Presidenciais (11)


Pedro Correia,

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SIMPLESMENTE OBSCENO

Mais de 200 portugueses a morrer por dia, só com Covid – o equivalente a um avião cheio de passageiros cair todos os dias em Portugal, como escreveu o João Vieira Pereira. Mesmo assim, esta classe política foi incapaz de dar o passo que se impunha: suspender a putativa “campanha eleitoral” que por aí anda, supostamente para «contactar com os eleitores», quando eles (todos nós) estão obrigados a cumprir o «dever geral de confinamento», sob pena de pesadíssimas multas, ou lutam pela saúde e pela vida em unidades hospitalares sem capacidade de resposta para atender os pacientes.

 

Não entender que a tal “campanha” já devia ter sido suspensa é simplesmente obsceno. E mais um sinal de que esta gente vive totalmente alheada da realidade. Na actual atmosfera de pesadíssimo luto nacional, estes políticos (todos eles) prestar-nos-iam o maior favor se respeitassem a dor e a angústia dos portugueses, substituindo a “campanha” por acções de voluntariado junto de quem mais sofre e de quem mais precisa.

Procedendo como procedem, contribuem para engrossar as fileiras da abstenção em doses maciças a cada dia que vai passando, tornando inúteis e até risíveis todas as sondagens.

Teriam feito bem melhor em alterar o calendário eleitoral perante esta situação de calamidade pública, adiando por dois ou três meses o voto presidencial num escrutínio cujo desfecho, aliás, os portugueses conhecem de antemão. Souberam aprovar nove estados de emergência consecutivos, banalizando o que devia ser excepcional, mas não quiseram ou não souberam fazer o que o mais elementar bom senso recomendaria: adaptar a agenda política às dramáticas circunstâncias que vivemos.

Mas como exigir-lhes tamanho esforço mental se autorizaram um boletim de voto que parece uma rábula grotesca do Ricardo Araújo Pereira, cobrindo-se de ridículo, não conseguiram organizar o voto antecipado com eficácia mínima e foram incapazes de proporcionar o voto por correspondência a 1,4 milhões de portugueses recenseados no estrangeiro?

 

«Neste abençoado país todos os políticos têm “imenso talento”. A oposição confessa sempre que os ministros, que ela cobre de injúrias, têm, à parte os disparates que fazem, um “talento de primeira ordem”! Por outro lado a maioria admite que a oposição, a quem ela constantemente recrimina pelos disparates que fez, está cheia de “robustícissimos talentos”! De resto todo o mundo concorda que o país é uma choldra. E resulta portanto este facto supracómico: um país governado “com imenso talento”, que é de todos na Europa, segundo o consenso unânime, o mais estupidamente governado! Eu proponho isto, a ver: que, como os talentos sempre falham, se experimentem uma vez os imbecis!», escreveu Eça, pondo estas palavras na boca do seu alter ego João da Ega, n’Os Maias.

Palavras que continuam ironicamente actuais quase século e meio depois.

30 comentários em “Presidenciais (11)”

  1. Devia corrigir isso.
    200 portugueses a morrer por dia COM covid.
    DE covid, infelizmente ninguém sabe.
    Ou melhor, até sabe, mas não diz.

      1. Pedro, peço desculpa mas ainda não está bem.
        Os 200 portugueses não morrem só com covid, eles têm outras doenças associadas.

          1. Isto é como a história do velho, do menino e do burro, nunca conseguimos calar a voz da crítica.

          2. Ainda bem, isso é a democracia. “nunca conseguimos calar a voz da crítica.” Cada cabeça sua sentença.
            Salazar conseguiu calar a voz da crítica. Lembra-se das cheias de Odivelas? E da gripe asiática? Eu tive esta gripe. Só há umas semanas soube que houve quem morresse. Ainda hoje não sei quantos.
            Há muito treinador de bancada em matéria de covid. Os noticiários da TV são péssimos. Repetitivos e com perguntas idiotas (género que sentiu quando o seu amigo morreu?). Há mau jornalismo e isso também se deve criticar. Se calar a voz da crítica nem o mau jornalismo pode ser criticado. É como a chamada caça ao voto: acabe com ela e verá. Sou do temo em que ninguém caçava votos. Nem sabíamos que bicho era esse.

          3. Não percebi bem onde quer chegar.
            A culpa de Portugal ter o maior número de mortos covid por milhão de habitantes à escala mundial é dos jornalistas? É do Salazar?

          4. “escala mundial é dos jornalistas? É do Salazar?”
            Não. Expliquei-me mal.
            Queria dizer que se Salazar mandasse não saberíamos quantos morriam.
            Quanto aos jornalistas penso que, em geral, exploram o que não interessa em busca do sensacionalismo e directos idiotas mas não dizem quantos morrem por doenças que não sejam covid. E são eles que chamam a depor muitos treinadores de bancada. E fico sem ter a certeza do que se passa de facto.
            De quem é a culpa? Para quem é de direita, é do governo. Para quem é de esquerda é da falta de civismo das pessoas (como no trânsito) e da falta de investimento na Serviço Nacional de Saúde.
            E ainda há quem pense que isto não é uma questão de culpas e que devemos dar prioridade à luta para nos safarmos em vez da determinação de culpados.
            Isto é o que colho das notícias que vejo e leio.
            Penso quer havendo democracia é mesmo assim, não é possível, e bem, pôr todos a pensar da mesma maneira. No fundo nem o Salazar conseguia isso, era só aparência. E as consequências eram desastrosas para quem perturbasse as aparências.

          5. Continuo sem perceber o que é o que Salazar tem a ver com este filme.
            O Salazar morreu há 50 anos. Tinha o actual primeiro-ministro apenas nove anos.

            Quem está no poder – há quase seis anos – é um António, mas de apelido Costa.
            Se as coisas estão como estão, e se Portugal é o país do mundo com mais mortos covid ‘per capita’, o principal culpado é ele. Não o outro, que está na tumba há meio século.

          6. Portugal não tem o maior número de mortos de covid per capita. Segundo o site da Johns Hopkins Portugal está em décimo primeiro. Reino Unido, EUA, Espanha, Itália, França estão todos “à frente” de Portugal. Ver aqui (em deaths per 100000 population):

            https://coronavirus.jhu.edu/data/mortality

          7. Portugal é, desde há uma semana, o país do mundo com mais novos casos de Covid e o segundo com mais óbitos por milhão de habitantes.
            Dados do portal Our World in Data, que mostra em tempo real os números da pandemia na média dos últimos sete dias.
            Tivemos 1043 casos por milhão de habitantes — mais do que Israel (920), Espanha (721) e República Checa (714).
            Na quarta-feira, fomos o país com mais óbitos por milhão de habitantes.

            https://ourworldindata.org/grapher/covid-deaths-daily-vs-total-per-million?tab=chart&stackMode=absolute&time=2020-01-22..latest&country=&region=World

          8. Ok, mais novos casos. Não é a mesma coisa. Em todo o caso, infelizmente entre os países que nos são mais próximos , tudo considerado desde há um ano , estamos todos igualmente mal.

      2. Fez bem em corrigir.
        Para ser ainda mais preciso, deveria dizer “portadores do (ou infetados com o) vírus sars-cov-2”. Porque é isso que eles são: pessoas infetadas com o sars-cov-2, mas não necessariamente doentes com covid-19. A imensa maioria das pessoas infetadas não desenvolve a doença.

  2. A propósito de rábula, deixo uma sugestão arrasadora:
    Mobilizar meios e vontades para uma votação concludente no cidadão que figurando no boletim não é candidato.
    Vamos lá!

      1. Sei bem que isto só endireita com um abanão a quente, mas “é com a ironia que começa a liberdade”.

  3. A propósito de rábulas deixo uma sugestão arrasadora:
    Mobilizar meios e vontades para uma votação arrasadora e determinante no cidadão que figurando no boletim não é candidato.

      1. Penso eu de que não terá percebido que se terá tratado de uma repetição involuntária. Achando por bem, até agradeço que elimine as duas para também não se estar a repetir.

  4. Li nem sei onde nem quando uma crónica sobre a ctual situação mundial, em que o cronista escrevia que actualmente não há estadistas com capacidade para resolver os graves problemas que enfrentamos, mas políticos há-os aos montes. Estes tempos são tempos piores que tempos de guerra, são necessários homens com fibra, tipo general Patton. No nosso caso temos um oficial subalterno amanuense para os papéis, coadjuvado por um sargento-mor lateiro, os tais que desviavam os bens destinados ás messes.

    1. “mas políticos há-os aos montes.”
      E bem. Somos todos mesmo que inconscientemente ou que nos digamos apolíticos.
      “Estes tempos são tempos piores que tempos de guerra,”
      Discordo. É difícil imaginar tempo pior que o de guerra. Quando regresso a casa estou certo de que não a encontro bombardeada nem a família e amigos mortos.
      Mesmo a guerra colonial, que ficou muito longe dos horrores do desembarque na Normandia e dos campos de extermínio nazis, foi horrenda. Que o diga quem esteve em Wiriamu.

  5. Um ser divino e celestial como eu necessita introduzir uma reflexão para que as alminhas terráqueas desenvolvam sua habilidade cognitiva.

    Já todos ouviram falar na nova varante do bichinho que, dizem, é inglesa e propaga-se mais rapidamente, isto é, provavelmente à velocidade da luz.

    Devo dizer, como ser divino e celestial, que esta informação não o é; e é também desenxabida.
    Tão porquê, ser divino e celestial (perguntar-me-ão V.Exas.)?
    1 – Não reconheço qualquer possibilidade de uma variante inglesa:
    a) – se fosse inglesa assistiríamos a um covexit e a Europa ficaria livre da bicheza

    Dito isto, vamos à substância: os vírus não têm variantes inglesas, ou brasileiras ou alemãs; têm simplesmente variantes e ainda terá muitas mais. Também não conseguem explicar como esta variante se propaga mais rapidamente e é mais contagiosa. Talvez por ter mais sprint que as anteriores.
    Conclusão: sejam espertos e pensem.

  6. “Um País de Bananas Governado por Sacanas”
    (Rei D. Carlos I de Portugal)

    O Portugal de hoje cada vez mais se assemelha ao de há um século e meio atrás quando o rei D. Carlos afirmou “isto é um país de bananas governado por sacanas”.

    El rei D. Carlos, que não possuia qualquer poder executivo, uma vez que este era da responsabilidade do Governo do Reino, tinha certamente razão quando então proferiu tal afirmação!

    O que ele não previu é que a sua célebre frase perduraria válida por mais de um século porque continua manifestamente actual.
    —————————————-——————
    Somos um povo imbecilizado e resignado, humilde e macambúzio, fatalista e sonâmbulo,
    burro de carga, besta de nora, aguentando pauladas, sacos de vergonha,
    feixes de miséria, sem uma rebelião, um mostrar de dentes, a energia de um coice,
    pois que já nem com as orelhas somos capazes de sacudir as moscas. […]“;

    Guerra Junqueiro 1886

    leiam A PATRIA de Guerra Junqueiro e ficarão atónitos em como tudo o que ele diz é a realidade que se passa ainda hoje em dia no que toca a politica e politicos…..

    E também Eça de Queiroz é crítico sobre os políticos de outrora.
    Tudo isto assenta como uma luva nos políticos de hoje.

    Hoje Ventura teve uma “bela” recepção em Setúbal.
    Parece que estamos em pleno PREC de 1975.

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