Fotografia tirada hoje na Livraria Barata (Avenida de Roma, Lisboa)
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Já aqui no D. O. manifestei a minha admiração por este pequeno mas corajoso e absolutamente esclarecedor livro.
Não guardo ilusões sobre o poder e a falta de escrúpulo de quem impôs, invocando o respaldo legal que afinal não tem, a barbárie acordita. Como se o direito positivo a tudo se aplicasse sem mais e para tudo sem mais bastasse. Nem sobre a docilidade e pressurosa – indiferente, pelo menos – obediência que, na matéria, se deverá esperar de um povo que nem em tempos de vacas gordas mostra, para lá de uma mesquinhez egoística, um átomo de interesse por si próprio, a sua história e o seu legado; que se curva em ignorante fervor perante o que lhe pareça ou lhe seja apresentado como “moderno” e “progresso”; que toma por velho – no sentido de obsoleto e decrépito – o que na verdade é antigo, consolidado, experimentado e respeitável.
Um povo que aliás não escreve e não lê (ou que lê – e aí, parece, até lê muito – efémeras e irrelevantes coisas para que basta uma novilíngua puramente instrumental); que não saca da pistola quando ouve falar em cultura, apenas porque, de tão ignorante que é, nem na cultura vê uma ameaça. Apenas a despreza, volta-lhe – dantes paulatinamente, agora orgulhosa e militantemente – as costas e afirma com cada vez maior arrogância o triunfo dos medíocres que crescentemente domina o nosso tempo.
Para alguns excêntricos, que dão valor a coisas que a maioria toma como bizarrias anacrónicas e que se enternecem contemplando e vivendo a sua biblioteca, maior ou menor, onde não cabe um livro em português atraiçoado, o seu livro é e cada vez mais será um refúgio de lucidez.
Convém não esquecer que o dito acordo não está em vigor, atentos os seus próprios termos e o direito aplicável (internacional e nacional) Isto é, para além da questão da ortografia temos outra, não menos inquietante: o modo como, em Portugal, se faz tábua rasa dos mais elementares princípios do Estado de Direito! A ortografia mutilada do acordês é a ortografia de um regime que, da democracia possui apenas alguns tiques. Quando alguém que assina um artigo onde se afirma que “Com o Acordo Ortográfico (AO), Portugal, acometido de um juridicizante voluntarismo excessivo, tristemente capitulou perante um patente abastardamento da língua portuguesa, coonestando, à guisa de autoflagelação, uma arremetida contra importante vertente do seu riquíssimo – velho, de quase nove séculos -património histórico e cultural.”, afirma, depois que o aplica, ao assumir um cargo com relevância constitucional, porque seria “descortês” para com o seu antecessor, estamos a falar de que concepção de Estado de Direito? http://www.dn.pt/inicio/opiniao/interior.aspx?content_id=2300823&page=-1
Não vigora, de facto. Uma resolução não revoga um decreto-lei. Mais longe se poderia ir, mas isso basta. Esta gente nem um mínimo de rigor formal se dá ao trabalho de respeitar.
Sou eu que lhe agradece, pelo livro. O tempo chegará em que o seu mérito será reconhecido. Nem que seja dentro de umas décadas e como exemplo de resistência fundamentada ao declínio imparável da língua portuguesa.
Costa
O motivo da não vigência não é essa questão da hierarquia das leis, mas o facto de o próprio acordo não estar em vigor na ordem jurídica internacional. Há ainda que discutir o próprio princípio da coisa, ist é, se a ortografia de milhares de palavras pode ser modificada, um produto do tempo e que é fruto de uma cultura pode ser objecto de acordos e para fins políticos-delirantes: “Só assim poderemos participar, e a nossa participação é essencial na criação de um estado mundial de ordem baseada no direito e de progresso. (…) Por isso Portugal ratificou o acordo ortográfico da língua portuguesa” http://emdefesadalinguaportuguesa.blogspot.pt/2008/06/sr-ministro-da-cultura-por-favor_17.html
Naturalmente, quanto à vigência. Um tratado que ainda não foi ratificado por todos os estados participantes não vigora. Uma sucessão de erros, ou puro e doloso desprezo pela elementar técnica legiferante.
Quanto ao resto, resume muito bem: é desde logo uma questão de princípio e uma causa tomada de assalto por interesses político-delirantes . Por nosso maior infortúnio, interesses especialmente acarinhados pelo poder – ele próprio muito dado a espasmos delirantes – e que se fortificam num ambiente de indiferente resignação. Se não mesmo de colaboracionismo.
Costa
Caro GTY, estamos de acordo: “o dito acordo não está em vigor, atentos os seus próprios termos e o direito aplicável (internacional e nacional).”
Já aqui no D. O. manifestei a minha admiração por este pequeno mas corajoso e absolutamente esclarecedor livro.
Não guardo ilusões sobre o poder e a falta de escrúpulo de quem impôs, invocando o respaldo legal que afinal não tem, a barbárie acordita. Como se o direito positivo a tudo se aplicasse sem mais e para tudo sem mais bastasse. Nem sobre a docilidade e pressurosa – indiferente, pelo menos – obediência que, na matéria, se deverá esperar de um povo que nem em tempos de vacas gordas mostra, para lá de uma mesquinhez egoística, um átomo de interesse por si próprio, a sua história e o seu legado; que se curva em ignorante fervor perante o que lhe pareça ou lhe seja apresentado como “moderno” e “progresso”; que toma por velho – no sentido de obsoleto e decrépito – o que na verdade é antigo, consolidado, experimentado e respeitável.
Um povo que aliás não escreve e não lê (ou que lê – e aí, parece, até lê muito – efémeras e irrelevantes coisas para que basta uma novilíngua puramente instrumental); que não saca da pistola quando ouve falar em cultura, apenas porque, de tão ignorante que é, nem na cultura vê uma ameaça. Apenas a despreza, volta-lhe – dantes paulatinamente, agora orgulhosa e militantemente – as costas e afirma com cada vez maior arrogância o triunfo dos medíocres que crescentemente domina o nosso tempo.
Para alguns excêntricos, que dão valor a coisas que a maioria toma como bizarrias anacrónicas e que se enternecem contemplando e vivendo a sua biblioteca, maior ou menor, onde não cabe um livro em português atraiçoado, o seu livro é e cada vez mais será um refúgio de lucidez.
Costa
Convém não esquecer que o dito acordo não está em vigor, atentos os seus próprios termos e o direito aplicável (internacional e nacional) spx?content_id=2300823&page=-1
Isto é, para além da questão da ortografia temos outra, não menos inquietante: o modo como, em Portugal, se faz tábua rasa dos mais elementares princípios do Estado de Direito!
A ortografia mutilada do acordês é a ortografia de um regime que, da democracia possui apenas alguns tiques.
Quando alguém que assina um artigo onde se afirma que “Com o Acordo Ortográfico (AO), Portugal, acometido de um juridicizante voluntarismo excessivo, tristemente capitulou perante um patente abastardamento da língua portuguesa, coonestando, à guisa de autoflagelação, uma arremetida contra importante vertente do seu riquíssimo – velho, de quase nove séculos -património histórico e cultural.”, afirma, depois que o aplica, ao assumir um cargo com relevância constitucional, porque seria “descortês” para com o seu antecessor, estamos a falar de que concepção de Estado de Direito?
http://www.dn.pt/inicio/opiniao/interior.a
Não vigora, de facto. Uma resolução não revoga um decreto-lei. Mais longe se poderia ir, mas isso basta. Esta gente nem um mínimo de rigor formal se dá ao trabalho de respeitar.
Estado de quê?
Costa
Caro Costa: agradeço-lhe as generosas palavras que aqui deixa, uma vez mais, sobre o meu livro.
Sou eu que lhe agradece, pelo livro. O tempo chegará em que o seu mérito será reconhecido. Nem que seja dentro de umas décadas e como exemplo de resistência fundamentada ao declínio imparável da língua portuguesa.
Costa
O motivo da não vigência não é essa questão da hierarquia das leis, mas o facto de o próprio acordo não estar em vigor na ordem jurídica internacional. ot.pt/2008/06/sr-ministro-da-cultura-por-f avor_17.html
Há ainda que discutir o próprio princípio da coisa, ist é, se a ortografia de milhares de palavras pode ser modificada, um produto do tempo e que é fruto de uma cultura pode ser objecto de acordos e para fins políticos-delirantes:
“Só assim poderemos participar, e a nossa participação é essencial na criação de um estado mundial de ordem baseada no direito e de progresso. (…) Por isso Portugal ratificou o acordo ortográfico da língua portuguesa”
http://emdefesadalinguaportuguesa.blogsp
Naturalmente, quanto à vigência. Um tratado que ainda não foi ratificado por todos os estados participantes não vigora. Uma sucessão de erros, ou puro e doloso desprezo pela elementar técnica legiferante.
Quanto ao resto, resume muito bem: é desde logo uma questão de princípio e uma causa tomada de assalto por interesses político-delirantes . Por nosso maior infortúnio, interesses especialmente acarinhados pelo poder – ele próprio muito dado a espasmos delirantes – e que se fortificam num ambiente de indiferente resignação. Se não mesmo de colaboracionismo.
Costa
Caro GTY, estamos de acordo: “o dito acordo não está em vigor, atentos os seus próprios termos e o direito aplicável (internacional e nacional).”
E estás muito bem acompanhado 🙂
Sim, Teresa, devo dizer que até me senti um pouco vaidoso.