Presos por um fio


José Meireles Graça,

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Vasco Pulido Valente disse algures (cito de cor) que os Portugueses gostariam de História se alguém a escrevesse.

Este livro é sobre um período de terror na nossa História recente, isto é, entre 1980 e 1987, quando mais de metade dos Portugueses hoje vivos já tinha vinte anos ou mais no primeiro daqueles anos, e do que se seguiu para estancar a ferida.

Todavia, nem por isso boa parte dos sucessos descritos é do conhecimento da quase totalidade das pessoas: uns porque nem na altura foram divulgados; outros porque foram mas de forma enviesada; e todos porque fazem parte de um período negro que o bem-pensismo oficial à época desvalorizou e depois sempre quis fazer esquecer.

Esquecer os factos, o manto de silêncio que sobre eles se abateu e a “reconciliação” que pôs, pelo perdão das penas, uma tampa ao terrorismo da extrema-esquerda sem que as vítimas tivessem, na equação, alguma espécie de compensação, justiça ou sequer lembrança.

Mas houve assassinados (18) e feridos (mais do que isso). Os assassinos, e sobretudo os seus mentores, andam por aí sem sinais de arrependimento, e dão entrevistas, e conduzem as suas vidas como se convicções políticas que originaram crimes hediondos pudessem gozar de alguma forma de respeitabilidade.

Não há no livro nem viés ideológico, nem espírito revanchista. Há uma narrativa rigorosa e desapaixonada, fundada numa investigação exaustiva, de aspectos mal conhecidos de um passado recente. E sim, os Portugueses, ao menos os que leem, poderão, por grande que seja o seu distanciamento destas coisas, ficar a conhecer uma parte essencial da meninice do nosso regime democrático.

8 comentários em “Presos por um fio”

  1. As amnistias políticas deixam sempre um amargo na boca. Fazem-se para pacificar a sociedade mas daí nascem injustiças. São mais comuns do que pensamos.
    Basta pensar quantos PIDES cumpriram pena que se visse embora, mesmo no ordenamento do Estado Novo, a tortura de presos fosse ilegal. Sem falar de assassinos confessos como Rosa Casaco ou Barbieri Cardoso que passearam em liberdade. Um dos nossos ex-presidentes até condecorou agentes da organização, como se fosse uma obra muito pia e santa. As investigações aos ataques dos grupos de extrema direita em 1974 e 1975 nunca foi feita, o Cónogo Melo até ganhou uma estátua.
    Tentar levantar a poeira destes casos pode ser necessário, ou justo, mas raramente é desinteressado.

    1. Que eu saiba, os pides não foram amnistiados. Mas sim, seria interessante saber com detalhe por que razão, ao menos durante o PREC, que durou até quase ao fim de 1975, nunca foram seriamente incomodados. A investigação aos grupos de extrema-direita também nunca foi exaustivamente feita, talvez porque não tenham produzido nem de longe o mesmo número de mortos e feridos e ainda porque se inseriram no esforço de reacção à deriva comunizante do país, que seria a consagração de uma traição aos alegados “valores de Abril”. Finalmente: interessados ou não, os estudos históricos são respeitáveis se feitos com isenção e abundância de factos que sustentem uma interpretação consistente deles. Aguardo outros estudos sobre outros sucessos, sendo evidentemente difícil apreciar trabalhos que não foram feitos ou livros que não foram escritos.

      1. Ser amnistiado ou não ser acusado de um crime que se cometeu, são coisas diferentes que têm o mesmo efeito. Se calhar os perigosos comunistas do PREC eram mais tolerantes com a extrema direita do que se pensa. Extrema direita essa que enquanto esteve no poder não pode ser acusada de ter sido tolerante ou democrática.
        Essa ideia de que os mortos que foram feitos por pessoas que nós simpatizamos são mais justificados que os mortos feitos pelos outros não é muito original. É por haver tanta gente com esses princípios que andar a buscar culpas já amnistiadas ou esquecidas raramente é bom.

  2. Uma sugestão interessante, seria ainda mais interessante se viesse acompanhada de uma outra…”Quando Portugal ardeu”, de Miguel Carvalho, da editora Oficina do Livro.

    1. Não li, não vou ler nem me parece que para apreciar um livro sobre um determinado período se tenha de ler outro sobre um período diferente. Leria se soubesse alguma coisa do autor e o título não fosse, só por si, suspeito (pela aragem deve ter a ver com o incêndio de sedes do PCP, a famosa agremiação das paredes de vidro opacas. Peço desculpa se for uma obra sobre incêndios florestais). Finalmente: recomendar qualquer leitura requer que quem o faça tenha ao menos nome, para não falar de alguma autoridade.

      1. É uma pena porque assim ficaria a conhecer “uma parte essencial da meninice do nosso regime democrático”, os primeiros anos. Digo eu, um simples anónimo, que vê na autoridade, qualquer coisa como a presunção e a água benta, cada um toma a que quer.

  3. Sempre que vejo pessoas de Extrema-Esquerda no período do 25 de Abril parece-me que estão numa luta interior entre a sua cultura de base católica onde está sempre presente algo maior – até no tratamento interpessoal – e a violência que vem das certezas da ideologia Marxista.
    Não tenho dúvidas que foi algum peso civilizacional católico nessas pessoas que impediu crimes e mesmo genocídio social em Portugal.
    Na África Portuguesa onde esse peso era bem inferior tivemos matanças sucessivas.

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