Quando o PCP era contra as greves


Pedro Correia,

“Os trabalhadores e trabalhadoras de todos os sectores, empresas e serviços, com vínculos permanente ou precários, têm motivos para aderir à greve geral de 24 de Novembro”, proclama o PCP na primeira página do seu jornal oficial. Sob a palavra de ordem “a adesão de cada um faz a força de todos”.

Isto sucede agora. Mas já houve um tempo em que o PCP era contra a realização de greves em Portugal. Um tempo em que — por coincidência ou talvez não — os comunistas ocupavam pastas ministeriais no Governo. Convém recordar aos mais desmemorizados, por exemplo, uma resolução do Comité Central (CC) do PCP datada de 17 de Junho de 1974 em que a direcção do partido se insurgia contra a realização de uma greve nos CTT. Passo a transcrever parte desse longo comunicado, naturalmente com a devida vénia. Os sublinhados a vermelho são da minha responsabilidade.

 

«O PCP alerta contra o perigo de reivindicações irrealistas e chama particularmente a atenção para as exigências de súbita e radical diminuição da semana de trabalho, que em alguns casos desceria a níveis não praticados mesmo nos países mais desenvolvidos. Semanas de 35/36 horas não correspondem ao nível do actual desenvolvimento económico. As reivindicações irrealistas conduzem a um beco sem saída, à perturbação do equilíbrio económico ou ao aumento dos preços e ao agravamento da inflação que anulam os aumentos de salários alcançados.

As formas de luta devem ser cuidadosamente examinadas antes de decididas. No actual momento político, a greve só deve ser utilizada na luta por reivindicações sérias e ponderadas, depois de esgotados todos os outros recursos. Os trabalhadores devem fazer tudo para que não tenha lugar em sectores-chave da vida económica dadas as profundas e desfavoráveis repercussões que pode ter na situação económica e dadas as graves reacções que pode provocar. O CC do PCP desaprova a greve dos CTT (…) Desaprova a greve em outros sectores vitais da vida económica e social do País e apela para que os trabalhadores tenham plena consciência dos graves riscos que correm e fazem correr ao processo de democratização iniciado em 25 de Abril. (…) Chama com solenidade a atenção dos trabalhadores para o facto de que a desorganização da economia, a paralisação de transportes e outros meios vitais da vida económica criam condições favoráveis para a reacção e a contra-revolução.»

 

Um prodígio de hipocrisia, esta posição dúplice de um partido que quando está na oposição incentiva os trabalhadores a fazer greve mas quando está no Governo recomenda aos mesmíssimos trabalhadores que não utilizem tal forma de luta. É isso, aliás, que sucede nos países ainda dirigidos por partidos comunistas: China, Coreia do Norte, Cuba, Laos e Vietname. Todos condicionam fortemente ou interditam o direito à greve — naturalmente, sem um sussurro de protesto do PCP. A nula adesão à luta faz a fraqueza de todos.

21 comentários em “Quando o PCP era contra as greves”

  1. Carissimo,

    Saudades desses tempos, sim. Com 8 anos quão inocente era…

    A vida continuou, e dela não me posso queixar.

    Forte abraço e bom fds,

  2. “Mudam-se os tempos mudam-se as vontades, muda-se o ser muda-se a confiança…”
    Ele há coisas a que fujo de cogitar.
    Ele há uma inquietude que nos revolve os neurónios e que é salvífica até.
    Mas, no domínio do inteligível, tentar compreender o ininteligível dá-me náuseas!
    Não quero, pura e simplesmente, fazer esse esforço.
    Parabéns pelo “post”.

  3. Ui! A patética hipocrisia destes nossos pobres comunas até dói!
    Por que raio não desandam estes Carvalhos da Silva , Gerónimos e quejandos abencerragens do implodido comunismo – o tal que era o Farol do mundo – para a Coreia do Norte ou para Cuba ou para o Vietname?
    Vão embora! Desamparem-nos a loja e vão morrer longe! O país agradece e ficará mais despoluído

  4. Uma tremenda desonestidade intelectual. Um post ridículo de teor deturpado e descontextualizado. O objectivo era o título, isso sim, já o que está por baixo é o menos… mentezinha tão pequena.

      1. Olhe caro Pedro Correia.
        Em junho de 1974 estava a tratar de um problema muito mais grave, acabar com a guerra na Guiné onde me encontrava.
        E mais não digo porque os cães que ainda hoje ladram, já ladravam e roubavam na altura.

  5. Os tempos mudam, na altura saíamos de um período ditatorial, em que os direitos dos trabalhadores eram nulos , como direito a férias, à saúde, à reforma na velhisse, etc. Foi depois do 25 de Abril que essas coisas foram consubstanciadas na forma de lei. O direito à greve não existia até então apesar de haver sempre greves e grandiosas orientadas pelos Comunistas, pelo direito ao trabalho, porque a arbitrariedade era permanente e transversal. O horário de trabalho de 48 horas figurava na lei, mas não nos contratos de trabalho. O país tinha de resolver direitos mais importantes do que as tais 35 horas semanais de horário de trabalho, que nunca existiram, salvo na banca. Naturalmente que tinha de haver alguma contenção reivindicativa. Hoje a situação é diferente, o desenvolvimento económico existe, se temos dificuldades financeiras e orçamentais é porque alguém andou a gastar dinheiro nosso, dos impostos, que até nem tinhamos, mas pedia-se emprestado à banca nacional e internacional, os tais mercados, para fazer auto-estradas, outras um pouco mais ao lado, para fazer edifícios monstruosamente imponentes para a Expo 98, que não servem para nada, o Pavilhão Atlantico acolhe por vezes, de longe a longe o Tony Carreira e Congressos de partidos, de resto está tudo às moscas a dar prejuízo, os estádios para o euro 2004 são exemplo mais que evidente da falta de critério quanto à utilização dos dinheiros públicos e do mais descarado desrespeito para com este já muito sofrido Povo. Portugal tem dinheiro, está mal distribuído e é consequentemente mal gasto, veja-se o exemplo de Gaia, onde um “quadrilheiro” da “quadrilha” do PSD, hipotecou as receitas da Câmara de Gaia por mais de dez anos, e após as obras megalómanas, que estão bem À vista, nem dinheiro tem para tapar os milhões de buracos que fazem da rede viária do concelho pouco menos de uma picada no mato, ele coloca semáforos e depois, três anos após tira os semáforos e constroi rotundas, se o dinheiro fosse dele ele teria logo construído as rotundas, ou comprou os semáforos a algum amigo e agora mandou construir as rotundas a outro, talvez dos empreiteiros que lhe asseguram os meios para desenvolver as suas campanhas milionárias. Tenho dito …

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