Portugueses em Cuxhaven


Cristina Torrão,

Por vezes, há coincidências interessantes. Tinha eu acabado de publicar (aqui e aqui) fotografias de Cuxhaven, quando o Jornal Católico da Diocese de Hildesheim (do qual sou assinante) publicou uma reportagem sobre os portugueses daquela cidade costeira, na sua edição nº 19, do passado dia 15 de Maio.

Portugueses em Cuxhaven - nº 19 15-05-2022 (1).jp

Em Cuxhaven, vivem cidadãos de 112 nações diferentes e a comunidade mais numerosa é, precisamente, a portuguesa, com cerca de 1300 pessoas. Estamos no Norte da Alemanha, de maioria Protestante, de maneira que os portugueses representam uma parte importante da paróquia católica de Santa Maria.

Portugueses em Cuxhaven - nº 19 15-05-2022 (2).jp

Duas portuguesas mereceram destaque, nesta reportagem. Maria Santos é, há vários anos, a coordenadora da comunidade portuguesa da paróquia. No dia da visita do jornal, Maria Santos não tinha mãos a medir, pois as crianças da primeira comunhão treinavam para o grande dia e, a 14 de Maio, como todos os anos, far-se-ia a procissão de Nossa Senhora de Fátima.

Portugueses em Cuxhaven - nº 19 15-05-2022 (3).jp

A outra senhora destacada é Áuria da Cunha, em Cuxhaven desde 1969. Tinha 22 anos, quando lá chegou, a fim de trabalhar na indústria pesqueira, como muitas outros portugueses e portuguesas. A missa na língua de Camões realiza-se todos os sábados, às 16h 15m. Áuria da Cunha chega sempre à igreja meia hora mais cedo, a fim de ter tempo de rezar primeiro o terço, na companhia de algumas outras pessoas.

Na verdade, trata-se de uma missa só em parte portuguesa, já que, à falta de um padre da nossa terra, é rezada em alemão, enquanto a comunidade responde em português. Dois padres alternam-se na celebração: um alemão e um polaco. Este último, de nome Dabrowski, começou a aprender português há cerca de dois anos e reza já parte da cerimónia na nossa língua. «Vejo grande alegria e agradecimento nos olhos da comunidade, quando o faço», assegura o clérigo polaco.

As Associações portuguesas, que nasceram como cogumelos neste país nos anos 1960 e 70, há muito que agonizam, por falta de interesse das novas gerações. Já as paróquias católicas continuam a ser um grande amparo para os portugueses emigrados. Porque, como diz Maria Santos, «sem Igreja, nada funciona» (ohne Kirche geht es nicht).

4 comentários em “Portugueses em Cuxhaven”

  1. As Associações portuguesas há muito que agonizam, por falta de interesse das novas gerações.

    Pois hoje de manhã na rádio falou uma portuguesa jovem (32 anos) que reside em Frankfurt, onde é educadora de infância. Diz que o projeto em que agora está empenhada é na abertura de um jardim de infância bilingue, alemão e português. Coisa que eu me espantei que houvesse e que vá ter clientela.

    1. Tenho a certeza de que vai ter clientela. Sei que há escolas primárias bilingues, não só com o português, mas também com o turco e o espanhol, por exemplo. Sobre jardins de infância, não tenho dados, mas calculo que também haja. Projectos desses não são grandes raridades, na Alemanha.

      Mas não só com línguas. Sei que há um jardim de infância (não me ocorre agora o lugar) multi-religioso, chamado “Filhos de Abraão”. Esse jardim de infância, com componente religiosa, teve origem num projecto das Igrejas Católicas e Protestantes, em conjunto com a religião islâmica e judaica. Daí o nome, pois estas três religiões (incluo Católicos e Protestantes no conjunto dos Cristãos) têm em comum descenderem de Abraão (o Antigo Testamento é comum às três). As crianças que frequentem este jardim de infância recebem formação nas três religiões (adequada à sua idade, naturalmente). No início, este projecto foi muito criticado, por certos sectores da sociedade, os seus mentores chegaram a receber ameaças graves. Mas eles foram por diante e tem sido um sucesso. Li recentemente, no jornal católico que assino, que se está a proceder à construção de novo edifício, pois o existente já não dá vazão à procura.

  2. Em Cuxhaven a comunidade mais numerosa é a portuguesa, com cerca de 1300 pessoas.

    Segundo a wikipedia, há em Cuxhaven 52 mil habitantes, de onde se depreende que os portugueses perfazem quase 3% da população. Nada mau para a Alemanha, onde há relativamente poucos portugueses.

    1. É verdade. Na Alemanha, há mais de 11 milhões de estrangeiros, mas apenas cerca de 140.000 portugueses. Mesmo referindo apenas a União Europeia, os portugueses aparecem apenas em 12º lugar. No conjunto geral, é capaz de nem estar nos primeiros vinte. Há comunidades muito numerosas, como a turca (quase milhão e meio), ou a polaca e a romena, ambas estão perto do milhão, assim como a síria, por causa da guerra que lá grassa há tantos anos.

      https://www.bpb.de/kurz-knapp/zahlen-und-fakten/soziale-situation-in-deutschland/61631/auslaendische-bevoelkerung-nach-staatsangehoerigkeit/

      (os dados são de 2020; desde aí, terá havido algumas alterações, principalmente, no que respeita à comunidade ucraniana)

      A distribuição dos portugueses não é, porém, homogénea, há regiões onde se concentram mais. A comunidade de Berlim, por exemplo, cresceu muito nos últimos dez anos e é das maiores. Também há muitos em Hamburgo e na região do Ruhr, onde aliás sempre houve.

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