Quando cai a noite


Pedro Correia,

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A roda andava ali, a namorar-me há vários dias. Passava pela feira popular, junto à marina de Lagos, e aquelas luzes tocavam-me de nostalgia: serão após serão, aumentava a vontade de dar uma voltinha. Como um irresistível regresso aos carrosséis da infância.

 

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Por imediata associação de ideias, senti-me remetido ao Prater, em Viena – àquela roda gigante onde foi rodada uma cena crucial de um dos meus filmes favoritos: O Terceiro Homem, com Orson Welles e Joseph Cotten. Recordo a emoção de me sentar numa daquelas cabinas que figuram na história do cinema, com o célebre parque de diversões a diminuir de tamanho aos nossos olhos enquanto a roda ia girando com deliberada lentidão.

 

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Tal como aqui. Sem a magnífica partitura de Anton Karas em fundo, mas com uma visão soberba desta cidade algarvia que me acolhe como se estivesse em casa. Vista de vários ângulos. Desde logo o da marina, que ganha um encanto muito especial quando cai a noite.

 

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O ângulo inverso não é menos atraente. Com a ribeira pronta a desaguar no oceano, ali bem próximo, e a sensual urbe perseguindo-a nesta rota – orgulhosa dos seus pergaminhos históricos, consciente do fascínio que continua a exercer sobre os forasteiros. Mesmo em tempo de sustos pandémicos. 

Voltei a pôr os pés no chão com refrescante alegria. Nada de especial tinha acontecido, apenas isto: durante uns minutos, senti-me miúdo outra vez.

10 comentários em “Quando cai a noite”

      1. Estou a ver que discordamos pouco quanto aos clássicos… assim não tem graça…:-) https://lishbuna.blogspot.com/2007/07/laura-realizacao-de-otto-preminger.html

        Aliás, o Laura e O Terceiro Homem têm um ponto em comum: até cerca de meio de ambos, os protagonistas – Harry e Laura – estão, aparentemente, mortos e a única coisa que os identifica são os respectivos temas musicais.

        …

          1. Bem observado, João: «Harry e Laura estão, aparentemente, mortos e a única coisa que os identifica são os respectivos temas musicais.»
            Concordo em absoluto.
            É um elo entre estes dois magníficos filmes da década de 40 – um norte-americano, outro inglês – muito bem realizados, muito bem interpretados, muito bem escritos, muito bem fotografados, muito bem envolvidos musicalmente. Como se o tema musical, em ambos os casos, funcionasse também (ou sobretudo) como personagem alternativo ou de substituição.
            Ah, e com duas belíssimas mulheres. Gene Tierney, Alida Valli. Com lugar cativo no panteão pessoal de qualquer cinéfilo.

  1. O meu pai tinha uma profunda admiração por Orson Welles.

    Gostava muito de O Terceiro do Homem e alinhava na conspiração de que o filme tem tudo de Orson Welles e nada de Carol Reed.

    Tinha uma pancada pelo tema musical do filme, The Harry Lime Theme, tocado pela cítara de Anton Karas, e não lhe restava qualquer dúvida quando dizia que o filme foi feito para aquela música.

    Ainda me lembro do 78/rpm que, na altura, comprou.

    Tinha no lado B The Cafe Mozart Waltz.

    Junte-se-lhe a paixão assolapada por Alina Valli, e o meu pai nunca leu o que João Bénard da Costa escreveu: «os olhos mais verdes que já vi, uma testa altíssima, uma boca sôfrega, perfil suavíssimo e um corpo que, sem ser vistoso ou agressivamente sensual, tinha as proporções feitas para a sedução.»

    Altiva e orgulhosa, Alida Valli deixa o cemitério de Salzburgo e caminha estrada fora, indiferente à boleia que Joseph Cotten lhe oferece. Em fundo ouve-se a cítara de Anton Karas, até Alina Valli se perder, sublimemente, na linha do horizonte.

    «Percebo que a imagem só se moveu, ou seja, só houve cinema, para nos dar movimentos desses e mulheres assim», para voltar a citar João Bénard da Costa.

  2. No Prater, em Munique e no London Eye. Apenas três , mas memoráveis ferris wheel rides. Esta em Lagos à noite ( só em Munique e com o panorama algo desfocado) promete. E fica ali a 10 mjnutos já na próxima semana

  3. O pai tinha uma profunda admiração por Orson Welles.

    Gostava muito de O Terceiro do Homemm e alinhava na conspiração de que o filme tem tudo de Orson Welles e nada de Carol Reed.

    Tinha uma gosto secreto pelo tema musical do filme, The Harry Lime Theme, tocado pela cítara de Anton Karas, e não lhe restava qualquer dúvida quando dizia que o filme foi feito para aquela música.

    Ainda se lembra do 78/rpm que, na altura, o pai comprou.

    Tinha no lado B The Cafe Mozart Waltz.

    Junte-se-lhe a paixão assolapada que tinha por por Alina Valli, e o pai nunca leu o que João Bénard da Costa escreveu: «os olhos mais verdes que já vi, uma testa altíssima, uma boca sôfrega, perfil suavíssimo e um corpo que, sem ser vistoso ou agressivamente sensual, tinha as proporções feitas para a sedução.»

    Altiva e orgulhosa, Alida Valli deixa o cemitério de Salzburgo e caminha estrada fora, indiferente à boleia que Joseph Cotten lhe oferece. Em fundo ouve-se a cítara de Anton Karas, até Alina Valli se perder, sublimemente, na linha do horizonte.

    «Percebo que a imagem só se moveu, ou seja, só houve cinema, para nos dar movimentos desses e mulheres assim», para voltar a citar João Bénard da Costa.

    1. É interessante essa afirmação de que o filme foi feito de propósito para aquela música. ‘Si no è vero, è ben trovatto’.

      A cena final, elejo-a entre as dez melhores de sempre da história da Sétima Arte. Uma cena sem palavras, só com música: cinema em estado puro.

      Só discordo parcialmente da desvalorização do papel de Carol Reed. Há meses vi, na Cinemateca, um filme que ele realizou dois anos antes deste – “Odd Man Out”, intitulado “A Casa Cercada”, em português – e já contém muitas características visuais d’ “O Terceiro Homem”, nomeadamente os planos inclinados, o jogo de sombras e as cenas em contra-picado. Foi um dos grandes papéis de James Mason no cinema.

      Um filme que recomendo com todo o gosto.

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