O Euclides emigrou de Cabo Verde para Lisboa quando soube pela mulher que lhe ia nascer um filho. A razão para o salto fora atendível: trabalhar, ganhar dinheiro para assistir a família na ilha. A mulher pediu o divórcio pouco depois da sua partida. Encontrara parceiro mais próximo, nestas coisas de matrimónio a distância é um terceiro elemento. Ficou-lhe o filho à espera em Santiago enquanto o Euclides trabalhava como factotum nas obras. Após um acidente de trabalho cujo processo nunca seguiu as vias direitas e o deixou com lesões na coluna, o Euclides foi tomar conta do tasco do pai. Passa ali os dias (e as noites, já que dorme num quarto contíguo à cozinha). De vez em quando lembra-se do dinheiro que nunca lhe pagaram em obras tão importantes como o foram as da Expo ou do Colombo. Não compreende o que se passou, ele que nunca falhou um dia de trabalho sequer e sempre fez o que lhe mandaram com competência e aprumo.
Algumas semanas atrás conseguimos fazer com que o Roni, agora com dezoito anos, recebesse um pequeno computador que eu mesmo configurei dentro do balcão do Café Africano. Servi ponchos e tudo! O Euclides, para quem um computador é um país estrangeiro, estava radiante. O único contacto que mantém com o filho é via o telefone de um vizinho do rapaz, proprietário de uma tenda de refrescos em Santiago. Nunca se viram, o Euclides e o Roni: o preço das viagens de e para Cabo Verde não se aguenta de tão caro. O portátil acabou por ser levado por uma tia do Euclides que calhou voar para as ilhas por esses dias. Há já notícia de que o Roni, que completou há uns meses o 12º ano, mexe no computador com destreza. Um tio dele tem uma loja de Internet por lá e ajuda-o. Eu já disse ao Euclides: “Dia em que o rapaz passe as portas do aeroporto, quero estar lá para vos tirar fotografias”.
O Euclides enrola cigarros porque não tem dinheiro para pacotes. Ele não fuma tanto quanto isso, é mais para matar o tédio, mas ainda assim o pai faz pressão para que corte no hábito. Um homem que não vê o filho há dezoito anos porque não pode pagar a viagem torna-se presa fácil para chamadas de atenção à moral. Mas eu estive com o Euclides nas horas de melancolia. Para quase toda a gente no bairro Clemente Vicente, partir é o outro nome da felicidade. “Para Santiago”, diz. “Plantar batatas?”, pergunto eu. “Plantar batatas”, ri-se. “E tu tens de ir também”.


Mais uma história tocante, Zé. Tantos casos destes que deve haver por aí de pais que não conhecem os filhos, afastados por um mero bilhete de avião. Triste.
Se ao menos os voos para Cabo Verde tivessem preços para turista… mas não. Um beijo, Ana
o melhor dos teus “postais”, é trazerem pessoas dentro, com histórias de vida, como esta, que até apetece “fazer uma vaquinha”, para o Euclides voar até Cabo Verde.
🙂 Era bom, de facto. Avião já ele tem um, em cima do frigorífico, que o cromo do Fernando lhe pediu para guardar e nunca mais foi buscar. Se não lhe faltasse uma das asas da cauda…