Presidenciais (26)


Pedro Correia,

Oiço comentadores televisivos, muito enojados, defendendo a discriminação entre candidatos presidenciais. Do alto das suas tribunas na pantalha, onde quase nunca têm nada de relevante a dizer, alguns destes comentadores, incluindo jornalistas, proclamam ao País que vários desses candidatos não deviam ter concorrido e que é uma maçada os órgãos de informação terem o dever deontológico de acompanhar minimamente todas as campanhas no terreno.

Facto notável, este: ouvir jornalistas a defender a discriminação. Com todas as letras.

Um desses jornalistas/comentadores chegou ao ponto de defender que jornais e televisões deviam seleccionar a cobertura desta corrida presidencial em função do que dizem as sondagens, ignorando tudo quanto não se encontrar “bem posicionado” nos inquéritos de opinião. Trata-se, por sinal, da mesma figura que anda há anos a clamar pela necessidade de haver “profundas alterações” na política portuguesa, com novos rostos e novos nomes.

Escuto outra, eleição após eleição, suspirando de nostalgia: antigamente, sustenta esta, é que havia campanhas políticas feitas de emoção e com personalidades de altíssimo nível. Esquece que nessa altura ela própria já falava assim das anteriores. Para certas criaturas o tempo óptimo é sempre aquele que ficou para trás. Um dia dirão isso mesmo do tempo actual.

Adoro estas certezas de geometria variável, sempre sujeitas aos ventos dominantes. Alguns, quanto mais apelos fazem à mudança, mais desejam que nada mude.

0 comentários em “Presidenciais (26)”

  1. Excelente post, Pedro. Muito bem!!!

    Note-se que estes jornalistas (chamemos-lhes assim – na verdade, são meros funcionários de quem lhes paga) têm menos razão ainda quando se trata de eleições presidenciais, porque, nelas, todos os candidatos tiveram que fazer o mesmo esforço – coletar 7500 assinaturas – para se candidatarem. Enquanto que nas legislativas um partido só coleta assinaturas uma única vez – que pode já ter sido há muitíssimos anos – e a partir daí pode concorrer de todas as vezes, mesmo que já tenha pouquíssimos militantes. Nas eleições presidenciais, pelo contrário, todos os candidatos têm que demonstrar que têm um mínimo de popularidade, aqui e agora.

  2. Pior que isso, vi comentadores muito enjoados por existirem 10 candidatos. Opinavam que só se deviam candidatar os candidatos sérios e que o facto de muitos se candidatarem é uma falha da democracia.

    Parece que acham que somos todos iguais, mas uns são mais iguais que os outros.

    1. Por vontade desses enojados seriam eles próprios a designar quem merecia ou não candidatar-se.
      E alguns ainda se atrevem a falar em “valores republicanos” sem morderem a língua…

  3. Jornalistas que querem mudar o mundo, logo vêem-se como a elite, a aristocracia. Falar com o candidato xyz que terá 5000 votos é uma perda de tempo nessa missão. Q

  4. Completamente de acordo, Pedro. E dizem mais, dizem que isto “mata” o jornalismo (se calhar “mata” mesmo alguns jornalistas) porque lhe retira o critério, obrigando-os a tratar por igual aquilo que é diferente. Mas o problema está mesmo no critério. E na falta dele…
    E por falar em critérios, não seria mau que todos esses senhores e senhoras começassem por nos dizer a que critérios deveriam os candidatos obedecer. Podia ser que a Constituição os pudesse aproveitar.

    1. Caro Eduardo, os mesmos que falam em “critério jornalístico” pretendem afinal guiar-se pelo “critério” das sondagens. E nem reparam até que ponto estão a cair em contradição…
      Choca-me sempre ver jornalistas desdenhar e renegar tudo quanto é novo. Só apostam no acompanhamento dos consagrados, naquilo que já conhecem. Esta é uma atitude anti-jornalística por excelência: o jornalismo tem a obrigação de ser sempre sensível à novidade.

  5. …Esquece que nessa altura ela própria já falava assim das anteriores. Para certas criaturas o tempo óptimo é sempre aquele que ficou para trás. Um dia dirão isso mesmo do tempo actual…. Delicioso, caro Pedro Correia. Não acrescentaria mais nada ao que aqui disse. Apenas para o secundar.
    Um bem haja,

  6. Aceito as críticas dos comentadores aos jornalistas quando tiverem a coragem de me dizer que não se importariam que Tino de Rans fosse presidente da República. Se acham que alguém que não consegue entender o que está na constituição se pode candidatar ao cargo. É preciso não cair na esparrela do politicamente correcto e dizer que não. Nem todos nós nos podemos candidatar a todos os cargos.

    1. Quem tem 35 anos, está na posse dos direitos políticos e reúne as assinaturas previstas na lei candidata-se a Presidente da República.
      O elemento mais diferenciador do sistema republicano na comparação com o monárquico é precisamente este: qualquer um pode chegar ao topo do Estado. A escolha compete ao conjunto dos eleitores.

      1. Quem assina por tais candidatos fá-lo porque sabe que não ganhará. É por isso que eu, Pascal e Erasmo preferimos a monarquia que não sendo razoável é o melhor dos sistemas possíveis.

        1. Tem todo direito de defender essa forma de Estado. Considero aliás um erro grave a Constituição Portuguesa blindar o sistema republicano. Devia ser possível organizar um referendo sobre o sistema de Estado que os portugueses preferem. Esta é uma das várias alterações à nossa lei fundamental que eu defendo.

  7. Apoiado. Estes “democratas”que baseiam a sua superioridade em factos tão relevantes como o comer bolo rei com uma elegancia supimpa, imagino-os com destacados membros da provavelmente saudosa comissão de censura; conheci alguns e comparando,certo que a memoria nos atraiçoa, mas parece-me que estes de hoje são ligeiramente mais broncos do que esses outros.

  8. Parabéns. Por este texto, e pelos restantes, em que fez apontamentos sobre os diversos debates e candidatos.

    Sim, já enjoa o enjoo dos pintos, armados em galos, falando de poleiro, sobre o excesso de candidatos ao poleiro.
    Numa coisa não há falta de candidatos, e de eleitos – é nos cargos de filhos-da-puta.
    Deixa-se o assunto à reflexão materna.

    O regime republicano inicial fazia eleger o Presidente indirectamente, pela Assembleia, e proibia todo o voto a analfabetos.
    Foi Sidónio que retomou o voto de analfabetos, e instituiu a eleição directa do presidente.

    Que continue a ser ensinado que Sidónio era um ditador, e que haja hoje quem prefira declarar-se herdeiro da 1ª República, dos Afonsinhos da Costa, ou ainda de tiranetes facínoras, como o Marquês de Pombal, mostra bem que o GOL continua a manter viva a sua herança de filha-de-putice institucionalizada.

    1. É como diz: Sidónio, rotulado de “ditador” pela historiografia oficial, foi afinal o primeiro a alargar o voto a camadas populacionais que nunca a ele haviam tido direito. E também o primeiro a impor a eleição do Presidente da República por sufrágio directo.

      Agradeço-lhe, naturalmente, as palavras iniciais.

  9. É extremamente pernicioso sugerir que sejam as sondagens (já para não falar das amizades/contactos) a ditar quais são os candidatos que vão beneficiar de cobertura mediática ditada pelos “critérios editoriais” dos diversos órgãos comunicação social. Por outro lado não é desejável a situação actual que facilita, com tendência para piorar de eleição para eleição, que exista uma multidão de candidatos (alguns deles que sabem perfeitamente que não vão ultrapassar 1% ou 2% dos votos e que, mesmo assim, antidemocraticamente instrumentalizam a campanha presidencial para obterem 15 minutos de fama almejando outras finalidades que não serem eleitos) que torna impraticável uma cobertura noticiosa razoável da campanha de todas e que obrigue a um número astronómico de debates que não há eleitor que possa acompanhar. Solução? A única que vejo é aumentar significativamente o número de assinaturas necessárias para poder concorrer. Basicamente devemos ser mais exigentes com os mínimos olímpicos para minimizar a hipótese de surgirem “pseudocandidatos” presidenciais.

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