«Estabeleceu-se e orientou-se uma tendência para a preguiça intelectual e nessa tendência os meios de comunicação têm uma responsabilidade.»
José Saramago (2001)
Alguns correspondentes de canais televisivos portugueses nos Estados Unidos e alguns enviados especiais a Nova Iorque – que mal desembarcam em Times Square logo se transformam em “especialistas” da política norte-americana – foram incapazes, até ao momento, de explicar as causas do sucesso eleitoral de Donald Trump.
Continuam a reduzir o recém-eleito Presidente norte-americano às anedotas. Deles se esperariam que fizessem reportagens mas preferem debitar editoriais defronte das câmaras, dizendo-nos o que pensam sobre o milionário que andou por aí a “insultar tudo e todos”, como um deles repetia ontem à hora do jantar. Sem perceber que a campanha eleitoral terminara já.
Andámos assim durante 16 meses.
Trump foi derrubando sucessivas barreiras – contra o establishment republicano, contra a esmagadora maioria da opinião publicada nas cidades-chave, contra a nata do show business que apoiou a sua adversária democrata, contra o Presidente Obama e a primeira dama – mas a explicação rigorosa e fundamentada para a progressão eleitoral do magnata continuou sem surgir: sobravam apenas anedotas de circunstância.
Eis que Trump vence, conquistando redutos rivais como a Pensilvânia (que elegia candidatos democratas desde 1992) e o Wisconsin (fiel ao Partido Democrata desde 1988). Será o primeiro Presidente republicano a governar com maioria simultânea do seu partido nas duas câmaras do Congresso desde o remoto mandato de Calvin Coolidge, em 1928.
Como é que um homem sem ligações permanentes aos circuitos do poder em Washington, diabolizado na generalidade da imprensa de referência e que nunca exerceu um cargo público (nem senador, nem congressista, nem governador), alcança um êxito tão retumbante nas urnas?
Lamentavelmente, ficou uma excelente história por narrar.
Durante ano e meio não houve praticamente uma notícia que aludisse a Trump num contexto favorável, capaz de lhe reconhecer méritos. Já mesmo depois de contabilizados os votos nas urnas, alguns correspondentes e enviados especiais continuam incapazes de fornecer explicações. Viveram durante demasiado tempo em estado de negação, sofrem agora um choque de realidade.
Acabou o tempo em que alguns editorialistas, com a força da sua pena, faziam eleger presidentes. Trump acaba de demonstrar que sem o apoio da chamada elite do jornalismo, e até hostilizando-a abertamente, é possível triunfar nas urnas. Durante a longa campanha eleitoral, passou todas as mensagens que quis e quando quis recorrendo quase em exclusivo às redes sociais.
Um dos marcos desta campanha – pela negativa – ocorreu quando o Washington Post, que em 1974 conseguiu derrubar o presidente Richard Nixon com uma investigação jornalística sólida e séria, optou desta vez por dar destaque a uma alcoviteirice sobre Trump com base numa gravação feita à socapa, em 2005, de uma conversa estritamente privada. Ao nível de qualquer tablóide de vão de escada, o que diz muito sobre os tempos que vivemos.
Por tudo isso estas eleições nos Estados Unidos não devem suscitar só reflexões de âmbito político: justificam igualmente uma análise séria sobre o rumo dos meios de comunicação no mundo contemporâneo. Porque, de algum modo, representam também um marco irreversível na decadência do jornalismo clássico, cada vez mais irrelevante.
Ninguém tenha ilusões: há páginas que se viram para sempre.

![imrs[2].jpg imrs[2].jpg](https://delito.brucke-multimedia.com/images/2016/20038752_kY2Bz.jpeg)
A Marcia começou a sua campanha nos EUA a chamar louco ao candidato. A cara dos média que pagamos, à força.
Deve ter sido gralha verbal. Queria dizer louro.
Como é que pode existir jornalismo se os jornalistas só têm uma cultura?
A cultura do cheeleader politico de esquerda.
Há algum jornalista curioso?
Há algum jornalista que se interessa por engenharia, medicina ou seja algo que não seja política ou desporto?
A Engenharia tem contribuído muito mais para a melhoria de vida das pessoas que a Política mas nenhum jornalista se interessa…
Porque o jornalismo não existe para informar mas para dar mais poder à Política. Para entrar para as SIC’s, TVI’s Expressos, Publicos, Washington Post, New York Times a primeira coisa é o jornalista ter as ideias política certas.
A política certa que nos diz que o Obiang é um malvado Ditador Guinense mas que o Fidel é um Líder Cubano.
Nessa cultura não se pode esperar que exista jornalismo. Existe uma claque profissional.
Os jornalistas “só têm uma cultura” e você só tem um ‘colt’. Dispara sempre o mesmo.
Concordo em absoluto, com post.
E já agora: Os jornalistas “só têm uma cultura” e você só tem um ‘colt’. Dispara sempre o mesmo.
Boa malha, eh eh eh 🙂
Caro Pedro: ersistir-contra-o-acordo-ortografico.htm l
O loucolucky só tem uma bala e ata-a com um cordel, como na anedota do Solnado.
Por isso dispara sempre a mesma contra qualquer alvo que lhe apareça.
———————-
P. S. Caro Pedro, conhece isto?
http://dererummundi.blogspot.pt/2016/11/p
(Manuel Silva)
Gostei muito da leitura para que o seu ‘post scriptum’ me encaminhou. Fico-lhe agradecido.
É um assunto inesgotável, como sabemos. Hei-de voltar a ele muito em breve.
O Jornalismo é só o problema mais importante no Ocidente.
Que já desde antes da Segunda Grande Guerra anda a tentar destruir.
A única razão porque a Segunda Grande Guerra contra os Nazis não foi uma Guerra Imperialista do Grande Capital contra a Alemanha Nazi é porque a União Soviética foi atacada.
Isso hoje está fraco, aí do seu lado. Ir buscar a invasão da URSS pela Alemanha a propósito da vitória eleitoral de Trump e da crise da decadência do jornalismo é uma bota que não cola com a perdigota.
Só demonstrei o que o jornalismo desde há muito tem feito como transformar a Segunda Grande Guerra numa Guerra Justa e a defesa do Vietname numa Guerra Injusta.
Isso já é recuar muito. Mais um pouco e chega à Guerra da Secessão norte-americana.
Caro Pedro:
Eu diria que o loucolucky não tardará a recuar até à Guerra dos Cem Anos – a mãe de todas as guerras no Ocidente em duração.
Cumprimentos.
(Manuel Silva)
Só possível acontecer quando se formou a cultura Marxista.
Malcolm Muggeridge até escreveu uma novela sobre o Jornalismo e Estaline ggeridge
https://en.wikipedia.org/wiki/Malcolm_Mu
“Muggeridge turned back to novel writing, beginning Winter in Moscow (1934), which describes conditions in the “socialist utopia” and satirises Western journalists’ uncritical view of Joseph Stalin’s regime.”
Claro que antes de 1939 tivemos Walter Duranty do New York Times que ganhou o Pullitzer pelas falsidades que escreveu sobre a União Soviética anty
https://en.wikipedia.org/wiki/Walter_Dur
Na narrativa Marxista, 1939 até ao 22 Junho em que os Nazis invadiram a União Soviética a Segunda Grande Guerra foi uma guerra Imperialista dos Aliados.
Foi por essa razão que vários sindicatos Franceses afectos ao PCF tentaram e sabotaram várias fábricas de armamento antes e quando a Alemanha Nazi invadiu a França. Foi por essa razão que o CPUSA defendia o pacifismo Americano durante o período 1939-41.
A narrativa mudou a partir de Junho 41, desde essa data os soldados mortos americanos já não morreriam por culpa do grande capital. Mas caso Hitler continuasse Aliado a Estaline a guerra contra o Nazismo teria sido uma guerra do grande capital.
E assim foram retratadas todas as guerras do Ocidente nos jornais a seguir à Segunda Grande Guerra.
E bem séria que deve ser a reflexão; a supremacia intelectual dos média sobre a população inverteu-se, e parece que não repararam; o acesso a outras fontes de reflexão e info são generalizadas e os média parece que não notam (ainda mais os que têm a renda garantida, por todos nós)
Ou acordam e dão corda nos sapatos ou soçobram. E andarem a dar tiros uns aos outros é patético.Ou a fazerem camõezadas ou peixotadas só desacredita os bons que ainda por aí lutam pela vida.Os pastorinhos dos amanhãs que cantam devem ir para a IURD.
As vitórias do Brexit, do referendo na Colômbia e agora dos republicanos nos EUA – sempre contra o jornalismo dominante – são sinais claros de mudança na política mundial. Outros vão seguir-se.
Mas são também sinais claros de mudanças irreversíveis na influência social e política do jornalismo. Por “preguiça intelectual”, antes de mais nada, como Saramago alertou em devido tempo.
Ainda bem que vai haver um Congresso dos Jornalistas
O anterior realizou-se no século passado. O que diz tudo sobre o estado desta profissão.
Citar Saramago, o “jornalista revolucionário”, a propósito da decadência da classe jornalística, é muito meta.
Saramago, o Nobel. Observador atento da decadência do jornalismo também.
Que vem de longe, como sabemos.
Sim, mas o problema maior é a falta liberdade, a Sociedade não permite que se diga em alto e bom que se é homofóbico, racista, homosexual…. pois a pessoa fica marcada para sempre. Este sim o grande problema da sociedade e que a comunicação social apenas reflecte.
Sem jornalismo pujante não existem sociedades verdadeiramente livres. Caminhamos para sociedades onde o jornalismo se torna irrelevante, o que é profundamente preocupante. Em grande parte, diga-se, isto ocorre por culpa dos próprios jornalistas.
Começaram por render-se aos “jornais gratuitos”, incutindo no cidadão comum a noção de que não era necessário pagar por informação.
Continuaram abrindo conteúdos de borla nas suas edições digitais. Resultado: as vendas em papel baixaram drasticamente.
Prosseguiram fazendo decalcar cada vez mais os conteúdos jornalísticos das “redes sociais”. Sem preocupações com o rigor, com o contraditório, com a deontologia. Sem hierarquizar temas, cultivando o episódio e o irrelevante – tal como nas “redes sociais”.
Todos estes erros – somados ao longo de duas décadas e a que se juntaram vários outros . têm contribuído para pôr fim ao jornalismo tal como o conhecemos em dois séculos de história da humanidade.
Concluindo, o chamado medo social e quando se tem medo não se é livre.
Em democracia, há sempre um recurso. O voto.
Exacto, como foi provado na Terça!
Tal e qual. Podemos não gostar da decisão popular, mas devemos aceitá-la. Seja onde for.
Subscrevo, Pedro. Mas tudo como d’antes, quartel general em Abrantes.
Mais do mesmo, Diogo. Os erros de ontem repetidos hoje. E prontos a repetir amanhã. Porque nunca se retiram consequências dos erros e nunca se apuram responsabilidades. Pelo contrário, há sempre uma recompensa para o infractor.
Meu caro
É o momento de lembrar que entre os comentadores do DO houve um que desde muito cedo – e por mais de uma vez – previu a vitória de Trump e em meia dúzia de linhas disse o que tinha a dizer: o comentador “Vento”.
Como quem acompanha “esta casa” sabe bem que não sou suspeito de “estar feito com ele” nos elogios, aqui deixo esta menção.
Não me recordo disso, meu caro. Não devo ter lido.
Peço-lhe desculpa mas só agora me dei conta que falhei: excelente artigo.
Aproveito para trazer aqui algo que li ontem por aí num comentário algures:
“Chamar ignorância à ira anti-sistema é profundamente imbecil. E não se lhe chame facilmente populismo, a outra grande mentira habitual e automatizada do sistema”
“Trump nâo é a causa, é o efeito. Basta inverter isso para se perder completamente qualquer possibilidade de compreender o que se passa – e passará. Nos EUA e em 30 outros países mundo fora”
Com os meus agradecimentos a quem o escreveu.
Obrigado pelas suas palavras, meu caro. E subscrevo sem favor as que aqui traz como citação.
Populismo é um dos rótulos de que se usa e abusa nos tempos que vão correndo. Dá para designar quase tudo e significar quase nada ao mesmo tempo.
Todos tão chocados com o Trump e afinal nem percebiam que a geografia eleitoral nos States estava a mudar ..
Os jornalistas devem ser os primeiros intérpretes dos sinais dos tempos. Infelizmente têm passado para a carruagem dos últimos.
Bulshit !
És tu, Donald?
Pedro, discordo profundamente de ti em relação à divulgação pelo Washington Post daquela gravação. Eis porquê:
1) não foi o WP a fazê-la à socapa. Apenas lhes chegou às mãos.
2) a conversa não sugiu num ambiente de coacção. Trump disse o que quis e como quis.
3) o mais importante: Trump vangloriou-se publicamente de cometer actos criminosos. Se os cometeu ou não será essencialmente impossível de o saber. Trump podia estar de facto só a mandar bocas. Mas gabou-se de tais actos, como se os considerasse minimamente aceitáveis.
Ora, perante isto, o assunto torna-se obviamente de interesse público. O próximo presidente dos Estados Unidos da América considera aceitável dizer que comete actos de assédio sexual. Se os cometeu ou não (e penso que está perfeitamente dentro do seu perfil pessoal fazê-lo) é pouco importante. Ele simplesmente considera que é correcto dizer tais coisas.
Não é preciso grande pensamento para ver que isto é importante, ainda mais num país que costuma(va) ligar ao carácter dos presidentes. A públicação pelo WP não foi uma história de alcoviteiro. Foi um trabalho que se impunha.
João, discordo profundamente da tua discordância.
Um jornal com os créditos firmados do Washington Post não deveria ter descido ao nível da subcave, reproduzindo uma conversa informalíssima, privadíssima, remotíssima (de 2005) e obtida por meios mais que duvidosos.
A partir deste precedente, que nenhum jornal sério até agora tinha posto em prática, a chamada imprensa credível adopta o padrão do tablóide mais rasca. Qualquer conversa de balneário ou de urinol (e porque não de cama?) chega a manchete dos chamados “faróis do jornalismo”, sob o álibi do “interesse público”.
Todo o jornalismo de sarjeta invoca sempre o interesse público. Lamentavelmente, o WP desceu a esse nível. O que revela bem até que ponto a crise do jornalismo é uma triste e talvez irreversível realidade.
Consideras então irrelevante que o presidente da principal democracia do mundo seja uma pessoa que gaba de cometer assédio sexual ou violações (mesmo que seja só conversa)? Muito me contas.
Considero péssimo jornalismo a reprodução de conversas em registo obviamente informal e privado, obtidas sem conhecimento dos visados, por meios ilícitos, seja qual for o conteúdo das baboseiras que estiverem em causa.
O código deontológico dos jornalistas é claro: “O jornalista deve utilizar meios legais para obter informações, imagens ou documentos e proibir-se de abusar da boa-fé de quem quer que seja.”
Admito excepção a este imperativo apenas em situações de potencial homicídio – ou seja, se Fulano disser que irá matar alguém.
Só.
Se abriu a época da “caça à conversa de urinol”, ou de cabeleireiro, ou de elevador, ou de cama, ou de assento traseiro do automóvel, isto nunca mais vai parar.
E cessa em absoluto a fronteira entre esfera íntima e esfera pública. Ou seja: cessa qualquer diferença entre jornalismo e alcoviteirice.
Determina também o código deontológico: “O jornalista deve respeitar a privacidade dos cidadãos excepto quando estiver em causa o interesse público ou a conduta do indivíduo contradiga, manifestamente, valores e princípios que publicamente defende.”
Acontece que aquela gravação remonta a 2005. À época, Trump não desempenhava qualquer cargo público.
Com esta “notícia”, o Washington Post – que se distinguira pela revelação do caso Watergate – desceu muitos patamares na escala da credibilidade, colocando-se ao nível de qualquer tablóide especializado em escândalos de alcova e balneário.
A minha escala de exigência em relação a jornais como o WP é tão grande que considero inaceitável esta deriva.
Acho bem que exista essa escala de exigência, mas há de facto provisões para certas excepções, como explicas. Do meu ponto de vista, as declarações de Trump nessa altura são de interesse público por demonstrarem completo desprezo pelos direitos de metade da população. Nesse sentido o facto de terem sido feitas em 2005 é irrelevante. Não se trata de ter mudado de opinião em relação ao aborto, posse de armas, invasão ou retirada do Iraque, tratados comerciais ou tantos outros assuntos em que “mudou de opinião”. Trata-se de um aspecto mais importante: o de não ter respeito pelos seus cidadãos.
Já aquele vídeo de dizer que daí a 10 anos a miúda seria sua namorada, por nojento que seja, já o vejo como sendo contemplado pelo que escreves. É apenas um comentário parvo mas que apesar de demonstrar pouco respeito, não implica qualquer acto criminoso.
Tu abririas uma excepção apenas para confissões de homicícios futuros. Eu não. Abro a excepção a casos de crimes ou atitudes que serão crime. Foi o caso. Mas OK, eu não escrevo o código deontológico dos jornalistas nem sequer vou às aulas. Mas não esperaria tal relatividade moral de alguém tão obviamente cristão como tu.
Não há relativismo moral nenhum, João: pelo contrário, há fidelidade ao imperativo moral do jornalismo inscrito no código deontológico. Que obriga todos quantos o juraram e mesmo podem não exercer episodicamente ou definitivamente o jornalismo – é esse o meu entendimento.
Eu abriria uma excepção, como acentuei, para casos em que estivesse em manifesto risco a vida ou a integridade física de alguém em concreto.
Os padres têm o mesmo dilema, nessas situações limite, no exercício do sacramento da confissão.
As declarações a que aludes só denotam a gabarolice pateta de um fulano a falar livremente com outro fulano. Milhões de gajos fazem o mesmo todos os dias, em todo o mundo, dizendo que fizeram e aconteceram e coisa e tal.
Interesse público? Nenhum.
Até porque – repito – Trump não exercia à época qualquer cargo público, não estava na política nem era sequer filiado em partido algum.
Se esse blablá de balneário ou caserna fosse notícia na chamada imprensa “séria” deixaria de haver distinções entre ela e o tabloidismo mais rasca.
Pedro, vou deixar de lado a questão se era ou não relevante. Foco-me apenas num aspecto: quando Trump diz que "agarra pela rata" as mulheres, está a assumir que comete um crime. Se isso depois dá em sexo, poderá ser outro, violação. Se não o fez, então não vê mal numa conversa que trata as mulheres como objecto. Não me venhas com essa de conversa de balneário. Trata-se potencialmente de confissões de crimes. Tratar o assunto de outra forma é errado, ponto final.
E é irrelevante se ele tinha ou não cargos. Tê-los não o torna nem mais nem menos perante a lei. Só ele, que repudia qualquer lei, é que pensa que sim.
Extraordinário. Um fulano – sem cargo público de qualquer espécie – gabarolar-se de supostas conquistas sexuais em conversa privadíssima e descontraída com outro fulano para ti é “crime”.
Se a tua lógica vingasse não haveria páginas no código penal para tipificar tanto “crime”. Nem haveria juízes nem tribunais para dar sequência a tanto processo. Nem haveria estabelecimentos prisionais disponíveis para acolher tantos indivíduos eventualmente condenados.
Espanta-me que sustentes uma posição dessas, só possível de ser aplicada em estados totalitários, onde toda a gente escuta as conversas alheias e não existe fronteira entre a esfera pública e a esfera privada. ntra-a-devassa-da-vida-alheia-8792984
Eu estou no campo oposto ao teu: sou e serei contra a devassa da vida alheia, como aqui tenho escrito vezes suficientes. Um exemplo recente:
http://delitodeopiniao.blogs.sapo.pt/co
Até prova em contrário, uma conversa privada entre um cidadão não detentor de qualquer cargo público e outro cidadão não detentor de qualquer cargo público é apenas isso: uma conversa privada. t/o-amadorismo-dos-profissionais-8761699
Já sabia que o arquitecto Saraiva não pensava assim. Por isso chamei “livro mais execrável do ano” à coisa que esse senhor deu à estampa.
http://delitodeopiniao.blogs.sapo.p
Na altura, se bem recordo, estivemos de acordo. Lamento que desta vez pareças afinal validar a tese dele.
Pedro. Trump não se gabou de conquistas sexuais. Gabou-de de fazer coisas que são crime. Se consideras que “agarrar pela rata” uma mulher não é criminoso, então nem me dou ao trabalho de escrever mais nada. Estaremos a anos luz.
Se o interlocutor do Trump nesse diálogo privadíssimo – idêntico a milhões de outras conversas de chacha travadas de há 12 anos para cá em todo o mundo entre dois sujeitos – fosse o arquitecto Saraiva, haveria matéria para um novo livro de coscuvilhices.
Um livro que poderia até transformar-se em ‘best seller’. Besta célere, em português.
Só essa expressão que já citaste aqui duas vezes em discurso directo daria para umas cinquenta páginas.
E se outro interlocutor dele fosse o ex-presidente Clinton, especialista em aliciar estagiárias na Casa Branca e pegar-lhes sabe-se lá por onde, daria mais dois ou três volumes.
Nada que deva estranhar quem considera que hoje todo o jornalismo se confunde cada vez mais com tabloidismo. E que todo o leitor é no fundo um ‘voyeur’.
Eu não estou nem aí. Saraiva não me serve de referência. E o ‘Washington Post’ que admiro é o de 1972-74, não o de 2016.
Deles se esperariam que fizessem reportagens mas preferem debitar editoriais
Um editorial fica mais barato do que uma reportagem. Uma reportagem jornalística é uma coisa cara e demorada de fazer. É muito mais barato e rápido encomendar uma opinião ou um editorial.
Os jornais ficam transformados em blogues.
O que é barato sai caro.
“Por um saber de experiência feito” conhecia o descontentemento da maioria silenciosa, nos EUA e em outros países. Trump, um homem do mundo, percebeu, arriscou e ganhou. Basta ler as suas propostas eleitorais. Quanto aos meninos … cresçam e apareçam.
O “establishment” nas suas torres de marfim acordou incrédulo, mas já anda a tenter acertar o passo.
Será que não aparece por aí um A Soares dos Santos ?. É que dos inócuos Passos, Rios e Cristas estamos mais que fartos.
Ps. Não sou funcionário público, claro.
Divertido.
Haverá efeito de contágio, não tenho dúvida. Aliás o próprio Trump já beneficiou desse efeito, bem visível no Brexit.
A clivagem política no mundo actual deixou de ser a clássica esquerda-direita: passou a ser moderação-radicalismo. Com franjas extremistas a oscilarem livremente entre o que se convencionou chamar esquerda e o que se convencionou chamar direita.