Enchemos os horários das crianças. Creio que a maioria já não brinca o que eu brinquei. Outros tempos, dizem-me. Não são tempos para as coisas básicas, sendo que uma delas é a leitura. Diz-se que os jovens lêem, não deixaram de ler. Lêem com o dedo a deslizar pelos ecrãs, a luz branca a garantir ligação ao universo. Não lêem “O Jogador” de Fiódor Dostoiévski, não mergulham com entusiasmo na “Tragédia da Rua das Flores” ou nos “Maias”. Os Maias podem ser entendidos através de um pequeno livro de apoio à leitura que resume a história e personagens. Como ninguém entende o que quer dizer “apoio à leitura”, por isso serve perfeitamente.
Não temos tempo para ler, porque não temos condições para aguentar o silêncio. Precisamos de barulho. Precisamos de verificar o nosso smartphone com frequência, talvez tenhamos perdido alguma coisa. Como aquelas pessoas que abrem o frigorífico sabendo que não foram ao supermercado, mas na esperança de que alguma coisa se materialize. E, por isso, estamos atentos a esta ligação constante ao mundo, lemos as gordas, conseguimos a proeza de ver pequenos vídeos já sem som. E o som é crucial por ser o maior condutor emocional que temos, mas também isso parece não importar muito. Diz-se que os livros são caros. São menos caros que jogos, que bilhetes de festivais e, para mais, encontram-se verdadeiras pechinchas em alfarrabistas e há ainda livros à borla nas bibliotecas. É difícil promover a leitura. Existe um pretexto permanente que diz sim-importa-mas-agora-não-dá.
Se considera que a educação é cara, experimente a ignorância, afirmou Derek Bok, antigo presidente da universidade de Harvard. Ora, tentem substituir a palavrinha educação por cultura e o resultado é o mesmo.
Isaac Asimov, um dos mais importantes escritores de ficção científica de sempre, escreveu: “Se o conhecimento pode criar problemas, não é através da ignorância que podemos solucioná-los”. Não conseguir ler, não ter tempo, é uma forma de não conhecimento, logo de fracas soluções. Tudo isto vem a propósito do quê? Vem aí a feira do livro de Lisboa, em Setembro teremos a do Porto.
Vá lá comer uma fartura, pois é a tradição, mas vá também comprar livros para si, para as suas crianças, para oferecer no natal. Para ler. Com tempo. Desligado do resto, na certeza de que os livros são o melhor bilhete de viagem que existe. Podemos ir ao espaço, ao século XIX, à lua, andar de submarino, subir às pirâmides, enfrentar uma guerra. O livro é a melhor forma de entendermos o mundo e de reflectirmos. Para reflectir, lá está, é preciso tempo. E quanto tempo tem o tempo que temos nos dias que correm? Parece que é curto. Demasiado curto para o que é manifestamente urgente.

O tempo, como tudo o resto, tem o valor que lhe dermos. Para uns ele é linear. São os que o medem ao espelho. Para outros ele é um eterno retorno. Como o ciclo das Estações.
E depois existem outros que dentro deles são como o Ivan, como o Aliotcha, como o Corto Maltese que não necessitam da vida de conto de outros para da deles fazerem um romance de ideias. Esses que se limitam a viverem na coragem de liberdade, fazendo do repouso, após a aventura, o seu narcótico real.
“Vivemos na absurda velocidade furiosa, não temos tempo.”
Muito mal visto.
Lembra-se de quando não havia internet, nem telefones, nem meios de transporte? Eu lembro. Aí é que faltava o tempo. Quando ia à minha aldeia (o que acontecia muito raramente) da estação de caminho de ferro até lá eram 2 horas a pé pelos matos com a bagagem às costas (às minhas e às de quem me ia esperar). Se alguém adoecia, arranjava-se um rapaz que ia de bicicleta à vila próxima e o médico aparecia a cavalo umas boas horas depois. Uma urgência para uma criança e ia-se com ela ao colo a pé até à vila. Eram umas duas horas a caminhar com o peso do garoto (aconteceu comigo, sendo eu o garoto, não o que carregava). Não havia INEM nem ambulâncias. Eu, nesse tempo em que não havia velocidades furiosas, gostava de saber, no Verão, quem ganhava a etapa da volta a Portugal. Esperava dias para o saber. Não havia televisão nem rádio nem telefone. De facto nem electricidade. Nada de velocidades furiosas e muito menos absurdas. Em caso de acidente a ambulância não vinha em 10 minutos. Hoje se demorar mais de 10 minutos a aldeia põe-se em pé de guerra. Não tenho saudades do tempo em que o tempo não fluía.
A questão, penso eu, não é ter saudades do tempo em que o tempo não fluía mas sim não ter tempo para deixar o tempo fluir.
Plenamente de acordo. Vi uma jovem entrar no restaurante agarrada ao smartphone. Ela conseguiu entrar, sentar-se, comer, e saír, sem tirar os olhos do ecrã. Fascinante.
Não era a única, tirando o que parecia um parzinho de namorados estava tudo agarrado aos smartphones. Triste.
A tecnologia que nos prometeu abrir as portas do mundo fecha-nos num cantinho, numa zona de conforto, onde os algoritmos nos dão a ver o que acham que gostamos, incompatibilizando-nos com quem não está na mesma zona. É mau.
Os efeitos colaterais são óbvios – estava a passar na tv algo sobre o imposto adicional sobre combustíveis, o tal que era suposto ser progressivo e supostamente já devia ter desaparecido. A pequena sequência de asneiras que vi mostra o que dá andar de olhos fechados. Estava um senhor de gravata a dizer que se baixasse o imposto teria que subir outros – não ocorreu ao repórter perguntar porquê. E nas contas apresentadas pela tv a asneira continuou – em cada 100€ que gastamos em combustíveis 62€ são imposto, logo, pagamos 62% de imposto. A sério? É que se o preço base do combustível são 48€, o imposto é de 109%.
Portanto à força de deixarmos os algoritmos pensar por nós, deixámos de pensar?
Estimado António:
Se a jovem fizesse a mesma figura mas com um livro (suponhamos “O Jogador” de Fiódor Dostoiévski, ou outro) dir-se-ia: que intelectual, como os nossos jovens gostam de ler. Bestial!! Mas se estiver a ler o mesmo texto no telemóvel passa de bestial a besta. Porquê?
Bem, no caso particular a jovem não estava apenas a ler – pelo modo frenético como teclava podia, eventualmente, estar a escrever a nova obra-prima da literatura, mas duvido. Podia, claro, estar no texting com o Fiódor. Também duvido.
Por outro lado, num jantar de família (que era o que aquilo era), ir tudo para o restaurante de Dostoiévski em livro, era ser besta à mesma. Aliás, jantares de família, de amigos, é para estar com a família ou os amigos. Sozinho ainda vá que não vá, mas em companhia, nem o CM, nem A Bola, nem Dostoiévski. É tudo má educação.
Zeca:
Tenho tido esse problema. Enquanto tomo a bica costumo ler no telemóvel artigos de muito interesse e até coisas complicadas. Mas já tenho complexos: quem me olha deve estar a pensar que sou uma besta. Assim tenho dificuldade em aproveitar os tempos livres para ler coisas sérias e sei que se lesse numa coisa chamada livro seria elogiado por todas as Patrícias em vez de ser referido como besta. Não será possível inventar um telemóvel que tenha a aparência de livro?
Vejo algumas pessoas (deviam ser mais) a ler no autocarro, no café, na praia, em salas de espera. Em livro ou em Kindle. Não considero isso falta de educação.
Num restaurante, com familiares, com amigos, 4 em 5 no facebook, considero uma falta de educação.
Talvez as pessoas não queiram falar umas com as outras, se é assim não saiam juntas.
Zeca colocou uma pergunta que também eu ia colocar, pelo que evitando a repetição avanço para outra perspectiva das contas – que, espero, não retire força à sua excelente pergunta final.
Os impostos equivalem a 129,2% do preço-base (o preço final é 208,5% o preço-base) mas o consumidor preocupa-se menos com o preço-base e mais com o preço final porque é este que efectivamente lhe sai do bolso – assim, do que pagamos 62% vai para impostos, sim.
62% escandaliza menos que 129,2%, mas é para esse número que temos de olhar, essa é a margem de lucro do estado.
Sarin, ainda me lembro do Medina Carreira desmontar o aumento de “3%” num IVA – que passou de 12% para 15%. O aumento é de 25% no imposto, mas 3% é mais “macio”. Depois disso lá começaram a dizer “3 pontos percentuais”, que muitos acham que são 3%!
Eu conheço a maneira do português fazer contas – vai comprar uma camisa de 100, chega à loja e há promoção, a camisa custa 75. Poupou 25!
Não. Não poupou nada. Gastou 75.
Pelo contrário, escandaliza mais – ou devia escandalizar – porque nem todos têm noção do custo de produção dos bens, mas certamente todos têm noção do preço dos bens que adquirem.
As pessoas pagam o preço final, e é sobre esse que fazem contas; portanto é sobre este que se têm que estabelecer as relações de comparação. Agora, e como muito bem referiu inicialmente, é preciso que as pessoas saibam fazer as contas. Eu diria que é preciso que as pessoas saibam fazer as contas de dedução dos impostos e saibam colocar questões e fazer deduções políticas dos valores apurados.
A pessoa gastou 75 se não precisar da camisa; se precisar, não gastou: investiu 😉
Ler é boa actividade para ocupar tempos livres. Leio menos do que gostaria porque a vida não se faz a ler. A leitura, para alguns, é quase profissão, ajuda-os, mesmo economicamente falando, a viver; para outros é ocupação de tempo que se faz livre e se ganha aos poucos para depois o investir na leitura. Logo, é um tempo mais curto. Mas nunca qualquer livro que eu tenha lido, ou por mais que dele tenha gostado, me deu a experiência de que a Patrícia fala, “Podemos ir ao espaço, ao século XIX, à lua, andar de submarino, subir às pirâmides, enfrentar uma guerra”.
Por exemplo, julgo eu que nunca assomei a nenhuma pirâmide além das desenhadas em geometria, que apenas ver e estar numa pirâmide egípcia supera largamente o que qualquer leitura possa dar acerca dela. No entanto, reconheço que os livros nos mostram muitos lugares e situações. E arrisco que esses que imaginamos ao lê-los, não são os que existem. Porque sobre o imaginário do autor que os descreveu existe também o do leitor que os leu e idealizou. E isso é que sim, admiro nos livros e nos seus leitores – são encontros de imaginação em cadeia.
Sem duvida. Eu, por exemplo fiz uma faculdade com enciclopedias atrás, dicionários, livros e fotocopias. Agora os miudos vêem tudo na net. E se for preciso lêem os Maias por lá. Quais livros?
Os tempos mudam.
Um livro não se define pelo suporte, digitalizado não deixa de ser livro – seja com extensão pdf, m4b ou outra.
Se as pessoas lerem livros digitalizados, não será mau – nem todos apreciam o toque e o cheiro e o som dos livros. Porque a questão não é o suporte, é a falta de hábitos de leitura.
Mas afinal ninguém respondeu a “Quanto tempo tem o tempo”…!
O que interessa no tempo é sermos donos dele, sermos livres de fazer com o tempo aquilo que queremos – lermos livros ou lermos a net.
Hoje, em pleno século XXI ainda há gente que não tem acesso ao “seu tempo” ao tempo que lhe foi distribuído pelo seu direito a nascer…
De resto, o Tempo é precioso, só temos este que está a passar; e , poder-se fazer com ele o que se quiser, ainda é um luxo a que nem todos têm acesso…
Leiam a net e leiam livros, tudo é precioso e faz parte “deste tempo”…
Agradeçam serem livres…