Postais de um Fotógrafo de Bairro (IV)


Bandeira,

José Bandeira

 

Esta manhã, ao atravessar uma rua do Dafundo em direcção ao Café Africano, causei uma revoada de pombos. Repare, foi sem querer, mas podia tê-lo feito de propósito. Os pestinhas voaram em todas as direcções – a maior parte para cima – assim que me viram; e eu dei comigo cara-a-cara com esta senhora de ar amável. Eram seus, os pombos que eu havia assarapantado. “Não se preocupe”, disse-me, “eles voltam”, e mostrou-me o isco, uma embalagem de comida para pássaros. Era tão bonita que eu mesmo poderia comer dela. “Um homem é mais homem por aquilo que cala do que por aquilo que diz”, li algures. Fez-me impressão quando li isso e faz-me impressão agora. Guardei para mim que me ralo pouco com pombos ou que os vejo como ratazanas com asas. Em vez disso, contei-lhe como conhecera a Inês quando ela, certa madrugada, estava a dar de comer aos pombos na avenida da Liberdade; e como depois soube que dormia, com o marido, em bancos de jardim.

 

Então esquecemos os pombos e conversámos um pouco sobre a desafortunada condição do país.

7 comentários em “Postais de um Fotógrafo de Bairro (IV)”

  1. Tem sido espalhado esse boato de que os pombos são “ratos com asas”… sem fundamento sério.

    Sempre houve quem não gostasse de pombos… eles aparecem ali à nossa frente, mostrando uma sociedade pacífica, sem hierarquias ou conflitos persistentes. Não têm rainha, como as abelinhas ou as formigas… Têm sentido de orientação, e – horror dos horrores dos falcoeiros – levavam mensagens, que escapavam ao olho de Hórus.

    Ah!… e grande arte é a do homem que tem apenas uma linha de cartoon para dizer muito, falando pouco.

    1. Grato pelas simpáticas palavras, da Maia. Tem toda a razão quanto a isso dos ratos – ratos são pequeninos e giros. Eu escrevi “ratazanas”;) Mas faço distinção entre pombos e pombas, que é como lhes chamo quando não estou a embirrar com eles.

  2. Conspurcam-me a varanda,o peitoril das janelas.Tudo porque tento apaparicar uns passaritos sistematicamente
    afastados por essa praga columbina.É a “desgraçada situação do país”:pombos amoráveis afastam outras espécies.E a necessidade de deslocar a câmara para as velhotas às janelas,as ineses dos bancos de jardim,as hortas de beira-de-estrada,os cafés de bairro.
    Excelente regresso do “velho” Bandeira.
    tiudózio

    1. Como agradecer-lhe, Tiudósio? (Quando eu era miúdo, entrou-nos uma rola pela janela e poisou num calendário. O meu pai disse que nos ia dar sorte. A vida mudou para nós nesse dia. Coincidência, mas não deixa de ser bonito. E depois, rola não é pombo.)

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