Postais de Estocolmo


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Às sete da tarde, a temperatura em Estocolmo era de 24º, convidando a desfrutar, numa esplanada, as soberbas paisagens que a cidade oferece. Atravessei Gamla Stan, em direcção a sul. Subi no elevador até ao bairro de Mosebacke, no intuito de me sentar na soberba esplanada do  Södra Teatern, de onde se podem admirar os canais, espreguiçando-se entre o casario, desde Djürgarden até  Kungsholmen – o bairro aristocrata, onde vivem os mais endinheirados. Mosebacke é, por contraste, a porta de entrada para Soddermälm, onde habita a classe operária. Curiosidades…

A esplanada estava  a abarrotar,  as pessoas acotovelavam-se junto aos balcões para pedir uma bebida, mas  lá descortinei uma mesa para seis pessoas, de onde podia gozar todo este esplendor que vêem na imagem.

Estava de máquina aperrada, hesitando em ferir com a minha imperícia de fotógrafo, a imaculada paisagem, quando duas jovens suecas pediram para se sentar. Como é natural, entabulámos conversa, ficaram muito curiosas quando lhes disse que vivera em Estocolmo há 30 anos e fartaram-se de me fazer perguntas sobre as diferenças entre a cidade de  hoje e daquela época.

A determinada altura uma delas levantou-se, regressando alguns minutos depois com três copos  de cerveja.  Soltou um desabafo em sueco – que não traduzo –   e depois disse em inglês:

– Com a crise, a Suécia está a ficar irreconhecível*. Agora temos que nos levantar para ir buscar bebidas ao balcão! Não seria mais normal que, em plena crise, empregassem pessoas, diminuindo o desemprego?  Em Portugal também é assim?

 

 – Não! De maneira nenhuma, minha cara…. Em Portugal os patrões empregam as pessoas, mas depois não lhes pagam os salários ao fim do mês, o que é muito mais cómodo para quem tem trabalho e vencimento assegurado ao fim do mês.

Olharam-me, meio incrédulas e depois soltaram uma gargalhada.

– Estás a brincar, não estás? Aqui, um sujeito desses ia logo preso e confiscavam-lhe os bens, até pagar as dívidas. Sempre que uma empresa vai à falência, os primeiros credores são os trabalhadores.

– Mais ou menos como em Portugal –  respondi tentando esconder o riso.

Bebi um gole de cerveja e desviei a conversa para outro tema menos confrangedor, evitando mostrar-lhes que vivo num país terceiromundista, onde grassa o egoísmo e os vigaristas são sempre recompensados.

 

*Na segunda metade da década de 90, do século passado, os trabalhadores suecos foram confrontados com três opções: um aumento dos impostos, a redução do salário, ou cortes nas  reformas, que atingiriam os trabalhadores já reformados. Trabalhadores, patrões e  Estado chegaram a acordo e a decisão foi reduzir os salários entre 0,1% e 0,5 % (de acordo com o vencimento) e  aumentar os impostos  para os salários mais elevados. Foram igualmente cortadas algumas mordomias dos administradores das grandes empresas, revertendo o valor desses custos anuais para a segurança social. Ficou assim assegurado o valor das reformas actuais e futuras, durante um período de 30 anos.

Mais postais da Suécia no sítio do costume.

 

10 comentários em “Postais de Estocolmo”

    1. Mas eu acho que Portugal é uma maravilha, Blonde! (Sem ironia) Não é pelo panorama sócio-político que vou deixar de apreciar as inúmeras belezas do país. Agora, se pudesse juntar as maravilhas de Portugal, com o modelo social sueco, acredito que deixaria de pensar em emigrar mais uma vez…

    1. Espero que não tenha sido no Inverno, Pedro, porque nessa altura é insuportável. Foi por isso que não quis continuar por lá.
      Mas é realmente uma cidade fantástica e aquele povo antipático, fechado e carrncudo tornou-se, em 30 anos, masi simpático e”open minded”. E até já se divertem e riem, como pessoas normais ( ah, ah ah!)

  1. Ainda não percebi se o que nos falta é: saber fazer contas; falta de vontade politica ou necessidade de mudança de mentalidades!
    Suécia? Na agenda.

      1. Olá Carlos, as fotografias estão muito boas para quem tinha medo de ferir a paisagem…Realmente “ela” é magnífica! O carlos já disse e é pena faltar-nos tanto nesse aspecto , elementar, digo eu.
        Por cá, paisagens bonitas temos com fartura – afinal, falta-nos o “bolo” que a “cereja” já temos.

  2. Este Portugal é um país de brandos costumes e onde o povo é sereno.
    Quando visitei a Suécia, de passagem para a Holanda, encontrei muitos Km com muito pouca limpeza e higiene. Conseguíamos ser mais limpos em Portugal.
    Comentei-o depois na Holanda e concordaram comigo, e só lá vão 3 verões.
    Gosto deste país. Não gosto muito das leis e pouco daqueles juízes que deviam julgar segundo as leis mas que o fazem de acordo com os seus pontos de vista, politico, económico ou segundo as opiniões expressas pelos serviços governamentais, neste caso para esconder incompetências.

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