Pré-Visões do Euro 2016 – Bélgica


joaomsandre,

A Bélgica é no papel uma das mais fortes selecções que estarão presentes em França. Nomes conhecidos não faltam: Courtois, Kompany, Witsel, Hazard, De Bruyne, etc. Todos estes são nomes que dão garantias, mas a segunda linha não deixa de impressionar.Posição por posição, poder-se-ia fazer uma comparação entre Bélgica e Portugal e só sobrariam Ronaldo e um ou outro jogador luso na combinação.

 

2016 afigura-se então como a grande oportunidade belga para ganhar alguma coisa. A Alemanha e a Espanha não estão tão fortes como no passado e os “diabos vermelhos” estão a entrar na fase de maturidade de alguns jogadores e de explosão das estrelas. Depois da semi-desilusão do Mundial (em que foram eliminados pelo génio de Messi), há a sensação que “desta vez é que é”. Há no entanto três pequenos engulhos. Avancemos com eles:

  • O treinador Wilmots é respeitado mas há a sensação que lhe falta o extra táctico necessário para vencer uma competição destas. Para as qualificações isso não é um problema. Há pouco tempo para trabalhar e os mecanismos vêm dos clubes. Já antes da fase final há um mês inteiros para preparar a equipa e Wilmots não parece estar ao nível necessário para o fazer.
  • A fricção entre flamengos e valões. Este é curiosamente um aspecto que Wilmots parece ter conseguido fazer desaparecer (ou pelo menos minimizar). Há no entanto o risco que expluda a qualquer momento.
  • À táctica (relacionada com Wilmots mas não só) falta um defesa esquerdo. Isto pode parecer um pequeno pormenor, mas não o é. No papel a estrela é Hazard, só que na sua posição (ala esquerdo “invertido”) ele necessita de um lateral que suba e arraste o lateral, de forma a que Hazard possa flectir para o centro. Vertonghen é habitualmente o lateral esquerdo, mas não sendo mau, o seu instinto não é o de subir, o que o atrasa e permite que a defesa se organize. Este pode parecer um aspecto menor, mas nega à Bélgica aquele que poderia ser o seu melhor jogador. É por isso que Wilmots chegou a experimentar Lukaku (um ponta de lança canhoto) a lateral esquerdo durante o jogo com Andorra. Vertonghen deveria ter um ala esquerdo clássico (canhoto) à sua frente, mas com Hazard o jogo fica demasiado afunilado e a influência da estrela é limitada.

 

Noutros aspectos a Bélgica está extremamente bem equilibrada. Courtois é dos melhores guarda-redes do mundo. Em Kompany e Vermaelen (se saudável) têm uma boa dupla. Alderweireld é sólido na defesa e no ataque a lateral direito. Witsel oferece serenidade, posicionamento e passe, Naingolan corre muito e é sólido em tudo. De Bruyne e Hazard oferecem qualidade, assistências, golos e imprevisibilidade. Mertens e Ferreira-Carrasco dão velocidade e irreverência, Januzaj é o joker e Benteke e Lukaku são os pontas de lança que Portugal mataria para ter. Além disso ainda sobram como reservas Fellaini, Mirallas, Lombaerts ou Dembelé entre outros.

 

Correndo tudo bem, com Vertonghen a cumprir o seu papel, Vermaelen saudável, Hazard a funcionar e bom espírito de grupo, a Bélgica será certamente uma das principais candidatas. Pessoalmente colocá-la-ia talvez acima da Alemanha e Espanha. O Verão nos dirá.

4 comentários em “Pré-Visões do Euro 2016 – Bélgica”

    1. Bom, não tenho conhecimento presencial, isso é certo. A verdade é que essas tensões existem quase sempre nas equipas belgas e só o sucesso as mascara de tempos a tempos. Outra coisa que as mascara é uma forte superioridade numérica de uma das comunidades. Por fim, algo que também ajuda, é a presença de uma figura unificadora, seja ela um jogador, um treinador ou outra coisa qualquer.

      A verdade é que todas essas condições existem hoje. A equipa é forte e tem o seu período de maior sucesso desde meados dos anos 80; os flamengos estão em supeioridade numérica e Wilmots consegue agregar o grupo. Só que basta um ou outro incidente para causar problemas, como já aconteceu no passado.

      Quanto às fontes: são as mesmas que da maioria das pessoas. Media. Leio jornais (ingleses, belgas, holandeses…) que falam da equipa; vejo uns programas de televisão sobre o assunto (e noto a importância que cada comunidade não dispensa aos jogadores da outra) e vou falando com alguns conhecidos belgas.

      Poderei estar errado? É evidente que sim. Talvez amanhã a Bélgica perca 4-0 contra uma equipa medíocre e os jogadores se unam ainda mais. A probabilidade é, no entanto, que se dividam pelas velhas linhas geo-linguísticas.

  1. Tem razão, mas não deixa de ser frustrante para o adepto português ler que a Bélgica é um candidato. Quando Franky Vercauteren começou a jogar, há 40 anos, tinha um treinador no Anderlecht cujas eliminações perpetradas às equipas portuguesas, mais os fracassos sucessivos da seleção portuguesa, deram-lhe para filosofar acerca da inferioridade latina perante o poderio alemão e norte-europeu, de que como belga se achava originário. É certo que a seleção belga nunca ganhou nada, mas sucessivas qualificações, finalista e bom futebol criaram ao tempo a aura de candidato. Desde aí todavia o futebol belga apagou-se.
    Ultimamente, sim, tem revelado os bons jogadores que V. enumera. Mas é frustante saber que nesse interim, na queda belga mais o apagamento holandês, o nosso futebol subiu ao zénite da popularidade e falhou todas as promessas. Com o emergir dos belgas é possível regressar à velha ordem – àquela onde os portugueses não contavam. Tivemos e temos excelentes jogadores, numa abundância superior aos treinadores de seleção, aos dirigentes que foram culpados pela mediocridade e falta de coesão e inclusivamente pela escandalosa ausência de árbitros portugueses no próximo Europeu. Cmpts!

    1. Para mim não é frustrante, mas consigo perceber porque razão o seja. A Bélgica tem uma população superior à portuguesa, é mais rica e tem maior “variedade genética” (se me permite a expressão, usada à falta de melhor) devido à grande imigração. Mais cedo ou mais tarde acabaria por ter, nem que seja por simples estatísticas, uma nova excelente geração. Dado que introduziram há vários anos modificações no sistema de captação e treino de jogadores jovens (como Portugal fez nos anos 80), os factores acabaram a conciliar-se para esta geração.

      A opinião de Vercauteren não me interessa muito. Na altura era válida a distinção, dado que os centro- e norte-europeus eram habitualmente mais altos e mais fortes que os portugueses (ainda são habitualmente mais altos). Tinham para além disso uma preparação física mais intensa (isso tem razões históricas mas também climáticas – tema para outra conversa) e isso ainda fazia pesar a balança ainda mais para os norte-europeus. Para mais numa altura em que as regras do jogo eram diferentes (ou interpretadas de forma diferente) o que fazia também diferença em relação a hoje.

      Já o caso potuguês sofrerá de alguns aspectos: repousar nos louros do passado (o bom trabalho do passada não foi actualizado); ter gerações de jogadores mais fracos que as imediatamente anteriores (uma geração de ouro está inevitavelmente ladeada por outras mais fracas); e um certo abandono da formação por parte das equipas grandes (os lucros mais imediatos provenientes da compra e venda de jogadores tornou-se mais importante).

      Demograficamente, Portugal e Bélgica deveriam jogar no “mesmo campeonato”. Em termos de meios, a Bélgica até poderia ter superioridade. Estar no lote das potenciais favoritas (acima de onde vejo Portugal) é uma circunstância temporal. Dentro de 5 a 10 anos estarão provavelmente lado a lado.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *