Previsível.


Luís Menezes Leitão,

Durante imenso tempos os jornalistas andaram a fazer uma futurologia completamente absurda sobre as eleições americanas, construindo castelos no ar que era evidente que não resistiriam ao mais leve sopro da realidade. Disseram que o Partido Democrata ia ganhar o Senado, que Hillary Clinton já tinha assegurado 303 votos no colégio eleitoral e que tinha 90% de hipóteses de ganhar a eleição. A certa altura o absurdo foi tão grande que até se pôs a hipótese de Hillary Clinton ganhar o Texas, desde sempre um bastião republicano.

 

Sempre me pareceu que esses jornalistas estavam a tomar os seus desejos pela realidade. Ora, a realidade é que Hillary Clinton sempre foi uma candidata fraca, não conseguindo entusiasmar nenhum eleitor e tendo, pelo contrário, elevadíssimos índices de rejeição no eleitorado. Por isso inicialmente teve que recorrer a Michelle Obama, e mais tarde chamou o próprio Obama, que se envolveu na campanha eleitoral de uma forma que não me lembro de um presidente em exercício alguma vez ter feito pelo seu sucessor. E nos seus comícios teve que recorrer a celebridades como Jay-Z ou Beyoncé para conseguir gerar algum entusiasmo, facto que o próprio Trump não deixou de salientar. Foi por isso uma péssima decisão do Partido Democrático em escolher Hillary Clinton como candidata. Bernie Sanders podia ser um candidato mais à esquerda, mas tinha algumas hipóteses de bater Trump. Hillary Clinton, com os níveis de rejeição que sempre teve nos eleitores americanos, até pelo Rato Mickey seria derrotada.

 

Ora, Donald Trump pode ser conhecido por the Donald, mas não é o Pato Donald. Pode ser extremamente grosseiro, arrogante, provocador e insultuoso, mas é inteligente, ou não teria tido o sucesso que teve nos negócios. Por isso nunca poderia ter sido subestimado, nem se poderia confiar que os eleitores americanos, que o conhecem muito bem há décadas, se escandalizariam com revelações sobre a sua linguagem desbragada.

 

Bastava, aliás, recordar a forma estrondosa como Trump ganhou a nomeação republicana, arrasando candidatos muito mais favoritos, exactamente com o mesmo estilo, para se perceber que Hillary Clinton — que só tinha vencido tangencialmente Bernie Sanders — teria extrema dificuldade em responder ao discurso populista de Trump, de nostalgia pelo regresso ao sonho americano. Ora, o que se viu foi que muitos eleitores alinharam fervorosamente nesse discurso, mesmo nas minorias que Hillary Clinton dava como asseguradas. Na verdade, os media criaram uma ficção de favoritismo absoluto de Hillary Ciinton, que nunca existiu nesta eleição. Por isso, ontem, confrontada com a realidade, Hillary Clinton nem foi capaz de fazer o discurso de derrota, só o tendo feito há momentos.

 

Sun-Tzu escreveu que aquele que se conhece a si mesmo e conhece o inimigo, pode garantir a vitória, mas quem conhece o tempo e o terreno a alcançará de forma absoluta. Manifestamente dos dois candidatos, só Trump percebeu o terreno que pisava: o de um país revoltado, frustrado com a globalização e ansioso pelo regresso ao proteccionismo e ao sonho americano, que ele lhe prometia. Foi por isso o vencedor da noite. Hillary Clinton não percebeu o que o marido tinha percebido ser decisivo para ganhar umas eleições: “It’s the economy, stupid!“.

14 comentários em “Previsível.”

  1. “jornalistas andaram a fazer uma futurologia” Como aquela do Guterres e da Kristalina com o do svidanhia (em russo). Na futurologia, umas vezes acerta-se, outras não.

  2. Não é economia. È a cultura.

    A cultura da esquerda e do jornalismo que a representa é totalitária= Politicamente Correcto. Só se pode existir se se pensar como eles.

    É só olhar para o desastre que se passa nas Universidades Americanas

    http://www.usatoday.com/story/opinion/2016/05/31/donald-trump-politically-correct-speech-codes-column/85163810/

    É também olhar para a TVI, SIC, Expresso, Publico, RTP, etc e ver a uniformidade.

  3. Muito bem.

    Quando afirmava há já uns dois meses que Trump ganharia, os meus amigos chamavam-me de louco e lunático.
    Quando argumentava por antecipação alguns dos factos que ocorreram nestas eleições, onde apresentava uma viragem das populações rurais, profundamente religiosas, no midwest a favor de Trump só não me agarraram para internar porque a coisa poderia ficar um pouco feia.

    Não só gozei com eles desbragadamente depois destas eleições como também verifico que o Luís tem muita sorte em provavelmente não ser amigo destes meus amigos. Provavelmente acorrentá-lo-iam como se fazia no século das trevas se tivesse escrito este post há dois dias atrás.

  4. Bernie Sanders podia ser um candidato mais à esquerda, mas tinha algumas hipóteses de bater Trump.

    A maior parte dos democratas deve preferir ser governada por um republicano a ser governada por um esquerdista.

    No fundo, os dois partidos dos EUA são apenas duas alas de um mesmo partido. E Sanders está fora desse partido.

    1. Verdade Luís. Agora vem esse mito que Sanders venceria Trump. Isso parte do princípio que Trump foi buscar muitos votos de Sanders e que Sanders manteria todos os seus votos e ainda iria buscar todos os de Hillary e ainda ia buscar os dos independentes.

      Ora é aqui que não funciona. A ala mais ao centro do PD não votaria facilmente em Sanders, vendo-o como um risco tão grande para o próprio partido como Trump. E os independentes mais ao centro não votariam nele.

      A soma dos votos das primárias de Sanders e Clinton deu cerca de 30 milhões. Nas eleições Clinton recolheu cerca de 60 milhões. É um pouco demais imaginar que Sanders – visto como um quase comunista pela maioria dos americanos – iria buscar esse mesmo valor.

      Perante Sanders Trump possivelmente abrandaria o tom e iria buscar os votos do centro mais facilmente. Penso que a vitória de Trump seria ainda mais clara e certamente também no voto popular além do colégio eleitoral.

  5. Vejo o teu post Luís como um perfeito disparate. Obviamente que houve quem previsse a vitória de Trump, mas não esteve muito longe de não acontecer. Basta ver que não venceu o voto popular.

    Trump é inteligente? Possivelmente. Clinton também. Trump não foi pela economia. Basta ler a imprensa estrangeira quando finalmente começou a descobrir os votantes core de Trump: brancos sem educação superior mas sem ser das classes mais baixas. De certa forma foram os Archie Bunkers, que viram a sua posição privilegiada na sociedade americana a perder força em favor de mulheres, negros, latinos, asiáticos, etc. Foi para estes que Trump falou. A economia era uma das armas mas nem sequer a mais importante. O essencial foi a forma como deu vazão às frustrações e fez estes eleitores sair de casa.

    Os comentadores nunca deram de forma categórica a vitória a Clinton. As probabilidades de vitória foram variando de acordo com as sondagens feitas. Se estas não bateram de forma perfeita, então não é culpa dos “comentadores” (começa a ser mania – especialmente dos Trumps, Farages e semelhantes – atacar os “especialistas” quando estão errados, como se pudessem estar sempre certos). A culpa, se podemos falar dela, será das sondagens, que não conseguiram ser representativas.

    Desde muito cedo que se tornou claro quais os estados que Trump teria de vencer para obter a vitória. A probabilidade de o fazer era baixa mas existia. Não foram vitórias categóricas mas foram vitórias e bastaram. Para isso muito contribuiu que Trump deixasse o Twitter e o cartinha-rato parida pelo FBI-montanha perto do final. Sem ela e talvez o Rato Mickey tivesse mais dificuldades.

    No fim das contas todas, o essencial: Clinton venceu o voto popular. Devido à forma como os EUA ainda preferem ter a escolha do presidente (colégio eleitoral), acabou por perder a eleição. Mas argumentar que o Rato Mickey venceria Clinton não faz qualquer sentido.

    1. João, Hillary em tudo o que lhe corria mal dizia que a culpa era da Rússia, e pretendeu colar o seu opositor a eles. Acontece que o sistema eleitoral americano há muito que é assim. Espero que se recorde da vitória marginal de Bush.
      Os votantes de Trump possuem o mesmo estatuto e qualificações que os de Hillary, e a educação dita superior no mínimo devia proporcionar que se evitassem os abusos e arbitrariedades que temos visto um pouco por todo o mundo. No entanto não tem sido assim.
      Pretendo com isto dizer-lhe que não existe estatuto que diminua a opção feita pelas populações.
      Uma educação superior deveria permitir fazer uma leitura o mais aproximada possível das circunstâncias que nos rodeiam, e não transformar-se no mito que hoje se cria em torno dela.
      Mais, não existem educações superiores. Existem formados para desenvolver tarefas e pesquisas em certas áreas. Mas essas especialidades não abrem a mente a todo o Conhecimento, limita a área de conhecimento para funções específicas. O restante pertence ao domínio da Sabedoria, que deve ser buscada, experienciada e desejada.

      Diz o João que os comentadores nunca deram de forma categórica a vitória a Clinton. Pois não, eles transformaram-na numa vitoriosa. E ela e eles acreditaram nisso. E ela tanto que acreditou que até enviou os seus apoiantes para a caminha através de um recado do seu director de campanha ao invés de se apresentar diante deles a agradecer, como se exige a qualquer educado superiormente.
      Mais, Trump afirmou por antecipação que ganharia na Florida, Ohio e outros swing-states (chamaram-no louco). Não só ganhou como foi mais longe, ganhou a Pennsylvania e o Wisconsin.

      Por último, os votantes na América são cerca de 138 milhões. Diz o João que o voto popular demonstra uma certa margem de equilíbrio. Logo, Trump falou a mesma linguagem para todos, tal como Clinton, mas o João diz que a metade desse eleitorado é composta por Archie Bunkers e a outra metade por um não sei quê.

    2. “Os comentadores nunca deram de forma categórica a vitória a Clinton.”

      Que tal procurar “Hillary will win in a landslide” ou ler os posts aqui no Delito sobre quem ganharia?

      –
      Não se concorreu pelo voto popular. Os EUA são uma Federação de Estados.
      É impossível de saber quem ganharia caso a disputa tivesse sido pelo voto popular.

    3. Disparate é este comentário. Nunca esteve em causa lutar pelo voto popular. Nesse caso a campanha far-se-ia apenas nos Estados mais populosos. Estava em causa ganhar o colégio eleitoral, pelo que se fez campanha nos Estados que poderiam dar a vitrória eleitoral. E nesse campo Trump teve uma vitória monumental em que ninguém acreditou e muitos se recusaram a aceitar, mesmo pela noite dentro.

      Quem continua a achar que a vitória de Trump se deveu apenas aos Archie Bunker — os “deplorable” de que falou Hillary Clinton — manifestamente não percebe o que se está a passar. É, aliás, espantoso que se ache que uma candidata que nem conseguiu fazer o discurso de derrota na noite eleitoral, fosse capaz de ganhar uma eleição contra quem quer que fosse.

      1. Luís, nunca disse que o que estaria em causa era o voto popular. Usei-o para exemplificar que Clinton não perderia tão facilmente como queres fazer crer.

        Fui eu que decidi chamar a esse grupo demográfico que terá sido o principal responsável pela vitória de Trump de “Archie Bunkers”. Nunca li esse termo quando vi artigos que falavam dos “White, blue collar workers” que seriam os principais apoiantes de Trump.

        Mas permite-me que tenha mais confiança nos jornalistas que admitiram o seu falhanço nas previsões, foram em busca da verdade e apoiaram-se em múltiplas análises estatísticas para chegar a estas conclusões. Prefiro essas análises as tuas de sofá, que deram nas certezas kristalinas do passado (e que eu, do meu sofá, partilhei).

        1. Posso ter falhado na Kristalina, mas acertei no Brexit e no Trump. Por enquanto o meu sofá ainda leva vantagem sobre os que “foram em busca da verdade e apoiaram-se em múltiplas análises estatísticas para chegar a estas conclusões” completamente absurdas. O problema é que muita gente busca a sua verdade e não vê o que se está a passar. A verdade nem sempre corresponde ao que desejamos.

          1. OK Luís, parabéns. Ganhaste. És excelente a prever eleições (até tiro daqui a eleição do secretário-geral da ONU porque é com pouca gente e tem um elemento de política mais difícil de prever).

            Não me venhas é dizer que as conclusões foram absurdas. Foram erradas (suponho que nunca te enganaste, sorte tua, é a escola Cavaco Silva, suponho). Os resultados, mesmo nos estados onde Trump ganhou contra as expectativas das sondagens, nunca foram assim tão diferentes entre os candidatos e com apenas um pouco menor mobilização do eleitorado Trump Clinton poderia ter vencido.

            Mas as tuas análises são certamente feitas por ler meios de informação semelhantes àqueles que eu uso (e muitos deles terão também errado). Isto é suposição minha, porque não te consigo imaginar, entre afazeres profissionais e vida pessoal, a fazeres um tour dos EUA para teres conhecimento de causa.

            Destas vezes estiveste certo. Doutras estarás errado. Se nunca estiveste errado numa eleição, aconselho-te a começares a ser consultor de sondagens. Seria uma forma simples de aumentar os rendimentos e de poupar fortunas aos candidatos, partidos, media, etc.

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