Andar à boleia, no seu sentido literal, está fora de moda, diria mesmo em vias de extinção.
Um tio meu que estudou em Lisboa era assim que ia e regressava. Esta foi durante décadas uma forma comum de um jovem se deslocar pelo país. Viajava-se sem despesa e em troca fazia-se companhia ao condutor que assim tinha alguém com quem conversar. Com o seu apurado sentido estético, o meu tio deixou-nos um incrível espólio fotográfico, no qual consta uma fotografia que nos transporta para os anos 60, ali à beira da estrada para Lisboa que na altura ainda passava à frente do Mosteiro de Alcobaça.
Foto Rafael Coelho de Sousa
Várias décadas mais tarde, a boleia continuava a ser uma forma regular de transporte para gente mais nova. O meu irmão e o meu primo, uns anos mais velhos do que eu, quando estudaram em Lisboa era também assim que iam e vinham a casa no fim de semana. De cada boleia traziam uma história diferente, quase sempre divertida. Pelo menos era divertida a forma como a relatavam.
Num verão, no final dos anos 80, fizeram-se à estrada em direção à Suíça. Iriam apanhar morangos para depois gastar o dinheiro dos morangos num Interrail pela Europa. Esse era o plano. O que aconteceu foi diferente e, apesar de terem chegado a Geneve, a oportunidade de emprego não se concretizou. Os morangos, esses, foram apanhados por outras mãos ou então comidos pelos pássaros. As parcas poupanças que levavam mal lhes permitiu chegar a casa, cheios de saudades de um prato de sopa, de um banho e de, finalmente, poderem dormir descalços. Trouxeram dois ou três rolos de 24 fotografias para revelar e inúmeras horas de relatos de episódios que me fizeram concluir que já conhecia todos os cruzamentos de nossa casa até ao Lago Leman. Importa lembrar que neste tempo ainda não existiam telemóveis e, durante a viagem, as notícias que chegavam a casa tinham a forma de um postal ilustrado com uma semana de atraso. Além disso terão feito dois ou três telefonemas a partir de cabines telefónicas, ávidas sorvedoras de moedas de elevado valor cambial.
No dia em que eles partiram, já depois de terem apanhado a primeira boleia de casa até à EN1, lembro-me do meu pai ter dito que eles iriam viver uma aventura, o que foi uma insuficiente tentativa de conforto das preocupações da minha mãe. Não sei quando ouvi isso lá por casa, mas mais que uma vez foi assunto a máxima de que os filhos são, ou devem ser, criados para o mundo e não para os seus pais, o que pode parecer um detalhe mas não o é.
Uns anos mais tarde chegou a minha vez de ir e vir à boleia para Lisboa. A distante aura de aventura de ir para a beira da estrada nacional de polegar estendido tornou-se realidade. De cada viagem sobrava uma estória completamente diferente da anterior. Era como tirar bombons coloridos à sorte de dentro de um pote. Os sabores variavam mas eram sempre agradáveis. Desde automóveis topo de gama até carros que hoje seriam imediatamente apreendidos na inspecção, passando por camiões de mercadorias, posso dizer que me calhou de tudo um pouco. Apanhei boleias de dia, de noite, à chuva e com sol e, literalmente, do Norte ao Algarve.
Ninguém que circule a 120 km/h pára para dar boleia, por isso importa escolher uma zona onde os carros circulam devagar. Essa lógica torna (ou tornava…) as portagens num bom local. Normalmente no final da semana quando regressava a casa apanhava o 45 da Carris até ao Prior Velho, e seguia a pé até à extinta portagem de Sacavém, onde todos os carros que seguiam para norte tinham de parar.
Quando o destino final de quem apanha boleia era diferente do de quem a dava, importava saber o sitio onde sair. Por vezes a ligação a pé até chegar a uma zona onde se pudesse apanhar a boleia seguinte poderia demorar algum tempo e obrigar a caminhar uns quilómetros adicionais. Ao andar à boleia não se pode ter um horário rígido. Pode ser comparado a um velejar pela estrada fora, em que tanto se apanha vento pela alheta e mar direito como vagas altas e marés contrárias. Tenho saudades de não ter uma hora para chegar ao destino.
Um dia, antes de um período de exames, saí de casa pela manhã para ir para Lisboa começar um daqueles retiros que quem adia o estudo para a semana anterior às frequências bem conhece. Antes de almoço já tinha chegado ao destino que era São Domingos de Benfica, a poucos metros da Buraca. Quando tentei abrir a porta reparei que tinha deixado a chave em casa. Azar do caraças. Regressei ao Rossio pela linha de Sintra, meti uma bucha num tasco na estação, apanhei o 45 até ao fim da linha no Prior Velho, segui a pé até à portagem, novamente boleia até casa onde tinha ficado a chave do apartamento. Repeti depois o trajecto da manhã e cheguei finalmente a casa, à hora de jantar. Com 400 km distribuídos por três boleias podia finalmente começar a estudar.
Um dos episódios mais memoráveis que tenho com boleias passou-se durante uma ida ao Porto para assistir ao concerto que os Pixies deram no Coliseu nos idos de 1991. O Blitz classificou-o então como o concerto do ano.
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O concerto foi de facto incrível mas não consigo desligar as memórias que dele guardo do bouquet dos diferentes imprevistos que adoçam a boca de quem aprecia sentir-se como uma rolha a flutuar no oceano que é a vida.
Desta vez éramos três e o local que escolhemos para pedir boleia não era nada favorável. Após algum tempo lá parou um carro mas só podia levar um de nós. Não quisemos perder a oportunidade e por isso seguimos separados. Tínhamos assim o desafio adicional de nos encontrarmos no Porto, cidade que desconhecíamos. Neste tempo os telemóveis eram ainda coisa de ficção científica.
Os dois restantes, eu e o outro companheiro, conseguimos seguir viagem um pouco mais tarde. A nossa boleia terminou logo no final da ponte da Arrábida. O carro seguiu para Braga e nós seguimos a pé. À hora marcada lá entramos no Coliseu dos Recreios e, quase como se tivéssemos combinado, encontramos o nosso tresmalhado companheiro de viagem no centro da plateia, mesmo durante a hora do tormento. Não consigo deixar de ouvir Pixies sem recordar as vagas alterosas daquelas horas.
Terminada esta provação seguimos, em modo de bola de flippers, batendo aqui, acendendo luzes ali, uns finos acoli, um petisco acolá, quase até desaguar junto ao Douro. Importa lembrar que isto se passou num tempo em que não havia voos low cost, nem booking, nem camones. A onda não era má mas em alguns recantos também não era muito boa.
E para lá andamos, noite fora até que chegou a hora de procurar um canto para pernoitar, o que é sempre uma matéria paracientífica. Não podia ser num canto muito central, porque isso não existe, nem muito obscuro, porque já estavam ocupados. Após várias tentativas, acabámos por nos estender ali à frente, dentro de uma embarcação estacionada numa das rampas de acesso ao rio. Não me recordo do frio, mas da humidade sim.
Para o regresso, calhou-me seguir a solo. Por desconhecimento do terreno não sabia onde pedir boleia. Alguém me deixou na última saída antes da portagem dos Carvalhos e segui a pé. Depois de um bom bocado de polegar esticado sem conseguir o merecido transporte de regresso avistei um camionista sozinho a mudar um pneu, tarefa que é sempre mais fácil quando feita por dois. Depois de me ter voluntariado a dar uma ajuda não há como negar uma boleia. E assim, foi dentro de um TIR de 20 toneladas acabado de carregar no porto de Leixões, que terminou a aventura.
Um minuto antes de um carro parar para nos dar boleia é impossível antecipar qual será o nível e o tema da conversa que se irá desenrolar, e nessa incerteza encerra-se parte da magia. Sem se confiar num desconhecido nada disto é possível. Actualmente somos todos muito mais desconfiados, e também isso explica que andar à boleia esteja em vias de extinção. Há para aí umas aplicações de partilha de trajectos mas mais não são que uma vaquinha das despesas com avaliação mútua dos respectivos users. São coisas diferentes.
Quem já teve o privilégio de, em locais recônditos, sair fora dos circuitos turísticos e tropeçou nos acasos das viagens concordará com uma das mais repetidas conclusões dos viajantes do improviso. A esmagadora maioria das pessoas são boas. É da natureza humana sentir empatia por um estranho que viaje em paz e que necessite de ajuda. É claro que todos somos diferentes, e isso é positivo, mas para uma imensa parcela da humanidade o conforto, a absoluta previsibilidade das rotinas e do planeamento é imprescindível. Não só, mas também por isso a minha conclusão é que existe demasiada gente que teme a liberdade.

Caro Paulo Sousa, gostei muito de ler o seu post. É extremamente interessante. Parabéns! E ainda bem que o escreveu! É que ele não mostra apenas coisas boas, também coisas menos boas. Vai-me desculpar por eu não me limitar aos elogios, pois não consigo calar o que me vai na alma. Como mulher, não posso deixar de ficar triste. Tudo isso que relatou, essa liberdade, o viver essas aventuras, infelizmente, está quase só reservado a metade da humanidade. Eu sei que há mulheres que também andaram, e andam, à boleia, mas arriscam muito mais do que os homens. E, normalmente, não são bem vistas.
Cresci com um irmão, somos só os dois, um rapaz e uma rapariga, com apenas 13 meses de diferença de idade. Senti na pele a discriminação. Não culpo os meus pais, porque era assim, eles deram o seu melhor. Mas, para uma mulher (criança, jovem) que sempre pensou pela sua própria cabeça, não foi nada fácil. Particularmente o seu relato do concerto dos Pixies fez-me lembrar a aventura do meu irmão que viajou, em fins dos anos 1980, para Lisboa (do Porto) para um concerto dos Whitesnake. Os meus pais acharam muita piada às suas aventuras, até como ele e um amigo apareceram, no regresso, em Coimbra, sujos e sem dinheiro, nem mesmo para o resto da viagem, em casa de uma tia nossa, que, claro, não deixou de os ajudar. Eu também me ri na altura. Mas não pude deixar de pensar: “e se fosse comigo? Também se divertiam assim?”
«Esta foi durante décadas uma forma comum de um jovem se deslocar pelo país» – «um jovem», diz muito bem! Nunca poderia contar tal de uma sua tia, pois não?
«O meu irmão e o meu primo, uns anos mais velhos do que eu, quando estudaram em Lisboa era também assim que iam e vinham a casa no fim de semana. De cada boleia traziam uma história diferente, quase sempre divertida. Pelo menos era divertida a forma como a relatavam». A irmã e a prima com certeza não tinham hipótese de relatar coisas tão divertidas.
«No dia em que eles partiram, já depois de terem apanhado a primeira boleia de casa até à EN1, lembro-me do meu pai ter dito que eles iriam viver uma aventura» – pois é…
«existe demasiada gente que teme a liberdade» – infelizmente, metade da humanidade teme-a com toda a razão.
Caro Paulo, repare, não o estou a acusar de nada (que não venham para aí comentadores a dizer que o acuso de ser machista!). O seu texto é de facto sensacional. Mas não o é apenas pelas aventuras que relata. Também o é por mostrar uma triste realidade.
Agradeço-lhe o comentário Cristina.
Entendo o que diz. São de facto lamentáveis as diferenças que conta e que não surpreendem. No fundo tudo isso resulta de uma questão cultural que não é igual em todas as latitudes. Conheci uma rapariga que fez a América do Sul toda sozinha e que juntou a muitos dias de transportes públicos alguns à boleia. Também andou de camião, nunca tendo sentido qualquer tipo de ameaça pessoal.
Há de facto um longo caminho pela frente, embora no que toca a boleias, por terem deixado de existir, já exista igualdade.
no que toca a boleias, por terem deixado de existir, já exista igualdade
É o que se chama nivelar por baixo.
E eu gostei muito de vos ler, Paulo e Cristina, e concordo com ambos. Também tive um irmão, quatro anos mais velho que eu, meu companheiro de aventuras, mas que a partir de certa altura deixou de ter pachorra para participar nos passeios em família, e eu fiquei sozinha: ele podia fazer tudo, eu não podia fazer nada, nem sequer acompanhá-lo…
A questão da boleia para as aulas nunca se pôs porque morávamos em Lisboa, mas tive colegas que o faziam.
Talvez por isso, quando vim aqui para a Beira, me agradava tanto ir por aí descobrir o país, sem pressões, parar onde me apetecia, mudar de ideias quando me apetecia sem pedir licença a ninguém. Não seria difícil arranjar companhia, até porque seria eu a dar a boleia 🙂 mas talvez fosse o facto de satisfazer o desejo de liberdade que nunca consegui ter na juventude, não sei…
Foram viagens incríveis, muitas por estradas secundárias e com alguns sustos 🐂🐃🐗 mas também com imensas alegrias e encontros com gente boa e animais simpáticos 🐎🐄🐑🐕🐈🐇🦊🦔
Apenas um momento desagradável quando subia a escadaria da Sra. dos Remédios em Lamego (ele há com cada um!). Felizmente apareceu um grupo em grande algazarra, ele recolheu ao arvoredo lateral e eu pude ver a vista magnifica do alto do santuário, que era realmente o que me interessava ver…
Mas o que é um momento desagradável (e que agora até me dá vontade de rir) em cerca de 15 anos de “à descoberta do Portugal profundo”?).
Bom Setembro!
🍁
Maria
Obrigada, Maria.
E interessante história que aqui nos conta.

Olá Maria,
Na última aula da sexta-feira os meus colegas já não estranhavam que entre os apontamentos tirados na aula eu fosse riscando num terço de uma folha A4 a palavra LEIRIA que algumas horas mais tarde iria exibir, dobrada em três, na portagem de Sacavém. Todas as semanas achava que devia guardar a folha para a semana seguinte, mas depois nunca mais sabia dela.
Obrigado pelo comentário
Paulo, obrigada pela sua reacção, sem sinal de qualquer ofensa. Confesso que, depois de ter submetido o comentário, fiquei com alguns pesos de consciência. Mas isso é problema meu.
Sim, claro, havia excepções. O meu irmão teve uma namorada de Verão austríaca que veio do país dela ao nosso de boleia. Mas não sozinha, com uma amiga. Assim como relata a comentadora Catarina, mais abaixo, sendo duas ou três, já era difícil haver problemas.
De qualquer maneira, não seria qualquer pai/mãe que o autorizava. Talvez muitas o tivessem feito sem autorização. E fizeram muito bem!
O que também me levou a fazer o meu comentário anterior, foi uma das peculiaridades da língua portuguesa (comum a outras). A frase: «Esta foi durante décadas uma forma comum de um jovem se deslocar pelo país» pode ser usada de uma maneira geral, incluindo os dois géneros. Assim como a final: «existe demasiada gente que teme a liberdade». E vemos, que, nestes casos, a língua fica presa nos seus limites e não esclarece como deve ser. Mas isto seria uma outra discussão…
O seu irmão teve uma namorada de verão austríaca, ou foi a austríaca que teve um namorado de verão português??
Gostei do seu comentário que me levou a outro raciocínio sobre essa temática. Se chegar a alguma conclusão farei um post sobre isso.
Obrugado
Bem, as duas coisas. O facto de eu ter posto o meu irmão em primeiro lugar tem a ver com a aproximação, julgo eu. Se eu fosse austríaca e a moça (chamava-se Gudrun) minha amiga, penso que diria ao contrário. Na verdade, não foi só um Verão, a Gudrun tornou a surgir no ano seguinte e o caso reacendeu. Mas ficou por aí. Eu é que acabei por sair do país, por ter casado com um alemão
Agora fiquei curiosa. Boa inspiração!
Não vale a pena comentar o “post” original que é, como diz, sensacional e já tem entrada na antologia, mas a sua intervenção tocou-me e gostaria que não fosse assim tão triste.
Sou conservador por escolha que creio ter sido livre e racional; apoio a evolução mas rejeito a revolução ou a imposição ideológica porque me parecem ter causado mais problemas, mais violência e mais infelicidade
do que aqueles que resolveram ou evitaram.
Há muitos anos, investi uma soma que na altura era quase demasiada num daqueles programas de deslocação de estudantes; no caso pretendia que o meu filho passasse um ano (quase) nos EUA ou num país de Leste. Quando eu e a minha mulher anunciámos a boa surpresa, o meu filho declarou peremptoriamente que não ia. Enquanto fiquei a hesitar entre conformar-me ou tentar convencê-lo a aceitar, a minha filha a seguir, um ano e meio mais nova, declarou (também peremptoriamente e de nariz bem empinado): Eu quero ir.
Assim de repente, só me lembro de duas outras ocasiões em que me senti sem respirar e incapaz de racionar: quando tinha dezoito anos e soube que o meu Pai morrera subitamente e, anos mais tarde, quando fui informado de que fôra mobilizado para a então Guiné Portuguesa.
Sem precisar de olhar, sabia que a minha mulher estava mesmo paralizada e o primeiro pensamento que me ocorreu foi que tinha de fazer qualquer coisa antes de ela ter tempo para reagir.
A primeira questão era o meu filho mas felizmente ele era esperto (o avô dizia que era inteligente p’ra burro!) e assim que olhei para ele, com um olhar e um aceno de ombros, fez-me saber que nem queria ir nem lhe interessava a irmã.
Então, sem saber onde encontrei forças, fiz a voz mais neutra que me foi possível e perguntei: E para onde queres ir?
Foi para os EUA para um estado do interior e foi um sucesso total. Ainda hoje a “mãe” americana vem regularmente a Portugal para a ver e lhe paga as viagens para ela a ir ver. Anos depois começou a ir regularmente aos EUA a casamentos de ex-colegas e quando ela por sua vez casou (algo tarde) vieram ex-colegas americanos ao casamento e choveram presentes de muitos que não puderam vir.
Claro que já nem se pôs a hipótese da irmã mais nova, não ser também inscrita no mesmo programa. Não fez o sucesso da irmã mas foi muitíssimo positivo e não tenho dúvidas que ambas “cresceram” de uma forma que não seria possível sem saírem do ambiente familiar.
Passada a historieta, é evidente que reconheço as situações de desigualdade e discriminação que lamenta mas acho – opinião pessoal – que não é com quotas nem com outras imposições ideológicas que o problema se irá ultrapassar. Seria, contudo, uma questão demasiado complexa para aqui desenvolver.
Obrigada pela história que nos contou, Francisco.
Mas, de facto, fico triste, quando leio coisas que deviam dizer respeito a qualquer jovem, coisas que eu gostava de ter feito, mas não pude fazer, por ser rapariga. Aí, noto que “esse qualquer jovem” tem de ser um rapaz, como a língua portuguesa determina.
Ainda bem que a sua filha teve a coragem de dizer que queria ir para a América.
E ainda bem que o Francisco teve o discernimento necessário para a levar a sério. Não era qualquer pai que o faria. E eu sei do que estou a falar.
Que delícia de postal, Paulo! Consegui imaginar-me aventureira e à boleia.
Como a Cristina referiu e bem, naqueles tempos mulheres neste tipo de andanças era questão que não se punha. Pela parte que me toca, porque o meu pai era um viajante de truz e acartava a família toda estrada fora, nunca senti a falta da aventura.
É verdade que as pessoas são mais desconfiadas. Lembro-me bem de, nas férias de Verão que duravam 3 meses, andar a brincar às Valquírias e às Amazonas até às dez e meia da noite na rua, em Belém, enquanto mais à frente a rapaziada jogava à bola sem preocupações e com os pais tranquilos em casa a ver televisão. Este cenário seria impossível nos dias de hoje.
A liberdade que ganhámos limitou bastante outras liberdades menores. Não me queixo , mas tenho saudades dos anos 80, por exemplo, quando tudo era bem mais simples.
Olá Dulce,
De facto muitas das coisas quase banais que hoje temos eram impensáveis então. Houve como que uma troca. Não me proponho aqui a identificar essas coisas, mas é interessante reviver isso e ver as reacções desse despoletar de memórias.
Obrigado
Belo postal, belas memórias – e a convocar-me imensas outras memórias.
Obrigado.
Será um gosto lê-las…
Caro Paulo Sousa. Se não estou enganado, a foto que colocou é na Cumeira, nas antigas bombas da Sacor. Pelo relato que faz, presumo que entre os seus primos estivesse o falecido e meu muito estimado amigo Antonio Coelho, que muitas vezes me relatou as viagens à boleia e as idas para a apanha de Morangos em Inglaterra. Não sei se será o caso, parece-me muita coincidência para que não seja, mas de qualquer forma, parabéns pela crónica, relato fantástico de outros tempos. Eu também viajei muitas vezes à boleia, mas apenas no verão e entre Alcobaça e Nazaré como era tradição nesses anos, nunca tive coragem para maiores feitos…Forte Abraço.
Caro José,
As bombas são essas mesmo, junto à fronteira entre o concelho de Porto de Mós e o de Alcobaça.
O meu primo felizmente continua do lado de cá. Será outra pessoa. Mas os trabalhos de verão como os que refere e que era o propósito do meu irmão e primo, foram habituais durante uns anos.
Por ter falado em idas para a praia à boleia, lembro-me do meu pai sair de casa com seis e chegar à Nazaré com dezassete pessoas dentro da nossa Bedford comercial sem janelas. Eu que era dos mais pequenos ia sentado junto aos pés do pendura. Nunca houve qualquer problema.
Um abraço
Caro Paulo: Ainda bem que o seu primo ainda por cá anda, felizmente. Como o António Coelho era da Cumeira e também viveu alguns anos em Genéve, pensei tratar-se dele. Provavelmente serão família afastada então. As viagens Alcobaça-Nazaré e vice versa, no tempo de praia, à boleia, eram épicas. Por vezes lá apanhávamos um casal de franceses em carros que só víamos em revistas e era uma história que contávamos o verão todo. Algumas vezes apanhávamos as camionetas de areia, que iam carregar aos areeiros no Salgado. Para lá iam vazias, paravam e nós entrávamos. Da Nazaré para cá, estávamos ali ao pé do antigo matadouro na subida e elas vinham devagarinho com o peso da areia, mas, por isso mesmo, não podiam parar, senão mal arrancavam. O motorista fazia sinal e nós corríamos atrás delas agarrados aos taipais e trepávamos para cima da carga de areia onde vínhamos deitados até Alcobaça…Nunca ninguém se magoou e nunca houve problema nenhum com boleias. No tempo em que éramos felizes sem saber…
Bom dia, Paulo Sousa.
Belas memórias de um tempo em que tudo era mais fácil e mais verdadeiro. Confiava-se mais e temia-se menos. Outros tempos, outras vidas.
Não que as tenha vivido, as boleias, mas sei como era. Houve muitas peripécias na minha vida, mas sobre boleias não houve nenhuma. Ia-se para a escola a pé, se fosse longe ia-se mais cedo, e vinha-se para casa do mesmo modo e às horas que se chegasse chegava-se que os pais pouco se preocupavam com isso. Se fosse rapaz: ora, lá ficou a jogar futebol na rua e esqueceu-se das horas, se fosse menina lá foi à casa da amiga ver a boneca nova que recebeu como prenda de anos.
Mas por acaso estou-me a lembrar de uma boleia que pedi, a primeira e única. Trabalhava no Huíje e recebo a notícia que a minha mulher, em Luanda, dera à luz uma menina. Não pensei mais nada e pedi boleia a um camionista meu amigo, que nessa noite transportava uns fardos de café para Luanda. Chovia torrencialmente e dois quilómetros depois ele deixa escorregar o camião, sai da estrada e tomba-o espalhando a carga.
Coisa pouca, ninguém se feriu, saímos do camião e viemos a pé para casa. Ele foi ter com o patrão dele e eu fui para casa dormir.
Outros tempos: como a Cristina e a Dulce dizem, e eu também, tudo era incomparavelmente mais simples.
Um bom fim-de-semana.
Abraço.
Olá!
África é ainda um espaço onde se apanha boleia, embora para deslocações menores. Nos locais pouco urbanizados quem tem um carro é normal que pare para levar quem se desloca a pé. Já vi isso em diversos sítios.
Por cá, na “civilização” é que tudo é muito mais formatado e rígido.
Um abraço
Excelente texto, Paulo. Mais um com entrada garantida na futura antologia DELITO DE OPINIÃO.
Destaco esta frase, que muitos de nós certamente partilhamos: «Tenho saudades de não ter uma hora para chegar ao destino.»
Falei da intenção de escrever este texto há dias com o meu irmão e ele lembrou-se de ter apanhado boleia do meu tio, o da foto, para Lisboa. A viagem era feita no andamento de antigamente, sempre pela estrada nacional para não pagar portagem, e com paragens ao ritmo dos cigarros que lhe apetecia fumar. Sempre sem hora para chegar ao destino.
Um abraço Pedro.
Bom dia,
Paulo, parabéns pelo seu texto, que me trouxe divertidas memórias. Também andei à boleira no Douro, Alentejo e Beira Interior (entre 1985-1991), complementando alguns itinerários com camionetas “a cair de podres”. Como disse, a maioria da pessoas são de boa índole e anseiam por companhia.
Sendo mulher (e partilho do sentimento de discriminação mencionado por não ser fácil andar à boleia sozinha) quando viajava à boleia era acompanhada. Nunca tivemos problemas quando viajávamos só mulheres (2 a 3) – às vezes alguns avanços de linguagem, rapidamente extintos por nós. Também ajudei a mudar pneus e até a escolher um vestido, para o condutor dar à namorada, numa feira local.
Havia muitos momentos de espera, de ficar à mercê dos elementos, de estar cheia de fome e de sede e já não termos água ou comida. E de andar muito. Mas havia tempo: sem demoras, sem telemóveis, sem chegadas marcadas.
E muitas histórias engraçadas e condutores variados, totalmente diferentes do meu mundo. Aprendi muito, em especial a aceitar ideias diferentes das minhas, a tentar perceber “o outro”, a sair do meu umbigo.
Catarina Silva
Essa da ajudar a escolher um vestido é muito boa.
Outra da riqueza que as boleias permitem(iam) era o de travar conhecimento com pessoas muitos diversas. O chamado país real, do qual fazemos parte, é em grande medida desconhecido por demasiados de nós.
Obrigado
Poucas sem nada de especial assinalar.
Existia mais boleia porque a vida sem ser vivida, tinha menos valor.
lucklucky
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Que bela crónica, Paulo!
Obrigado João,
Abraço
Eu já sou idoso e utilizei imenso a boleia. Foi tudo muito interessante. De facto não era fácil para raparigas, compreendo a diferença. Os dois sexos são diferentes. Costumo dizer que só admito igualdade em questões de dignidade (seria impossível dizer o que isto significa num curto espaço). Mas os sexos são diferentes e ainda bem. E que inconvenientes tem o sexo masculino? Vejamos. Os rapazes andavam de boleia, as meninas não. Mas nós fomos todos para guerra colonial (quem não viveu isso dificilmente entende em toda a dimensão) e as meninas (incluindo as que defendiam a democracia e havia muitas) ficavam no sossego da casa. Por lá, uns morriam outros vinham estropiados e outros inteiros (meu caso).
Depois há a maternidade. Coisa que os homens não podem experimentar e em que são brutalmente discriminados pela natureza. Isto não conta? Um homem sabe o que é a alegria da maternidade? Trazer dentro de si outra pessoa? Amamentar? Não, só anda (andava) de boleia. Noto que hoje muitas feministas desvalorizam maternidade como se isso fosse um peso sobre elas. Tontas.
“Costumo dizer que só admito igualdade em questões de dignidade (seria impossível dizer o que isto significa num curto espaço).”
Às vezes fico fascinado como os crentes têm a vida facilitada em relação aos racionalistas, etc.. Nós somos todos filhos de Deus. A igualdade na dignidade nem é questão que se nos ponha.
P.S. – Também regressei inteiro mas infelizmente o quinino semanal deixou-me uma surdez progressiva e hoje sem solução viável.
” A igualdade na dignidade nem é questão que se nos ponha.” Não é???
Como filhos de Deus somos irmãos, logo temos a mesma dignidade. Não é dignidade igual, é a mesma.
E que não fôssemos. Como humanos a dignidade não se restringe a um sexo específico, nem é privilégio deste sobre aquele.
Só há uma dignidade e independentemente do género ou se tem ou não se tem. Para ambos.
A boleia mais insólita que apanhei.
O nosso destino, meu e de um amigo, era Atouguia da Baleia. A boleia apanhada em Salir do Porto deixou-nos num cruzamento de onde se seguia para Alcobaça ou para as Caldas da Rainha.
Como o tempo de espera já ia longo, resolvemos encetar uma caminhada até às Caldas, na esperança de ser aí mais fácil apanharmos a boleia que nos conduziria ao destino.
Após termos percorrido alguns quilómetros nessa recta que recordo como sendo do Alfeizerão, para nosso espanto pára à nossa frente um mini ocupado por quatro jovens mulheres vindas da praia. Aleluia!
Mochilas colocadas na bagageira, lá entramos no carro, bastante agradados com o contacto inevitável que seis pessoas dentro de um mini proporciona e com os odores que emanavam dos corpos delas.
Mais à frente, em conversa com a condutora, descubro que não existe certeza de que haja combustível suficiente no depósito para se chegar às Caldas. E foi aí que percebi a razão de tão insólita boleia.
PS – A “culpa” de recontar este episódio é toda da prosa agradável do autor do post e das estórias que nos vai contando. Honra lhe seja feita.
” E foi aí que percebi a razão de tão insólita boleia.” Pois eu não percebo.
03.09.2020 às 15:39.
Não há almoços grátis, caro Elvimonte.
Neste caso, boleia.
Havia uma certa magia em apanhar boleias de raparigas. E então de mini…
Uma vez apanhei uma boleia de um Ford Escort cabrio de uma ex-colega de escola secundária com quem nunca tinha conversado. Bem gira. A correia da distribuição do carro partiu-se e tivemos de esperar pela assistência em viagem. O carro foi rebocado e nós seguimos de táxi. Eu fui à frente, ao lado do taxista, e ela cá a trás, com a mãe.
Nunca andei à boleia,
mas dei dezenas delas, na altura também era jovem, tinha entrado na casa dos trinta, tudo isto nos idos anos oitenta do século passado.
Vou contar dois episódios que se passaram comigo.
O primeiro: no início de uma noite de inverno, à saída de Coimbra encontro um casal de jovens franceses a pedir boleia para virem para Lisboa.
Paro, entram no automóvel a tremer de frio, fizemos as nossas apresentações, a viagem correu depressa apesar de pararmos no caminho para comer e beber alguma coisa quente. À chegada a Lisboa como não conheciam a cidade ficaram atrapalhados e não sabiam como se dirigir a uma república de estudantes onde iam pernoitar, ali para os lados da Rua da Escola Politécnica. Tive de os levar ao seu destino, ficaram muito agradecidos; acabei por lhes deixar uns bilhetes pré-comprados do Metropolitano de Lisboa. Nunca mais os vi, se hoje forem vivos ainda se devem recordar deste episódio solidário, “era o tempo áureo do José Mário Branco”.
Cheguei a casa bastante tarde, já passava da dez da noite … e a minha esposa aflitinha porque eu nunca mais chegava.
O segundo: vinha eu juntamente com um irmão dos meus irmãos dos lados de Pegões Velhos a caminho de Vila franca de Xira, encontramos num descampado junto a umas antenas de transmissão de telecomunicações um homem junto a um carro parado a pedir boleia, eram umas dez horas da noite. Parámos por que éramos dois e por cima ainda jovens. O homem quase que chorava, estava num Renault 5 avariado, tinha dentro a mulher e uma filha. Estava naquele suplício à mais de duas horas. Rebocámos o automóvel até ao Porto Alto, aqui ficou a dormir com a família, no outro dia dizia que tentar arranjar o carro. Nas despedidas deu-nos um cartão dizendo que nos ia recompensar bastante bem, para lhe telefonarmos, dissemos que não queríamos nada, mas para ele fazer alguma coisa pelos outros quando estivessem numa situação destas. Era um advogado de Lisboa – nunca o procurámos e o cartão? O tempo levou-o.
Tive algumas vezes medo, mas também tinha os meus truques.
Eram tempos gloriosos.
Se fosse hoje apanhado a rebocar um carro apanhava no mínimo uma multa. Agora é tudo muito mais complicado.

Quando se proporcionam essas ajudas a desconhecidos à beira da estrada, que já ocorreu várias vezes, e no fim me perguntam se me devem alguma coisa, costumo responder que já alguém me tinha ajudado também e que estava apenas a manter a cadeia. E peço para não a interromperam para um dia o favor regressar novamente a mim.
Tiro-lhe o chapéu e faço uma vénia e digo porquê, começando pelo fim. Há, efectivamente, infelizmente, desafortunadamente, demasiada gente que teme a liberdade. É verdade!
Dito isto, ainda que não tenha feito trajectos tão longos à boleia, fiz muitos Verões Sintra-Praia Grande-Sintra à boleia. Se fosse hoje, se calhar, por se temer a liberdade haveria manisfestações de condutores de Táxis, TVDE’s dos guarda-freios dos elecctricos, dos motoristas dos autocarros, eventualmente dos condutores de tuk tuks, contra a concorrência desleal dos automobilistas que davam boleia.
Partilho a história de uma dessas boleias.
Estava com um amigo a sair da Praia Grande e vimos um casal, na casa dos 50 e entrar no seu carro. Perguntámos se nos dava boleia para Sintra.
Simpáticos disseram que sim.
A conversa foi animada e, já não me lembro porque razão, falámos num café/cervejaria que havia na Vila Velha há cerca de 40 anos, ali perto da Piriquita, que dava pelo nome de Tiborna. Servia uns pãezinhos quentinhos (tibornas) recheados com fiambre e queijo.
Disseram logo, podem indicar-nos onde é? Sem as actuais restrições de trânsito subimos da Ribeira até à Vila.
O casal que não era de Sintra, adorou as tibornas e, só porque os levámos até lá, pagou-nos o lanche que consistiu em várias tibornas e outras tantas cervejas.
As conversas são como as cerejas 🍒 e o mundo é pequeno.
O meu tio, de que falo no texto, além de outras coisas era pintor de azulejos, e tem dois painéis dele afixados nessa rua estreita que começa junto à Piriquita. Se a memória não me falha estão do lado direito depois da curva. Quando lá passar dê uma espreitadela.
Obrigado pelo comentário.
Serão estes os painéis? F3u6
https://photos.app.goo.gl/J1GQDRriwhSpP
Se sim, são três e ficam do lado esquerdo de quem sobe a rua. Deixo-lhe também um post que publiquei durante o confinamento, inspirado numa passagem justamente por essa rua, das Padarias, onde fica a Piriquita. l-de-vida-11546?tc=49217094349
https://classeaparte.blogs.sapo.pt/sina
Cumprimentos.
São esses mesmos!!
Assinados por Rafael Rosa, nome artístico. É o traço dele. Muito obrigado!
Existe um café, aí perto, em Mem Martins com vários painéis dele. Outros estão pelo mundo fora, até na China.
O seu texto irei lê-lo à noite.
Um abraço
o post é um pouco longo, uma delicia, e ate parece muito eu a contar as minhas aventuras.
Tanta vez pedi boleia nessa portagem de Sacavem, para onde ia no tal autocarro da Carris. Bom, era logo depois da portagem, no arranque dos carros, mas aí era proibido.
A minha mae, como que disse, vai filho, e eu senti-me melhor a partir.
Pois a comunicaçao era assim, um postal com uma semana de atraso, e as cabines a comerem as moedas carissimas e escassas, no tempo dos dinheiros nacion ais.
Claro, a 120 km ninguem pará.
O post elogia a pessoa humana, e muito bem. Pelo que é dispensavel referir os casos em que param longe e arrancam, partem. Mas tambem ainda hoje existem passageiros transportados em automovel que falam ou insultam os peoes.
Uma vez cheguei a lisboa, caso raro que que cheguei de manha, ja nao sei de fui de manha ou se perdi a noite, e logo dei conta que perdi o dinheiro. Calculei que pudesse ter sido no posto combustiveis de caldas s jorge. Logo pedi boleia para tras. E lá estava o dinheiro numa das covas do piso, que ate ja tinha sido varrido, dentro do saquinho dos rebuçados do dr. bayard. Se a seguir pedi boleia para lisboa ou desisti e pedi boleia para casa, ja nao sei.
E tambem , mais que uma vez, apanhei boleia no comboio…
Muito boa essa.

E boleia do comboio também está bem vista. Esticou certamente o dedo e o maquinista abrandou. O réu está inocente.
pois, devia eu ter me explicado melhor.
Claro que nao estiquei o dedo, nao pedi boleia ao maquinista.
Mas viajei clandestino mais que uma vez no comboio de longo curso ( lisboa-porto ) e de passageiros. Mais concretamente no Interregional. E mais nao preciso dizer…mas tive o ceu com teto
faltam -me um apontamento :
numa viagem de regresso, o condutor, um quadro da Oliva, aconselhou-me a sentir a outra parte, num assunto familiar que contei. Coisa tao simples como achar que as galinhas criadas em “casa” ficavam mais caras.
Parabéns pelo texto Paulo!
E que bonito é ler todas as experiências de tantas pessoas.
Dito isto devo-vos dizer que os jovens continuam a andar à boleia, pelo menos eu e o meu grupo de amigos (andamos na casa dos 20). E é verdade que sendo mulher nunca quis andar sozinha, mas tenho amigas que o fazem. E nunca nenhum de nós teve qualquer problema.
É uma experiência que devia ser vivida por mais pessoas, porque sempre que refletimos sobre isso percebemos justamente o que mencionou: a maioria das pessoas é boa pessoa. E aprendemos tanto com estas aventuras.
Acho que agora há muitos mais medos (será que há mais perigos também? Tenho algumas dúvidas…), e os jovens deixam de se aventurar e perdem em experiências.
Fico contente por ter arriscado, sei que ganhei e continuo a ganhar imenso com estas aventuras.
Que boas notícias Diana.
Já que vi que sabe do falo quando digo que demasiadas pessoas têm medo da liberdade.
Obrigado e boas boleias
Já agora mais uma história. Em jovem conheci o país inteiro à boleia. Fui ao Algarve com mais 2 amigos o que foi uma aventura extraordinária. Apontava em papéis (que ainda tenho) as boleias que apanhava. E dinheiro para comer e dormir? Éramos estudantes em Coimbra e íamos de capa e batina (tornava a boleia mais fácil). Nas várias terras por onde passávamos procurávamos pessoas licenciadas em Coimbra (geralmente médicos). E cravávamo-los, apelando á solidariedade de estudantes de Coimbra. Funcionava sempre e bem. Só me recordo de uma caso em Vila Real (norte) em que um médicos deu tampa.
Por vezes quem dava boleia pagava refeições. Um de nós sentava-se no banco ao lado do condutor e ficava encarregado de cantar a canção do bandido (como nós dizíamos). Isto é, ia indirectamente explicando que éramos estudantes sem dinheiro e que precisávamos de comer mas…. Muito acabavam oferecendo uma refeição.
Muito bom! nda-a-puta-da-vida-miguel-esteves-cardos o/13998943

Estava a ler e a lembrar-me de um titulo de um livro de crónicas de Miguel Esteves Cardoso.
https://www.wook.pt/livro/como-e-li
Paulo, em condições normais leria o poast com cuidado, gostand ou não dele, pensando e sentindo de acordo com as palavras…
Mas…
Viste os Pixies em 91???
Em 91?? Logo a seguir à saída de Trompe Le Monde? Com o Black Francis a levar o Head On a outra dimensão?
Odeio-te.
Estava a ver que ninguém reparava no verdadeiro motivo do post!!
Abraço
Mais uma bela história, Paulo. E achei curiosa a classificação do espectáculo dos Pixies no coliseu como “o concerto do ano”. É que já relatei aqui no Delito um “concerto do ano” (para alguns, de uma vida) que também envolveu os Pixies, mas que não era o deles: https://delitodeopiniao.blogs.sapo.pt/n otas-de-um-verao-a-norte-o-regresso-1022 9607
Adoro ler estas estórias.
Eu tinha algum preconceito em pedir boleia, por isso, nunca o fiz.
Mas os meus irmãos mais novos que eu, ela catorze anos, ele doze, não tinham quaisquer problemas com isso.
Ele fez viagens para o estrangeiro à boleia de camionistas, também contou algumas histórias interessantes.
Estudava ela em Coimbra, numa das festas dos estudantes que se realizara na Figueira da Foz, não tinham como regressar a casa.Estava o dia a nascer, tentaram a boleia.
E lá chegaram… à boleia de uma ambulância.
Obrigada pelas recordações.
Nos anos 80, pedia boleia diariamente no verão, para a praia (cerca de 5 km), sozinha normalmente, todas as m/ amigas o faziam. Um dia decidimos ir a uma cidade mais distante (50km), estávamos 3 raparigas e pedir boleia pareceu natural. À ida, tudo ok, em 2 transportes diferentes uma c/ veraneantes, outra com 1 trabalhador local, chegámos sem problema. No regresso um homem de cerca de 30 anos, depois de 30 km a perorar sobre os perigos das “meninas andarem à boleia”, começou a insistir para irmos a casa dele, trocar contatos telefónicos, até se tornar desagradável. Tivemos praticamente de o a ameaçar com a Polícia para parar o carro e quando eu já imaginava “uma cena de filme” para o obrigar e rezava que não tivesse uma arma ou algo assim, lá parou e deixou-nos na estrada, no meio de nada…mas foi um alívio! retomámos depois o trajeto com um simpático casal e chegámos sem mais problemas. Foi uma lição, nunca mais pedi boleias. Sempre realizei o perigo, mas quando se é novo o otimismo ofusca a realidade. Hoje nem tal me passaria pela cabeça e até me custa a crer esta e outras opções pouco ponderadas, mas faz partede ser jovem 🤷♀️
Eu já também já dei uma boleia em que durante a qual também achei que não devia ter parado.
O momento em que se abre a porta para dar ou receber boleia deve incluir uma avaliação fria. As senhoras tem um afamado sexto sentido que os homens não têm. Esse é o momento de aceitar ou não aceitar. Se esse alerta estiver acionado talvez se consigam evitar dissabores.
Obrigado pelo comentário