Esta manhã, ao atravessar uma rua do Dafundo em direcção ao Café Africano, causei uma revoada de pombos. Repare, foi sem querer, mas podia tê-lo feito de propósito. Os pestinhas voaram em todas as direcções – a maior parte para cima – assim que me viram; e eu dei comigo cara-a-cara com esta senhora de ar amável. Eram seus, os pombos que eu havia assarapantado. “Não se preocupe”, disse-me, “eles voltam”, e mostrou-me o isco, uma embalagem de comida para pássaros. Era tão bonita que eu mesmo poderia comer dela. “Um homem é mais homem por aquilo que cala do que por aquilo que diz”, li algures. Fez-me impressão quando li isso e faz-me impressão agora. Guardei para mim que me ralo pouco com pombos ou que os vejo como ratazanas com asas. Em vez disso, contei-lhe como conhecera a Inês quando ela, certa madrugada, estava a dar de comer aos pombos na avenida da Liberdade; e como depois soube que dormia, com o marido, em bancos de jardim.
Então esquecemos os pombos e conversámos um pouco sobre a desafortunada condição do país.


Tem sido espalhado esse boato de que os pombos são “ratos com asas”… sem fundamento sério.
Sempre houve quem não gostasse de pombos… eles aparecem ali à nossa frente, mostrando uma sociedade pacífica, sem hierarquias ou conflitos persistentes. Não têm rainha, como as abelinhas ou as formigas… Têm sentido de orientação, e – horror dos horrores dos falcoeiros – levavam mensagens, que escapavam ao olho de Hórus.
Ah!… e grande arte é a do homem que tem apenas uma linha de cartoon para dizer muito, falando pouco.
Grato pelas simpáticas palavras, da Maia. Tem toda a razão quanto a isso dos ratos – ratos são pequeninos e giros. Eu escrevi “ratazanas”;) Mas faço distinção entre pombos e pombas, que é como lhes chamo quando não estou a embirrar com eles.
… sim, ou entre um borracho e uma borracha.
Conspurcam-me a varanda,o peitoril das janelas.Tudo porque tento apaparicar uns passaritos sistematicamente
afastados por essa praga columbina.É a “desgraçada situação do país”:pombos amoráveis afastam outras espécies.E a necessidade de deslocar a câmara para as velhotas às janelas,as ineses dos bancos de jardim,as hortas de beira-de-estrada,os cafés de bairro.
Excelente regresso do “velho” Bandeira.
tiudózio
Como agradecer-lhe, Tiudósio? (Quando eu era miúdo, entrou-nos uma rola pela janela e poisou num calendário. O meu pai disse que nos ia dar sorte. A vida mudou para nós nesse dia. Coincidência, mas não deixa de ser bonito. E depois, rola não é pombo.)
Belo postal, Bandeira. Que maravilha 🙂
Ainda não lhe dei as boas vindas! E ainda me falta ver o resto da colecção.
🙂 Muito obrigado, Gui, fico contente.