Pulido Valente “in memoriam”


Pedro Correia,

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«Encontrei muitos políticos desde 25 de Abril, não encontrei nenhum que não ficasse reprovado num exame elementar de História de Portugal. (…) Fora Marx e Lenine, não abriram os clássicos. Dos grandes sistemas políticos acumularam penosamente meia dúzia de noções triviais, destinadas ao jornal e ao comício.»

 

«Só por milagre o dr. Sampaio, o dr. Soares e o dr. Amaral, seus amigos, afilhados e sequazes, não acabariam colectiva e patrioticamente sentados à mesa do orçamento, esperando pela auspiciosa chegada do dr. Sousa Franco que não tardará. (…) Todos gostam das mesmas situações ambíguas e esfumadas, todos se distinguem na mesma arte subtil de conciliar o inconciliável e justificar o injustificável, e todos padecem da mesma gravidade cordata, parlapatona e pomposa, que em Portugal revela fatalmente o estadista. Não são inimigos, nem sequer adversários: são compadres. E esta é a sua República. Sua – muito deles.»

 

«Entre quadros partidários profissionais, militares, políticos e os fala-baratos do costume, o 25 de Abril não revelou ou produziu ainda um dirigente genuinamente operário ou popular de estatura. Quem se espantará?»

 

«Em Portugal o doutoramento continua a ser um tremendo privilégio. Habilita os seus venturosos possuidores ao adereço distinto de “sr. professor”, confere-lhes um pequeno feudo vitalício na Universidade, promove-os a lugares de direcção académica, e quase sempre indica-os aos órgãos de soberania como desejáveis pastoreadores da nação.»

 

«Houve um tempo em que os Governos e as Universidades consideravam um sociólogo o lamentável cruzamento de um socialista e de um astrólogo. (…) Estudar uma sociedade parecia aos Governos implicar o perigoso propósito de a mudar – temeridade que geralmente não acontecia aos sociólogos. Por outro lado, a Universidade pensava sobre a sociologia o mesmo que sobre os horóscopos: à força de generalizações e trivialidades, era realmente impossível não se acertar algumas vezes.»

 

«Tendo muito pouco, o povo quer logicamente alguma coisa e, quando é livre de decidir, recusa sempre a aventura revolucionária, porque vive num curto espaço antes da privação, do desemprego ou da miséria. Os “sonhos” que o intelectual em causa confessa alimentar de “privilégio” sem limites e de “grandeza que não há” não são sonhos do povo, são sonhos do pequeno-burguês socialmente frustrado. A ideologia da revolução não passa de uma ideologia pequeno-burguesa.»

 

«Se os Governos caíssem por causa do descontentamento, o salazarismo tinha caído trinta vezes depois de 1945. Se a agitação fizesse cair Governos, o liberalismo não tinha passado de 1834 e a República de 1911. Se os Governos precisassem para sobreviver de uma sólida base social de apoio, Portugal não era governado desde o fim do século XVIII.»

 

Citações extraídas do livro O País das Maravilhas (Intervenção, 1979)

26 comentários em “Pulido Valente “in memoriam””

        1. Esse livro – para mim, a obra-prima de VPV – foi reeditado há poucos anos, felizmente. Após ter permanecido cerca de quatro décadas fora do mercado.
          Singularidades do circuito editorial português, dominado em larga medida pelos tentáculos da correcção política.

          ‘O Poder e o Povo’ é a história heterodoxa da I República Portuguesa. Um livro que enumera, em larga medida, os motivos que conduziram ao irremediável fracasso duma classe dirigente que se aguentou só década e meia no poder, fracturou a sociedade portuguesa, fragmentou a sua própria base de apoio, conduziu Portugal ao atoleiro da I Guerra Colonial e das trincheiras da Flandres, onde milhares de soldados morreram sem saber porquê, e abriu caminho a uma das mais longas ditaduras do século XX.
          Quando caiu, ninguém verteu uma lágrima por ela.

          VPV escreveu sobre isto, sustentado em factos. E causou escândalo – a tal ponto que o livro se tornou invisível durante 40 anos.

  1. O que se vê nestes textos é um pedante a exibir, qual pavão, a sua superioridade.
    Superioridade inexistente, fátua. A superioridade de quem nada faz, somente critica aqueles que tentam fazer.
    É impressionante como tantos portugueses se deixaram (e deixam) seduzir por isto.

    1. Veja lá, Lavoura, se ainda lhe dá alguma coisa má de tão impressionado ficar com o que lê por aqui. Deve estar na hora de passar pelo Herdeiro de Aécio. Vai fazer-lhe bem, seguramente.

      Costa

  2. Na wikipedia leio que “[Vasco Pulido Valente e]m 1995 foi eleito deputado à Assembleia da República, pelo Partido Social Democrata. Demitiu-se ao fim de quatro meses, solidário com a saída de Fernando Nogueira, dizendo-se desiludido com a instituição e a vida parlamentar.”

    Questiono que credibilidade para criticar a política pode ter um indivíduo que se faz eleger para deputado e que quatro meses depois abandona o cargo para o qual o povo o elegeu, descobrindo que tinha ilusões e que ficou desiludido.

  3. Muito bom.
    E falando de quotas….deveria era haver quotas internas nos partidos para os militantes “soldados” ocuparem cargos de comando e não serem sempre os mesmos “estadistas” a comerem tudo -:) a democracia hereditária portuguesa é muito esquisita .

        1. Levantar-me bem cedo para dar uma caminhada pelo Gerês é um programa que também já fiz (e no Inverno, ainda que especialmente calculado para não ser em dia de chuva) e que recomendo vivamente. Ficamos à espera das fotos, Vorph.

          1. Só agora é que vi. Obrigado, Vorph. Por acaso os carris ainda não conheço. Tenho de arranjar uma ocasião para ir lá. O alto da Pedrada deve ser mais perto da serra amarela, por onde já andei em caminhadas.

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