A bílis


fiodeprumo,

Sempre defendi que a blogosfera era um espaço de liberdade de que valia a pena tirar proveito. 

Como? Utilizando-a para investigar, ler e escrever e trocar ideias. Porém, quem se debruce, com algum tempo e alguma atenção, sobre os blogues ou redes sociais, tem enormes surpresas. Ontem passeei-me por vários blogues e fiquei impressionada com a violência e a virulência de alguns post’s. A brutalidade da linguagem é tal que, numa primeira leitura, nem se chega perceber “o que” se critica, face ao ódio “a quem” se critica.

Creio que a liberdade de expressão, como todas as liberdades, tem limites. Não gostar, não estar de acordo, censurar, é um direito adquirido. Mas insultar, difamar, ofender, além de perturbar e de afastar certo tipo de pessoas, acaba por beneficiar quem se pretende criticar. Ou seja, consegue-se prestar um serviço ao adversário, quando, pela  forma usada, o tornamos numa vítima.

Em democracia o voto é a grande arma de punição. Ou até a falta dele, porque quanto menos pessoas votarem, menos representativos serão aqueles que votam e, por isso, menos força terá o resultado obtido. Nas ditaduras, as coisas resolvem-se com umas revoluções e umas mortes.

Mas democracias biliosas, que assentam na ofensa pessoal, não só não resolvem nada, como abrem as fracturas que acabam por justificar as piores ditaduras.

Portugal está profundamente doente. Mas se o tratamento for extirpar todos os orgãos, o mais natural é que o paciente morra… 

10 comentários em “A bílis”

  1. Portugal está de facto profundamente doente. Disso não tenhamos dúvida.
    E se o mal de que padece se encontra localizado em certos órgãos que de tão afectados, a única terapia consiste em removê-los, então que sejam removidos.
    Até para que, outros órgãos , possam regenerar-se e funcionar em pleno.
    Mesmo não sendo médica, a Helena saberá certamente que as infecções internas tendem a alastrar e os órgãos doentes a infectar os sãos. Para que tal seja possível travar… há que recorrer ao método do estirpe.

    1. Meu caro Bartolomeu
      Há mil e um medicamentos para tratar infecções. Até deitar o governo abaixo. Mas mesmo isso pode e deve ser feito sem recorrer a linguagem que envergonha. É o que eu penso.
      O facto do exemplo não vir de cima, não justifica que nos tornemos como eles. Pelo contrário, devemos fazer a diferença e mostrar que não somos todos iguais. Porque não somos, de facto!

      1. Claro que a sua reivindicação tem toda a razão de ser e é um direito absolutamente legítimo que lhe assiste, estimada Helena.
        Por isso nem lhe fiz referência. Sou daqueles que ouviu de pequeno a frase: as más palavras e as más ações, ficam com quem as pratica.
        O resto é que me preocupa, e cada dia mais, porque cada dia o doente piora. Dizem os entendidos, que o remédio que lhe está a ser ministrado é que o está a prejudicar, mas eu penso que o mal já vem de há muito. Talvez por isso, por ser mal antigo… e crónico, “ás tantas” o doente fique imune, tanto ao mal, como ao medicamento.

  2. Concordo e acho, além disso, que os numerosos politicamente ressabiados que ultimamente sairam da toca também se podem incluir nos que, de tão patentes maus fígados, acabam por prestar um serviço a quem atacam.

  3. Não posso estar mais de acordo, Helena! Excelente e corajoso post, este. Vai ao essencial, simples, sem redondilhas nem espasmos. Pelo que a blogosfera mostra, já se percebe do que se alimenta o eleitorado. E não tinha realmente que ser assim. Parabéns.

  4. Quase que diria que não é de estranhar quando é o próprio governo que fomenta o ódio desde há alguns anos a esta parte, utiliza-o como instrumento preferido na coisa da governação, instilando-o entre os cidadãos, privado contra público, jovens contra velhos, catalogando do pior polícias, militares, professores ou magistrados, porquê o espanto, não é este um dos valores que o governo transmite aos seus cidadãos?

    1. É verdade caro Caetano, mas você quer tornar-se igual a eles? Até o ódio de que fala, não justifica o ataque soez, a invenção, o boato.
      Há maneira de fazer cair os governos sem ser utilizando estes métodos. Utilizem-se, então.
      Porque se a maioria assim o quiser, tem meios para o fazer. Mas, parece-me, neste momento, ninguém quer ser poder. Apenas quer insinuar…

  5. HSC tem razão quando afirma que “Em democracia o voto é a grande arma de punição”. E não apenas da punição, e não apenas arma: deve ser, sobretudo um instrumento positivo para que a vontade do soberano (o povo) seja cumprida – a democracia é isso.
    Mas, estamos em Portugal. Portugal não é uma democracia: os eleitores não têm o mais leve controlo sobre os eleitos.
    Se tivessem algum controlo, se fosse possível punir a nível individual o desempenho de cada deputado, outro galo cantaria e teria cantado – por exemplo, quanto à votação da proposta da deputada Moreira.
    Se o deputado x soubesse, saber de experiência feito, que uma tomada de posição um determinado assunto poderia, de modo efectivo, custar-lhe a renovação do mandato, a nossa democracia seria muito outra.
    Tal como está é um regime de favoritas e “mignons” – em que a sorte da carreira depende, acima de tudo, do favor das Pompadour de todos os sexos e cores.

    Ignorar esta realidade, aliás pristina, é retirar à discussão qualquer significado.

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