
A roda andava ali, a namorar-me há vários dias. Passava pela feira popular, junto à marina de Lagos, e aquelas luzes tocavam-me de nostalgia: serão após serão, aumentava a vontade de dar uma voltinha. Como um irresistível regresso aos carrosséis da infância.
![thumbnail_20200826_203612[2].jpg thumbnail_20200826_203612[2].jpg](https://delito.brucke-multimedia.com/images/2020/21894718_IQRRA.jpeg)
Por imediata associação de ideias, senti-me remetido ao Prater, em Viena – àquela roda gigante onde foi rodada uma cena crucial de um dos meus filmes favoritos: O Terceiro Homem, com Orson Welles e Joseph Cotten. Recordo a emoção de me sentar numa daquelas cabinas que figuram na história do cinema, com o célebre parque de diversões a diminuir de tamanho aos nossos olhos enquanto a roda ia girando com deliberada lentidão.
![thumbnail_20200826_204642[1].jpg thumbnail_20200826_204642[1].jpg](https://delito.brucke-multimedia.com/images/2020/21894724_fOvOr.jpeg)
Tal como aqui. Sem a magnífica partitura de Anton Karas em fundo, mas com uma visão soberba desta cidade algarvia que me acolhe como se estivesse em casa. Vista de vários ângulos. Desde logo o da marina, que ganha um encanto muito especial quando cai a noite.
![thumbnail_20200826_204350[2].jpg thumbnail_20200826_204350[2].jpg](https://delito.brucke-multimedia.com/images/2020/21894727_yy0dC.jpeg)
O ângulo inverso não é menos atraente. Com a ribeira pronta a desaguar no oceano, ali bem próximo, e a sensual urbe perseguindo-a nesta rota – orgulhosa dos seus pergaminhos históricos, consciente do fascínio que continua a exercer sobre os forasteiros. Mesmo em tempo de sustos pandémicos.
Voltei a pôr os pés no chão com refrescante alegria. Nada de especial tinha acontecido, apenas isto: durante uns minutos, senti-me miúdo outra vez.

The Harry Lime Experience: https://lishbuna.blogspot.com/2008/02/st reet-art-graffiti-etc-xi-neste-post.html
Grato pela partilha, João. 950927.html
“Laura” é outro dos meus filmes de estimação. Tanto que já escrevi dois textos sobre ele, em períodos diferentes.
Um nem sei bem onde mora: hei-de resgatá-lo, lá onde estiver. O outro, publiquei-o aqui:
https://delitodeopiniao.blogs.sapo.pt/1
Estou a ver que discordamos pouco quanto aos clássicos… assim não tem graça…:-) https://lishbuna.blogspot.com/2007/07/la ura-realizacao-de-otto-preminger.html
Aliás, o Laura e O Terceiro Homem têm um ponto em comum: até cerca de meio de ambos, os protagonistas – Harry e Laura – estão, aparentemente, mortos e a única coisa que os identifica são os respectivos temas musicais.
…
“Estou a ver que discordamos pouco quanto aos clássicos”
Não sei que disparate terei feito neste comentário mas saiu como “anónimo”.
Bem observado, João: «Harry e Laura estão, aparentemente, mortos e a única coisa que os identifica são os respectivos temas musicais.»
Concordo em absoluto.
É um elo entre estes dois magníficos filmes da década de 40 – um norte-americano, outro inglês – muito bem realizados, muito bem interpretados, muito bem escritos, muito bem fotografados, muito bem envolvidos musicalmente. Como se o tema musical, em ambos os casos, funcionasse também (ou sobretudo) como personagem alternativo ou de substituição.
Ah, e com duas belíssimas mulheres. Gene Tierney, Alida Valli. Com lugar cativo no panteão pessoal de qualquer cinéfilo.
O meu pai tinha uma profunda admiração por Orson Welles.
Gostava muito de O Terceiro do Homem e alinhava na conspiração de que o filme tem tudo de Orson Welles e nada de Carol Reed.
Tinha uma pancada pelo tema musical do filme, The Harry Lime Theme, tocado pela cítara de Anton Karas, e não lhe restava qualquer dúvida quando dizia que o filme foi feito para aquela música.
Ainda me lembro do 78/rpm que, na altura, comprou.
Tinha no lado B The Cafe Mozart Waltz.
Junte-se-lhe a paixão assolapada por Alina Valli, e o meu pai nunca leu o que João Bénard da Costa escreveu: «os olhos mais verdes que já vi, uma testa altíssima, uma boca sôfrega, perfil suavíssimo e um corpo que, sem ser vistoso ou agressivamente sensual, tinha as proporções feitas para a sedução.»
Altiva e orgulhosa, Alida Valli deixa o cemitério de Salzburgo e caminha estrada fora, indiferente à boleia que Joseph Cotten lhe oferece. Em fundo ouve-se a cítara de Anton Karas, até Alina Valli se perder, sublimemente, na linha do horizonte.
«Percebo que a imagem só se moveu, ou seja, só houve cinema, para nos dar movimentos desses e mulheres assim», para voltar a citar João Bénard da Costa.
No Prater, em Munique e no London Eye. Apenas três , mas memoráveis ferris wheel rides. Esta em Lagos à noite ( só em Munique e com o panorama algo desfocado) promete. E fica ali a 10 mjnutos já na próxima semana
Uns a virem, outros a irem. Como na roda gigante, sempre a rodar.
Boas férias, Maria Dulce.
O pai tinha uma profunda admiração por Orson Welles.
Gostava muito de O Terceiro do Homemm e alinhava na conspiração de que o filme tem tudo de Orson Welles e nada de Carol Reed.
Tinha uma gosto secreto pelo tema musical do filme, The Harry Lime Theme, tocado pela cítara de Anton Karas, e não lhe restava qualquer dúvida quando dizia que o filme foi feito para aquela música.
Ainda se lembra do 78/rpm que, na altura, o pai comprou.
Tinha no lado B The Cafe Mozart Waltz.
Junte-se-lhe a paixão assolapada que tinha por por Alina Valli, e o pai nunca leu o que João Bénard da Costa escreveu: «os olhos mais verdes que já vi, uma testa altíssima, uma boca sôfrega, perfil suavíssimo e um corpo que, sem ser vistoso ou agressivamente sensual, tinha as proporções feitas para a sedução.»
Altiva e orgulhosa, Alida Valli deixa o cemitério de Salzburgo e caminha estrada fora, indiferente à boleia que Joseph Cotten lhe oferece. Em fundo ouve-se a cítara de Anton Karas, até Alina Valli se perder, sublimemente, na linha do horizonte.
«Percebo que a imagem só se moveu, ou seja, só houve cinema, para nos dar movimentos desses e mulheres assim», para voltar a citar João Bénard da Costa.
É interessante essa afirmação de que o filme foi feito de propósito para aquela música. ‘Si no è vero, è ben trovatto’.
A cena final, elejo-a entre as dez melhores de sempre da história da Sétima Arte. Uma cena sem palavras, só com música: cinema em estado puro.
Só discordo parcialmente da desvalorização do papel de Carol Reed. Há meses vi, na Cinemateca, um filme que ele realizou dois anos antes deste – “Odd Man Out”, intitulado “A Casa Cercada”, em português – e já contém muitas características visuais d’ “O Terceiro Homem”, nomeadamente os planos inclinados, o jogo de sombras e as cenas em contra-picado. Foi um dos grandes papéis de James Mason no cinema.
Um filme que recomendo com todo o gosto.