. Analisando as causas e as mais que prováveis consequências.
mesmo de regresso ao velho escudo, necessitaríamos de financiamento externo como de pão para a boca
Não me parece. Isso é tudo menos óbvio.
Portugal tem atualmente as contas externas em larga medida equilibradas. Aquilo que exporta (incluindo serviços, notoriamente turismo) compensa aquilo que importa.
Se Portugal desvalorizasse a sua moeda, o balanço tornar-se-ia ainda mais favorável para as nossas exportações.
Desde que Portugal não tivesse que pagar juros ao estrangeiro, e desde que impusesse controlos de capitais que impedissem a fuga de capitais do país, Portugal não precisaria de financiamento externo.
O Luis Lavoura acredita mesmo no Pai natal. A desvalorização da moeda tem apenas um efeito imediato e temporário, não é uma ferramenta que possa estar sempre a ser usada. Contas controladas e reformas estruturais é o caminho. De outra maneira não vamos lá!
Claro que a desvalorização da moeda tem um efeito apenas temporário. Eu não disse que tivesse um efeito permanente. E claro que reformas estruturais são necessárias, onde é que eu disse o contrário?
assumindo o incumprimento, levaria Portugal a ser expulso da zona euro
Embora isto pareça intuitivamente óbvio, não o é. Porque não há nada nos tratados que permita a expulsão de um país da Zona Euro. E nada impede um qualquer país soberano de utilizar uma qualquer moeda, mesmo uma moeda emitida por um país estrangeiro. Há países que usam o dólar norte-americano como sua moeda. E há países (Lituânia, Letónia) que têm as suas moedas indexadas ao euro.
A soberania é como a respiração: só nos apercebemos verdadeiramente da sua importância quando começamos a perdê-la.
Infelizmente, hoje não somos um país soberano do ponto de vista financeiro. Devíamos ter pensado nisso durante a década perdida – a primeira do euro, em que o Estado português, economicamente estagnado, se endividou como se não houvesse amanhã.
Mas é bom que o debate sobre o futuro do euro ocorra na sociedade portuguesa. E que todos estejamos mais atentos e mais sensibilizados para esta questão. Durante demasiado tempo, agimos como se o dinheiro crescesse nas árvores. Ou – o que vem quase a dar no mesmo – como se os contribuintes alemães, austríacos, holandeses e finlandeses tivessem a obrigação de pagar as nossas contas.
hoje não somos um país soberano do ponto de vista financeiro
Talvez não, mas, repito, nada nos impede de continuarmos a utilizar o euro como nossa moeda, mesmo tendo cometido default, e mesmo que saíssemos da União Europeia.
Por exemplo, o Montenegro utiliza o euro como moeda, apesar de não pertencer à União Europeia. Ninguém o pode impedir de fazer tal coisa.
Uma coisa é certa, a nossa vida tem sido a troika. É, sem dúvida, uma má vida, por causa da vida boa que outros fizeram. Sem dúvida que estar fora do euro é uma boa solução, assim fosse a nossa vida diferente, mas não é!. A nossa sobrevivência depende da absoluta necessidade que todos têm em permanecer com o Euro, em particular a Alemanha. E isto deve-se ao facto do problema monetário já ter ultrapasado a esfera europeia; ou seja, a Europa, para voltar a ser um “player” internacional, só pode manter-se unida e esforçar-se por salvar o Euro, começando por mudar a política no que concerne não à austeridade mas à forma como dela devemos sair.
Dou um exemplo: a avaliação da troika já está feita, pelo facto da senhora Merkel ter referido que a verba será desbloqueada.
Uma Europa arruínada é uma Alemanha sem caminho e sem futuro; e uma Europa sem futuro fará o mundo tremer. Resta-nos esperar para ver como a China e o Japão resolverão o problema da dívida americana que em mãos têm, e de como os EUA reagirão à eminente perda de soberania monetária. Sim, hoje não há petrodólares para inventar.
Em resumo, ou nos salvamos todos ou morremos juntos.
É como diz: ou nos salvamos juntos ou morremos juntos. Não perceber isto é não perceber o essencial.
“Mas quando elejemos a expressão “Que se lixe a troika” temos a obrigação de saber onde esta palavra de ordem nos conduziria caso fosse seguida à letra. Rasgar o memorando com a Comissão Europeia, o Banco Central Europeu e o Fundo Monetário Internacional, assumindo o incumprimento, levaria Portugal a ser expulso da zona euro.”
O autor do post é que tem obrigação de saber que isto não é necessariamente verdade e, por isso, não deveria ser apresentado como se fosse. Para desinformação, já basta a comunicação social!
Na prática, é verdade. Deixar de pagar a dívida deixaria à beira do colapso os bancos nacionais, que estão cheios dela (muito mais do que quaisquer bancos estrangeiros). A partir daí, ou o Estado os deixava cair, fazendo mergulhar o país no caos financeiro, ou os salvava – mas, sem ter onde ir buscar euros, seria forçado a inventar uma moeda. Isto para não falar de muitos outros efeitos que ocorreriam mal fosse anunciado o default – por exemplo, a incapacidade das empresas portuguesas se financiarem no exterior, a exigência por parte dos seus fornecedores estrangeiros de garantias mais fortes e a fuga de capitais. Tudo junto tornaria impossível permanecer no euro.
Zorg: tal como o JAA já referiu, os efeitos imediatos dessa medida implicariam, na prática, a expulsão de Portugal da zona euro. Com maciça fuga de capitais, corrida aos bancos, congelamento compulsivo de contas bancárias, perda automática de cerca de 40 por cento do poder de compra dos cidadãos portugueses – e por aí fora.
É sobretudo por isto que o debate em torno da saída voluntária do euro é urgente.
Não, por acaso nem sequer é claro que na prática seja. O saldo primário é praticamente equilibrado, há algumas reservas, pelo que não é inconcebível um cenário em que, pelo menos por algum tempo, fosse possível funcionar dentro do euro, sem financiamento europeu.
Não pretendo com isto dizer que este seja um cenário desejável, mas acho que é, pelo menos, imaginável. Ou seja, reitero importância de evitar confundir as convicções pessoais do autor do post com hipotéticos factos.
Espero que tais factos jamais passem do domínio do hipotético. A última coisa de que precisaríamos em Portugal seria do colapso do sistema bancário.
Não venho discutir a necessária saída do euro, isto se quiséssemos, efectivamente, mandar embora a troica, ideia que, aliás, me parece não ter pés nem cabeça.
Venho apenas falar do insultos que ouvimos impunemente todos os dias na rua, não me parecendo-me, como diz, que isso “decorra do mesmo caldo de cultura que leva meio mundo a insultar a outra metade nos fóruns da Net.” É certo que, na net, podemos ver insultos atrás de insultos, alguns descabelados, quase sempre feitos sob anonimato, mas que não assumem, penso eu, a gravidade dos insultos que ouvimos na rua, e que as TV passam, a todas as horas. Para ler ou ouvir os insultos na net, temos que ir lá, e só vai quem quer. Quanto aos insultos que ouvimos na rua e ouvimos na TV, como foi o caso da última manifestação que se dirigiu à Assembleia da República, toda a gente ouviu, mesmo sem querer, palavras de ordem que não passam de simples insultos, muitas vezes ofensivos da honra dos visados. Quem não ouviu uns tipos de camisola branca, gritando, de forma cadenciada, filhos da puta, filhos da puta?
Não entendo como é que as autoridades não arranjam maneira de intervir. Eu acho que isso decorre do exemplo que vem de cima: não me esqueço de ver o então primeiro-ministro António Guterres, num comício mexendo os lábios, como que a acompanhar o ritmo da canção, então também a ser utilizada como hino contra o governo em exercício, cantada pelo Pedro Abrunhosa, que no refrão repetia, acompanhado em coro pela assistência, talvez foder. E quando assim é…
Espanta-me entretanto a duplicidade de critérios de alguns ‘líderes’ da opinião publicada, TA: palavras, gestos e atitudes que todos reprovam quando partem de energúmenos das chamadas claques de futebol, nos respectivos estádios, já são consideradas aceitáveis e até quase respeitáveis em iniciativas do género ‘cerco ao Parlamento’ onde não faltam exuberantes manifestações de ódio às instituições democráticas.
Tem toda a razão: para algumas dessas pessoas, dizer palavrões e insultar ou adversários, passou a ser uma coisa de bom tom.
Aqui está uma boa área onde os governos, sem grandes despesas, poderiam tomar medidas saneadoras, como fizeram os ingleses, tornando esses ambientes respiráveis e onde é perigoso levar crianças.
É um bom exemplo, TA: os estádios de futebol ingleses têm hoje um ambiente muito mais respirável do que certos cenáculos políticos em Portugal.
Aqui na minha imensa ignorância, sonho assim: Portugal devia avisar os credores que a dívida levará tanto tempo a pagar como foi a ser contraída, em suaves prestações, com início em 2018. Os mesmos 20 anos que vivemos de políticas “tiro no pé”, dinheiro a rodos e ausência total de supervisão. Portugal saía do euro, fechava as fronteiras à importação, passava um ror de misérias, agarrava-se à enxada e levantava-se do chão. O nosso chão é rico e a gente não quer ver o ouro. Instituía-se a solidariedade, a distribuição equitativa da riqueza produzida e, já agora, o resgate do numerário desviado a quem fez o favor de o desviar, como uma obrigação nacional de prioridade máxima. Para o nossos filhos, que não têm culpa, nem de ter nascido, nem da inconsciência dos adultos do seu País, seria o mínimo que devíamos fazer, salvaguardando os seus direitos a Habitação, Educação e Saúde. Fome, não passaríamos. Talvez muitos tivessem de passar de cavalo para burro, mas acredito que fossemos capazes de resultados surpreendentes, sem a douta sabedoria da UE e dos países que cavalgam sobre as dívidas como se não houvesse amanhã.
Sim ignorância . Devo dizer que pelo seu texto mais uma vez se confirma que Totalitarismo anda sempre por perto…
“Portugal devia avisar os credores que a dívida levará tanto tempo a pagar como foi a ser contraída.”
Portugal pediu emprestado 90 mil milhões de Euros emprestados em 4-5 anos…
Chame o que quiser Lucky, só conheço uma arma contra o abuso – consciência. O seu/meu “totalitarismo”, face à dívida, sim, sim. desta forma rebentam com a possibilidade de um País inverter a tendência.
esses milhões recentes vieram tapar o buraco de muita asneira. mas andando mais atrás houve sempre euros a entrar. foi fartar.
No meu sonho, Lucky, sofrer por sofrer, preferia faze-lo dessa maneira, é verdade. mais justa, que é o que não está a acontecer.
Mas Governo, não há. Está ao serviço da dívida…
Voltando ao escudo não seria necessário financiamento externo, recorremos tanto ao financiamento externo precisamente porque não controlamos a moeda.
O escudo teria é que ser bastante desvalorizado e a dívida existente renegociada.
O caminho que seguimos actualmente é exactamente o mesmo da Grécia, apenas com ano e meio de atraso e vai levar-nos a cada vez mais pobreza e quem sabe mesmo ao fim da democracia.
A guerra civil na Grécia já esteve mais longe.
Com moeda própria geralmente os países ajudados pelo FMI ao fim de 2 ou 3 anos conseguem sair da crise.
Essa é a tese que no quadro político português apenas o PCP advoga. E que, na Grécia, só os comunistas e a extrema-direita neonazi sustentam. A nostalgia do regresso ao escudo é uma tentação perigosa por ser um caminho rápido e irreversível para empobrecer ainda mais o País.
É-me indiferente que partidos defendam o quê, é a minha opinião. Mas por acaso aqui há uns meses atrás só os “radicais” de esquerda defendiam a renegociação da dívida e hoje em dia até ex-ministros de Cavaco Silva já admitem não existir outro caminho.
Sim, o regresso do escudo vai empobrecer o país, ao contrário do euro que nos está a trazer esta riqueza toda, enfim…
Portugal atingiu o seu ponto alto a nível económico por altura de finais dos anos 90, a partir daí foi sempre a descer, claro que a introdução do euro logo a seguir a esta data não tem nada a ver com isso…ou terá?
Os pontos que aflora são relevantes. Também por isso, considero urgente a realização de um grande debate nacional sobre a manutenção no euro ou o regresso ao escudo. Mas, ao contrário de si, neste debate não me é indiferente quem defende o quê nem porquê. Todos os argumentos devem ser atendíveis. Mas nem todos são válidos.
A economia portuguesa foi destruida em 11/3/75, e nunca mais recuperou. As privatizações foram apenas um pretexto para o estado arrecadar uns largos milhões de contos, e agora de euros, vendendo o que não era seu.
Ainda por cima esse dinheiro não foi utilizado para investimento produtivo, mas sim para engordar ainda mais a máquina do estado.
Assim fomos andando durante trinta e tal anos, criando empregos não produtivos em termos do crescimento da economia, e à custa de enormes dividas, quer do estado, quer das empresas e das familias, (de um momento pró outro, deixàmos de usar escudos e passámos a usar marcos alemães), até que chegàmos a este lastimável estado de coisas. Ou seja, temos uma economia que não cresce há doze anos, sendo que nos ultimos três tem estado em recessão, uma divida total do país que deve ser superior a quatro ou cinco vezes o PIB, 60% da população vive de uma maneira ou doutra, do orçamento geral do estado, e vamos alegremente a caminho do milhão de desempregados, grande parte deles sem nenhuma hipotese de vir a encontar qualquer posto de trabalho, a curto, médio ou longo prazo.
A unica ideia que neste momento merece o consenso geral em Portugal, é que só podemos sair disto com crescimento economico, e aqui é que devia estar centrada a discussão: que investimentos devemos fazer, aonde é que se vai buscar o dinheiro para financiar esses investimentos, e como é que se criam 500-700 mil postos de trabalho num espaço de tempo relativamente curto, num país como o nosso.
Mas como se vê pela conversa, quer dos politicos, quer dos comentadores, quer dos media em geral, estes assuntos comezinhos não estão na “agenda”, nem se prevê que venham a estar. Passamos os dias a falar de mais tempo, mais dinheiro e juros mais baixos do que 3,6% (???), esquecendo-se que tudo isso tem de ser aprovado pelos parlamentos dos paises credores. Porque se a esquerda está à espera que os do norte da Europa venham pagar as nossas dividas, esperem sentados, quanto mais não seja, porque eles têm de trabalhar muito para pagar as deles!
O caminho é muito estreito, é incerto, mas se Portugal não cumprir o que acordou com a troika, principalmente ao nivel das reformas estruturais, parece-me que não resta caminho nenhum, a não ser passarmos a ter niveis de vida de há 40 ou 50 anos.
PS vai ser lançado um dia destes um livro do Ricardo Arroja que parece apontar soluções para estes e outros problemas. Aja alguém que fale de assuntos sérios neste país, e, passe a publicidade, estou com uma certa expectativa na sua leitura.
Concordo genericamente consigo, Alexandre: “Só podemos sair disto com crescimento economico, e aqui é que devia estar centrada a discussão”. Infelizmente, à boa maneira portuguesa, andamos entretidos com a espuma, quase só com a espuma.
“Que se lixem as eleições” também terá alguma coisa a ver com acabar com elas?
Se calhar tem, porque com eleições é que o seu autor nunca mais chega a lado nenhum…
Vamos primeiro discutir o lixar. Depois de bem lixados logo se vê se discutimos a saída do euro. Mas como já estamos lixados, se calhar nem vale a pena…
Os jornalistas espanhóis que têm feito reportagens ultimamente em Lisboa deixam-se de eufemismos e traduzem assim para os seus leitores: “Que se joda la troika!”
Um autêntico grito de guerra.
MITOS DE VOLTAR ESCUDO
MITO I: VOLTAR AO ESCUDO NÃO É SAIR DO EURO
O escudo a reaparecer deve apenas substituir o euro como moeda comercial e não nos mercados financeiros onde o euro terá de continuar a ser a moeda de referência.
Este esquema é o imediatamente anterior até à fixação do valor do escudo face ao
Portugal aderira ao E.C.U. (European currency unit/Sistema Monetário Europeu) em 1992 e
usou o Euro como moeda escriturária desde 1999.
Aqui o que se propõe é uma barreira através da moeda que indique claramente o poder de aquisição da sociedade portuguesa, a sua economia, sobre o exterior. Esse é o papel fundamental de uma moeda. E quanto menos estiver ligada a produtos financeiros maior é a capacidade que os elementos de uma comunidade têm de controlar o valor da sua economia. Fica imediatamente evidente que se consumirmos produtos Portugueses se está directamente a salvaguardar a riqueza interna.
Mantendo-se o Euro como moeda escriturária interbancária impede-se que o escudo seja manipulado facilmente pela especulação.
MITO II: A DIVIDA DA CASA PASSA PARA ESCUDOS
A dívida de residentes sobre sobre instituições nacionais e em contratos nacionais passa para Escudos, i.e., a moeda de curso legal, tal como passaram para Euros quando o escudo acabara.
A dívida sobre não residentes pode ou não passar para escudos dependendo de que lei nacional que gere o contrato e clausulas deste.
A dívida adquirida ao BCE e à CE mantém-se em Euros.
A dívida ao FMI mantém-se em direito de saque especial.
MITO III: NÃO HAVERÁ HIPER-INFLAÇÃO
Desvalorização cambial não significa perda de poder de compra. O poder de compra é algo que é variável (tal como o índice de preços) e readéqua-se à variação de preços. A desvalorização cambial faz uma descriminação positiva na inflação e os produtos afetados serão os importados, favorecendo as empresas portuguesas que passam a ter maior competitividade, isso estimula emprego e aumento de salários.
Por outro lado a injeção de liquidez, ou melhor o aumento da massa monetária com vista a financiar projectos de investimento que traduzam produção de bens transaccionáveis não implica desvalorização cambial. Na medida que essa nova emissão traduza real crescimento e aumento de transacções não dá lugar a perda global de valor da moeda.
MITO IV: A REEXPORTAÇÃO NÃO FICA MAIS CARA
Os preços de orçamentação para o exterior não serão afectados visto que serão sempre em moeda estrangeira de cariz internacional, euros ou dollars, se forem comprados nestas moedas mantém-se nessas moedas tabelados. A variação será no peso do trabalho que ficará mais barato.
MITO V: O PETRÓLEO e GÁS FICAM MAIS CAROS A ELECTRICIDADE NEM POR ISSO
Em termos energéticos Portugal nunca esteve tão próximo da autosuficiência. A electricidade é mantida cara devido às compensações dadas aos promotores de energias renováveis, as quais foram mal pensadas.
O petróleo e gás ficarão mais caros. Contudo um pouco de diplomacia poderá resolver parte do problema. Angola é o maior fornecedor de petróleo a Portugal, grande parte dele para reexportar para os EUA e Espanha. Portugal paga toda essa exportação com vinho e produtos alimentares. Pode-se fazer um acordo comercial com Angola para aceitarem um valor fixado em contrato (já o é) em escudos, os quais os Angolanos usariam para nos pagar o que importam. Se for unicamente para a quantidade de petróleo consumida em Portugal estamos a falar de um peg ou fundo de maneio pequeninho, mais pequeno que o para o escudo cabo-verdiano.
MITO VI: A POLITICA MONETÁRIA NÃO FICA NAS MÃOS DA POLÍTICA.
O Banco de Portugal tem um historial de competência e estabilidade que é inveja para qualquer banco central. Compete ao BdP solidificar a politica monetária em dialogo constante com o Governo, mas é o BdP que a decide em última instância.
Dentro dos tratados da UE não é possível a bancos centrais financiar o estado. Esse tipo de injecção de liquidez é muito perigosa. Contudo é urgente que haja emissão monetária para financiar projectos de investimento na produção de bens transácionáveis (não para serviços ou obras públicas).
MITO VII: DESVALORIZAR O CÂMBIO EM 20% NÃO É DESVALORIZAR O SALÁRIO EM 20%
A perda de poder de compra é muito menor do que a desvalorização cambial. O salário baixa para o exterior ma
Também por causa do extenso comentário que aqui deixa é que defendo o debate desta questão em Portugal. Mas um debate esclarecido e bem informado, que supere o eterno “achismo” nacional e o nível da conversa de barbeiro.