Postais de um Fotógrafo de Bairro (V)


Bandeira,

José Bandeira

 

Alguns dias atrás, a Dona Francisca celebrou o seu 93º aniversário (ela diz 82,mas o Euclides, do Café Africano, diz-me que 82 faz ela há já uma quantidade de anos). Cabo-verdiana de S. Vicente, a Dona Francisca responde a tudo com um inclinar de cabeça e um “Como é?”, por ser quase surda, mas a verdade é que faz uma grande companhia para a conversa.  Abre o jornal, lê as gordas em voz alta, ri-se delas, canta, “Estás no meu coração”. Sentamo-nos à mesma mesa e eu peço-lhe para tirar um retrato. “E porquê não?”,  diz, “Com o vento a soprar assim, eu não posso ir dar o meu passeio da manhã”.  A Dona Francisca parece uma folha seca de tão leve. O marido é mais novo, anda pelos oitentas e carrega malas na estação de Algés. É disso que vivem, parece. Ainda me lembro de quando lhe vi a figurinha pela primeira vez. Entrou na tasca, chamou o pai do Euclides – que a trata por tia, embora não lhe seja nada – e deu-lhe um pacotinho de leite, daqueles pequeninos, dentro de um saco de plástico.

 

O Sr. Pedro agradeceu como se tivesse recebido um carro novo.

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