Postais de um Fotógrafo de Bairro (VI)


Bandeira,

 

Foi o Zé quem em tempos me apresentou o Costa, um antigo pescador do Dafundo, homem de sorriso perpétuo refugiado num grande bigode. Ele tinha algumas histórias para contar sobre os velhos tempos; e também sobre os tempos difíceis que, afinal, nunca deixaram de o ser. Separados pela linha de caminho-de-ferro da praia do Dafundo – agora despromovida a “areal”, até porque vai nascer ali uma marina (disseram-mo na Junta) e na praia não se podia construir marinas mas no areal já se pode –, os locais fazem-se tontos e atravessam onde não devem. A verdade é que o caminho até à passagem mais próxima, na estação da Cruz Quebrada, não é tão curto quanto isso e esta gente já não vai para nova.

 

Eu sabia que de vez em quando havia acidentes na zona e questionei o Costa sobre o assunto. Ele contou-me a história do Rui (que eu já tinha ouvido, com menos detalhes, ao Euclides). O Rui é um filho do bairro e trabalha como maquinista na linha Lisboa-Cascais, a mesma que os seus amigos e vizinhos atravessam todos os dias. “Da primeira vez que passou por cima de um”, disse o Costa, “não comeu nem o pequeno-almoço, nem o almoço, nem o jantar. Da segunda vez já conseguiu jantar. Da terceira, almoçou e jantou”. Então o Costa ficou em silêncio. Não havia necessidade de continuar, havia? É bem capaz de haver uma história como esta em cada apeadeiro de cada linha de caminho-de-ferro do mundo, mas não deixa de impressionar.

 

Há dias, um comboio vindo de Cascais teve problemas nas rodas de uma das suas carruagens no momento em que passava frente ao Dafundo. Deu nas notícias, mas o Euclides já me tinha informado sobre o fumo e as faíscas que vira sair do rodado e de como o chiado tinha feito toda a gente na tasquinha saltar das cadeiras. O maquinista, soubemo-lo depois, conseguiu reduzir a velocidade, mas não pôde evitar o descarrilamento de uma das carruagens. O acidente deve ter causado danos a uma agulha; outro comboio, embora avisado e seguindo o primeiro a medo, viu metade da composição desviada para a linha do lado. Faço ideia os passageiros. Deixei os homens entregues a um prós-e-contras (mais contras-e-contras, na verdade) de se poupar nos sítios errados e dirigi-me para o local onde se alagartava o comboio acidentado. Uma equipa de manutenção tentava remover a carruagem descarrilada. Sentadas na orla do passeio marítimo, equipas de reportagem esperavam que algo de interessante acontecesse. Tirei algumas fotografias e dei comigo a pensar que pelo menos hoje o Rui faria todas as suas refeições.

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